Sábado, 24 de Janeiro de 2026
25°C 27°C
Salvador, BA
Publicidade

Cidades seguras: ovos e serpentes da nova era

No Brasil, onde a grande maioria da população vive em cidades, é de se esperar que tenhamos nossas espécies urbanas de ofídios subculturais, em estado de gestação latente, cujos ovos começam a eclodir assim que alguém aciona suas incubadoras.

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: capitalpolitico.com
18/01/2021 às 08h55 Atualizada em 18/01/2021 às 09h12
Cidades seguras: ovos e serpentes da nova era

Felipe Sampaio

Quando Bergman e Dino De Laurentis se uniram para realizar ‘O Ovo da Serpente’, possivelmente imaginaram oferecer um manifesto de alerta aplicável a todos os povos e épocas.

Queriam demonstrar, em 1977, que toda cobra que algum dia picou a sociedade nasceu de um ovo chocado pacientemente por grupos de interesse, com a tolerância ignorante das pessoas e instituições.

O filme ilustra tais perversões sociais situando o drama na Alemanha pré-nazista dos anos 1920. A seita política nacional-socialista era, então, uma mistura de embrião e caricatura de réptil - com comportamento colérico e estética extravagante.

Nas sociedades é assim. Retrocessos sucedem avanços em ciclos históricos com intensidade e duração variáveis. Cada lugar e cada momento carregando seus próprios fatores e efeitos.

No Brasil, onde a grande maioria da população vive em cidades, é de se esperar que tenhamos nossas espécies urbanas de ofídios subculturais, em estado de gestação latente, cujos ovos começam a eclodir assim que alguém aciona suas incubadoras.

Quando isso acontece, é como abrir as gaiolas de um Butantan ideológico. Todo tipo de valores e atitudes peçonhentos ganha as ruas e, como as serpentes, hipnotizam algumas pessoas e envenenam outras.

Os cidadãos e cidadãs em geral são presas fáceis da sedução e das picadas letais dessas ideias rastejantes que se apresentam sob as mais diferentes camuflagens.

Algumas cobertas por escamas conhecidas, como os neonazistas, skinheads, supremacistas brancos, armamentistas, patriotas e machistas. Outras, mais inventivas, autoproclamam-se tribalistas masculinos, filhos da luz, mensageiros da quinta dimensão, irmãos galáticos e outras figurações tragicômicas.

Todas rompendo as cascas de seus ovos e escorregando disfarçadamente entre grupos nas redes sociais, fantasiadas de pseudo-naturalismo, terraplanismo, falso espiritualismo ou qualquer filosofância quântica.

Fica difícil saber quem nasceu primeiro, o ovo ou a serpente. Todos, porém, no final das contas, revelam-se racistas, moralistas, misóginos, homofóbicos, fascistas, oportunistas e, não raro, estelionatários.

Como toda serpente ideológica com discurso extremista, seja de caráter político, religioso, ou mesmo esotérico, seus ovos preferidos acabam sendo os dourados. As serpentes dos ovos de ouro atuais usam as redes sociais para faturarem alto com o patrocínio publicitário, obtido com o engajamento de seguidores nas plataformas digitais.

Muitas vezes, pedem aos leitores doações para a causa, enquanto os convocam para formarem correntes de energia e manifestações em apoio aos ‘guias da nova era’, como ocorrido no Capitólio norte-americano.

Incitam a aversão aos culpados de sempre pela ‘decadência humana’, como cientistas, ambientalistas, gays, comunistas, negros, políticos, mulheres e o Papa Francisco.

O resultado desse balaio de cobras é a fragilização da democracia, a desmoralização das instituições, o aumento da violência, as agressões de gênero e raça, a mediocrização do convívio e a degradação do desenvolvimento humano.

Entre ovos e serpentes, mais uma vez os prefeitos têm papel fundamental, ao implementarem a linha de frente das políticas de prevenção da violência, segurança cidadã, cultura de paz, direitos humanos, proteção às mulheres, justiça restaurativa, solução pacífica de conflitos, apoio à primeira infância, urbanismo social, convivência e redução de desigualdades urbanas.

A oferta municipal de serviços, infraestrutura e espaços públicos de qualidade, baseados em uma governança participativa sistêmica, preserva a confiança da população no Estado democrático e favorece a coesão social, por meio do exercício do pleno direito à cidade.

