
Helena tinha 29 anos, era estudante de sociologia, ativa em coletivos, lia Simone de Beauvoir e repetia com convicção que ser feminista era ser dona do próprio corpo. Quando descobriu que estava grávida, não houve dúvida para ela. Não era a hora, não era o plano, não era o corpo que ela queria dividir. Decidiu interromper a gestação.
Por medo e vergonha, procurou uma clínica clandestina nos fundos de uma rua abafada. Lá a esperavam o Dr. Elias Morais, um médico de 62 anos, conhecido por ser espírita e por atender esses casos em silêncio, e Dona Cida, uma senhora de 71 anos que o auxiliava há mais de vinte anos.
A sala era fria, com cheiro de éter. Helena deitou-se. O Dr. Elias preparou o fórceps.
Foi no instante em que o instrumento tocou o interior do útero que tudo mudou.
Uma voz pequena, nítida, ecoou não fora, mas de dentro.
"Mamãe, não deixe que façam isto comigo..."
O médico paralisou. Olhou para Dona Cida. Ela também tinha ouvido.
"Eu estou com medo mamãe, me salve..."
Helena começou a chorar. Não era choro de arrependimento ainda, era pavor. A voz continuava, agora mais angustiada:
"Socorro mamãe, este ferro está me ferindo..."
Dona Cida segurou a mão de Helena e sussurrou: "A senhora está ouvindo, doutor?"
Dr. Elias, suando, tentou se recompor. Como médico, dizia a si mesmo que era delírio, audição afetada pelo nervosismo. Como espírita, sabia que algumas vozes não vêm do mundo material. Seu lado espírita falava mais alto, mas seu orgulho e sua rotina falaram ainda mais alto. Ele seguiu. "É impressão, vamos continuar", disse, com a voz trêmula, e avançou com o procedimento.
Naquele momento, Helena começou a passar mal. Sua pressão caiu, o rosto ficou pálido, o ar lhe faltou. Dona Cida correu para pegar o balão de oxigênio.
Foi então que o Dr. Elias viu, ao lado da maca, um homem alto, de capa preta, cuja presença gelava o ambiente. Ninguém mais parecia vê-lo no início. Ele olhou para Helena, que se debatia sem ar, e disse ao médico com uma voz grave e sem emoção:
"Ela não negou a vida ao filho? Então negue a vida a ela também."
Helena, em desespero, gritou: "Dr. por favor, coloque a máscara, eu não consigo respirar!"
O médico tentou alcançar o oxigênio, mas o homem de capa preta o fixou nos olhos e sentenciou:
"Qual o direito que ele tem e pode em tirar uma vida? O que ela negou a ela será negado."
E, ato contínuo, sumiu da sala.
O silêncio que ficou foi sepulcral. A voz da criança já não se ouvia mais.
Dr. Elias colocou a máscara, tentou reanimação, chamou Dona Cida, tentou estancar o sangramento que agora era incontrolável. Mas era tarde. O corpo de Helena, em choque, não reagia. O coração do feto, ferido pelo instrumento, já havia parado minutos antes.
Naquela sala clandestina, o médico não conseguiu salvar nem a mãe, nem o feto.
A morte do filho que a mãe tanto quis negar venceu, e ainda a levou também. Duas vidas se foram onde uma havia decidido que só uma importava.
Bel. Luiz Carlos Ferreira de Souza
Brasileiro, baiano, casado, 63 anos, Servidor público aposentado pelo Estado da Bahia, Residente no Rio Grande do Sul e Rubro-negro das antigas, ex-diretor da Colônia Penal de Simões Filho/BA.
Formação Acadêmica:
# Mestrando em Políticas Públicas (em andamento)
# Pós-graduado em Ciências Criminais, Política e Estratégia
# Acadêmico em Direito
# Acadêmico em História
# Técnico em Redator Auxiliar
Atuação Profissional:
Colunista da PÁGINA DE POLÍCIA – Analista de Segurança Pública, políticas criminais e questões jurídico-sociais.
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Perfil Profissional:
Especialista em segurança pública e políticas criminais, com ampla experiência em análise jurídico-social e estratégias de políticas públicas. Sua trajetória acadêmica e profissional é marcada pelo compromisso com a justiça social, a valorização das instituições de segurança e a crítica construtiva às estruturas de poder. Suas colunas abordam temas urgentes, como a desvalorização salarial de policiais, a eficiência das políticas de segurança e os desafios do sistema judiciário brasileiro.
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