
Aposentar da polícia civil é trocar a viatura pela rotina de casa. Por décadas o ritmo foi sirene, plantão, adrenalina e responsabilidade por vidas. De repente, o rádio cala. E aí bate a pergunta: quem eu sou sem a placa e sem a ocorrência?
A resiliência aqui é começar aceitando que existe luto sim. Você perde horário, missão, hierarquia e até o vocabulário do dia a dia. É normal sentir vazio, irritação ou a sensação de “não ser mais útil”. Negar isso só adia o recomeço.
Policial civil vive pra proteger, investigar, fazer justiça. Aposentadoria não apaga o propósito, só muda o campo de atuação. Muita gente migra para o voluntariado (ONGs, conselho tutelar, palestras em escolas sobre segurança);
Consultoria (segurança privada, investigação particular, cursos pra concursos);
Hobbies que viram renda (marcenaria, mecânica, doces da esposa que viram negócio, etc).
Sem plantão, o dia desanda rápido. Resiliência é criar nova disciplina: hora pra acordar, pra caminhar, pra estudar algo novo. O cérebro policial é treinado pra missão. Dê uma missão pra ele todo dia, mesmo que seja pequena.
Anos de instituição ensinam a resolver sozinho. Mas a aposentadoria cobra o oposto: falar do que sente, dividir medo do futuro, rir de coisa boba. Amigos da ativa, família, grupo de aposentados da PC, principalmente nas redes sociais. Quem passou pela mesma transição entende sem você explicar.
Adrenalina baixa, dores aparecem, sono muda. Resiliência física é parte do jogo: caminhada, musculação leve, check-up em dia. Você cuidou da sociedade por anos. Agora cuida de você.
Aposentar não é ponto final. É mudança de turno. A mesma firmeza que te fez entrar numa ocorrência de madrugada serve pra construir essa nova fase. Lento, um dia de cada vez.
Eu, agradeço a Deus pela vida, pelo que vivi e ainda tenho a viver, divito-me com o que tenho, e busco sempre aprender um pouquinho mais. Escrevo, leio, pratico os meus hobbies, de preferência "dar um rolê de moto".
Lembro da canção de Chico Buarque, sinal fechado: "
"Olá, como vai
Eu vou indo, e você, tudo bem
Tudo bem, eu vou indo, correndo
Pegar meu lugar no futuro, e você..."
Sobre o autor:
(*) Luiz Ferreira é articulista e analista político, com atuação voltada à leitura crítica da história política brasileira contemporânea. Acompanha de forma permanente os movimentos ideológicos, as relações de poder e os impactos das decisões governamentais na vida da sociedade. Seus textos priorizam a análise histórica, o debate público e a formação de opinião, com foco no interesse do cidadão comum.
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