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Violência armada em 2025: o fracasso da política de confronto

Alta letalidade policial não impede expansão do crime organizado e aprofunda a insegurança nas periferias brasileiras. por Iris Rosa e Terine Coelho

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: fontesegura.forumseguranca.org.br/EDIÇÃO N.312
14/03/2026 às 12h49
Violência armada em 2025: o fracasso da política de confronto

Iris Rosa

Socióloga e Pesquisadora do Instituto Fogo Cruzado

Terine Coelho

Socióloga e Gerente de Pesquisa do Instituto Fogo Cruzado

A violência armada é uma marca persistente da realidade brasileira, e 2025 não foi exceção. O Instituto Fogo Cruzado divulgou, em fevereiro de 2026, seu relatório anual que trouxe o retrato da violência armada nas quatro regiões metropolitanas monitoradas — Rio de Janeiro, Recife, Salvador e Belém. Os dados apresentados revelam a persistência de um modelo de segurança pública fracassado e ultrapassado, baseado no confronto armado e incapaz de conter a expansão territorial das organizações criminosas.

Em 2025, foram registrados 5.846 tiroteios nos 57 municípios monitorados, resultando em 5.465 pessoas baleadas: 3.781 mortas e 1.684 feridas. O dado mais preocupante é que cerca de 33% desses disparos ocorreram no contexto de ações policiais, evidenciando a participação significativa do Estado na dinâmica da violência que ele deveria conter. Paralelamente, as disputas territoriais aumentaram 15% em relação a 2024, demonstrando que, enquanto as polícias promovem operações letais, os grupos armados expandem seu poder bélico e territorial.

Na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, foram registrados 2.315 tiroteios em 2025, o menor patamar desde 2017. Entretanto, a violência policial atingiu seu ápice: 39% dos tiroteios ocorreram durante ações policiais, a maior proporção já registrada na série histórica. No Leste Metropolitano, o percentual chegou a 54% do total. Na Baixada Fluminense, alcançou 45%.

Gráfico: Porcentagem de tiroteio em ação policial na RMRJ (2017–2025)

Esse cenário ficou explícito na Operação Contenção, realizada em outubro nos complexos da Penha e do Alemão. A operação tornou-se a mais letal da história do Brasil, com 122 mortos, expondo o uso desproporcional da força policial. A resposta do Comando Vermelho — barricadas em chamas, sequestros de ônibus e drones com explosivos — demonstrou a capacidade de reação das facções e os limites concretos da política de confronto.

Apesar da redução no número total de tiroteios, o Grande Rio bateu recordes em diversos indicadores de violência armada. As disputas territoriais atingiram seu ápice, com 275 confrontos entre facções e milícias, crescimento de 26% em relação a 2024. O número de crianças baleadas também alcançou seu maior patamar: 26 vítimas. Somando adolescentes, o total chega a 64. Esse contraste entre a queda nos tiroteios e o aumento da vitimização infantil repete o alerta já registrado em anos anteriores: sem políticas focadas neste público específico, nossas crianças continuam em risco independentemente das métricas gerais.

Em Pernambuco, o cenário foi semelhante. Foram registrados 1.483 tiroteios em 2025, redução de 15% em relação ao ano anterior — mas a queda nos disparos não se traduziu em menor vitimização. Pelo contrário, o estado bateu recorde de crianças e adolescentes baleados, com 148 vítimas, o maior número desde 2019. Outro dado que chama atenção na Região Metropolitana de Recife é o aumento de 47% nas vítimas de bala perdida, que chegaram a 72 casos. A violência doméstica também preocupa: 13% das pessoas baleadas foram atingidas dentro de casa, e 22% das mulheres baleadas foram vítimas em suas próprias residências — dado que dialoga diretamente com o aumento de 36% nos feminicídios ou tentativas registradas na região.

Já na Bahia, a polícia mantém o título de mais letal do país. Em 2025, 44% dos tiroteios na Região Metropolitana de Salvador ocorreram durante ações policiais — o maior patamar da série histórica —, resultando em 1.525 pessoas baleadas em 1.505 tiroteios. A violência policial não se expressa apenas em ocorrências cotidianas: as chacinas policiais aumentaram 82% em relação a 2024, com 95 mortes. Entre 2023 e 2025, a polícia foi responsável por 1.187 mortes apenas na região metropolitana. Entre os adolescentes baleados, 27% foram vítimas em ações do Estado. O impacto se estende ainda ao direito à educação: 20% dos tiroteios ocorreram no entorno de escolas em horário letivo, afetando 327 unidades educacionais e resultando em 349 pessoas baleadas nessas áreas — das quais 46% das ocorrências foram motivadas por ações policiais.

Na Região Metropolitana de Belém, 542 tiroteios resultaram em 499 pessoas baleadas — 391 mortas e 108 feridas. A região apresenta o maior percentual de tiroteios em ações policiais entre todas as áreas monitoradas: 45% do total, superando Rio de Janeiro e Bahia. A violência policial se reflete no aumento de 50% das chacinas e no fato de que 70% dos adolescentes baleados foram vítimas em ações do Estado. O contraste é ainda mais agudo quando se considera que, enquanto Belém se preparava para sediar a COP 30 e projetar ao mundo uma imagem de preservação e dignidade, o Pará não garantiu segurança aos seus próprios moradores — especialmente aqueles de periferias, quilombos, aldeias e comunidades ribeirinhas. Os dados revelam essa contradição com crueza: aumento de 125% nos ataques a civis e de 300% nas vítimas de bala perdida.

O quadro nacional não se explica apenas pela ausência de controle sobre as forças policiais. Ele também reflete o avanço silencioso e sofisticado do crime organizado. Entre 2019 e 2025, 550 laboratórios de refino de cocaína foram desmantelados no Brasil. Considerando que a taxa de detecção policial situa-se entre 10% e 20%, o número real de estruturas em operação pode ter chegado a 5.500. Estão em atividade 88 facções criminosas, distribuídas por todos os estados do país.

Após três anos de gestão federal, os avanços na segurança pública foram limitados. A PEC da Segurança Pública permanece paralisada no Congresso Nacional. O PL Antifacção também não avançou. O Legislativo mantém uma agenda armamentista favorável à flexibilização do acesso a armas. O único avanço concreto no controle de armas foi a transferência da gestão do CAC para a Polícia Federal, mas não houve políticas para lidar com o arsenal que já entrou em circulação, e a ausência de um programa nacional de recompra de armas permanece como desafio não enfrentado.

Os dados de 2025 são inequívocos: a política de confronto não protege a população, não reduz o poder das organizações criminosas e vitima desproporcionalmente crianças, adolescentes e moradores de periferias. A poucos meses das eleições de 2026, é fundamental que a sociedade exija dos candidatos propostas estruturantes informadas por evidências — não em promessas vazias de tolerância zero. O modelo atual segue fracassando. Já passou da hora de construir um novo paradigma de segurança pública, fundado em investigação, inteligência, direitos humanos e efetiva proteção da vida.

fontesegura.forumseguranca.org.br/EDIÇÃO N.312

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