Sempre que o Estado, inclusive (ou principalmente) o nível municipal, se omite de sua missão fundante de prevenir e corrigir as desigualdades decorrentes dos desequilíbrios normais da economia, toda sorte de jararacas, cascavéis e surucucus se alvoroçam para substituí-lo.

Felipe Sampaio - Claborador do projeto Centro de Soberania Clima e Desenvolvimento Sustentável; Ex-Secretário Executivo de Segurança Urbana do Recife (2019-2020); Chefe da Assessoria de Relações Institucionais do Ministério da Segurança Pública (2018);e Chefe da Assessoria de Projetos do Ministério da Defesa (2016 - 2018); Assessor Especial do Ministro da Reforma Agrária no governo Fernando Henrique; consultor em desenvolvimento sustentável, regional e em programas governamentais e multilaterais, em Ongs e empresas; palestrante e autor de publicações em fóruns no Brasil e no exterior. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ 

E-mail: felipesampaio.br@gmail.com

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
Colunismo de intriga Há 2 semanas

2026 será o ano dos ataques aos parentes dos inimigos da direita

Um influencer fascista pregou essa semana nas redes sociais que é preciso agir logo e pegar a filha de Alexandre de Moraes. Esse sujeito só é diferente dos jornalões por ser mais autêntico, sincero e explícito. por MOISÉS MENDES

Constituição Cidadã Há 4 semanas

Entre a Constituição Cidadã e a Insegurança Jurídica

É triste para os operadores do direito (magistrados, membros do Ministério Público e advogados) ver o país vivenciar essa insegurança jurídica, chamada de ativismo judicial. por Ives Gandra da Silva Martins

A NOSSA AMAZÔNIA Há 4 semanas

PATAGÔNIA, A NOSSA AMAZÔNIA

A Amazônia, cujo maior território se encontra no Brasil, (e inclui também Peru, Colômbia, Venezuela, Bolívia, Equador, Guiana, Suriname e Guiana Francesa), a maior floresta tropical mundial, resguardo da biodiversidade e do controle do clima do orbe terrestre, podemos dizer que é a nossa Patagônia, assim como esse vasto território no sul do continente, repartido entre a Argentina e o Chile, seria a Amazônia destes dois países.por CARLOS PRONZATO

Brasil sequestrado. Há 1 mês

Síndrome de Estocolmo

Tudo bem se amamos odiar o presidiário, seus filhos e tudo o que o fascismo representa. Mas precisamos voltar a discutir temas urgentes. O Brasil precisa se livrar de seus sequestradores. por Carlos Zacarias de Sena Júnior

IGHB Há 1 mês

IGHB, ESSA LUZ NÃO VAI SE APAGAR

Mas, apesar de qualquer polêmica política, o governo tem o dever de distribuir os impostos que correspondem à cultura, de forma democrática. Em virtude desta angustiante situação, em setembro, o IGHB lançou a campanha “Não deixe esta luz se apagar”

COLUNISTAS.
COLUNISTAS.
Aqui você encontra profissionais que fazem a diferença trocando experiências e falando de tudo um pouco. Nossos Colunistas são especialmente convidados para dividir com você suas vivências cotidianas em um bate-papo recheado de utilidade e variedade. Os artigos, fotos, vídeos, tabelas e outros materiais iconográficos publicados nesse espaço “opinião” não refletem necessariamente o pensamento do Página de Polícia, sendo de total responsabilidade do(s) autor(es) as informações, juízos de valor.
Ver notícias
Salvador, BA
25°
Parcialmente nublado
Mín. 25° Máx. 27°
26° Sensação
1.67 km/h Vento
77% Umidade
100% (0.82mm) Chance chuva
05h23 Nascer do sol
18h07 Pôr do sol
Domingo
27° 25°
Segunda
27° 26°
Terça
27° 25°
Quarta
26° 25°
Quinta
27° 25°
Publicidade
Publicidade


 


 

Publicidade
Economia
Dólar
R$ 5,29 +0,00%
Euro
R$ 6,23 +0,00%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 501,875,77 -0,05%
Ibovespa
178,858,55 pts 1.86%
Publicidade
Publicidade
Enquete
Nenhuma enquete cadastrada
Publicidade
Anúncio