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Reflexões sobre educação financeira e endividamento de policiais

O endividamento dos profissionais da segurança pública é agravado por fatores como consumismo, pressão social, compensações emocionais, vícios e dinâmicas familiares pouco saudáveis. (Juliana Lemes da Cruz e Rosângela Maria Guimarães Rosa)

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: fontesegura.forumseguranca.org.br/EDIÇÃO N.286
18/08/2025 às 11h54 Atualizada em 18/08/2025 às 13h36
Reflexões sobre educação financeira e endividamento de policiais

O consumismo, a pressão social, as compensações emocionais, vícios e alguns casos das dinâmicas familiares pouco saudáveis constituem o conjunto de fatores que agravam a realidade de endividamento desses profissionais da segurança pública.  por Juliana Lemes da Cruz e Rosângela Maria Guimarães Rosa

O crédito consignado, modalidade de empréstimo com juros aparentemente atrativos que prevê desconto em folha de pagamento, é um dos maiores vilões quando o assunto é endividamento de policiais. Por um lado pode representar boa oportunidade para alguns servidores da segurança pública; para outros, é cilada. Isso porque os riscos associados à profissão, embora conhecidos, ainda são negligenciados.

A segurança pública é uma das políticas setoriais que está entre as maiores preocupações dos brasileiros. Assim, no esforço de oferecer respostas às questões latentes associadas à matéria, os estados tendem a apostar, numa primeira manobra, no incremento dos seus recursos logísticos (armas, equipamentos, munição, veículos…); depois, miram o efetivo policial (em números). São dois elementos determinantes na produção de desdobramentos quanto à qualidade da prestação de serviço na ponta da linha. No entanto, há outros. A saúde física, psíquica, social e financeira dos policiais também integra o conjunto de elementos condicionantes nesse processo.

Assim, considerando o estresse gerado pela natureza da função, importante relembrar que, entre os seis fatores potencializadores do agravamento do adoecimento psíquico de policiais se encontra o “endividamento” (Anuário 2023[1]). Frente aos demais (assédio moral, admissão do papel de “policial herói”, desgaste físico e mental em razão do contato continuado com situações de perigo, cobrança institucional pelo cumprimento de metas e insegurança jurídica), esse estresse financeiro decorrente de situações imprevistas, tensionadas pela ausência de planejamento, tem ganhado espaço nos debates no campo da formação policial.

O destaque sobre a presente discussão ocorre em razão da iniciativa dos majores Albuquerque, Kemps e Rawlinson, oficiais da Polícia Militar do Maranhão que, sob a orientação da professora doutora Rosângela Maria Guimarães Rosa e do coronel Augusto Carlos Magalhães, decidiram propor intervenção sustentada na criação de uma disciplina de educação financeira aplicada aos currículos dos cursos de formação das praças e oficiais da corporação. O estudo ganhou eco no âmbito de pós-graduação promovida pela Universidade Federal do Maranhão em parceria com a Polícia Militar do Maranhão, denominada de Curso de Comando e Estado Maior – CCEM.

Ainda que o perfil admitido nos cursos de formação tenha mudado nos últimos anos, os jovens de classe baixa ainda são o retrato das turmas que ingressam nas corporações Brasil afora. Nesse cenário, em que pese a disparidade salarial dos policiais nas distintas Unidades Federativas (Raio X[2]), o corpo dos agentes conta com remuneração acima da média salarial da maioria da população do país. Somada a isso, a possibilidade de um passo adiante na escala da hierarquia social, e ainda, com amplo acesso ao crédito.

Sob tal horizonte, questiona-se qual seria a relação entre a falta de educação financeira e o endividamento de policiais militares. Nessa investida, o grupo de oficiais buscou jogar luz no problema de modo a provocar a reflexão intracorporações e consequente mudança de visão sobre o assunto.

No estudo preliminar junto a quase duzentos policiais militares da PMMA, constatou-se que 85,7% dos respondentes já realizaram algum tipo de empréstimo; desse universo, quase 60% não têm uma reserva de emergência.

Para além do campo curricular, nota-se que as práticas adotadas pelas instituições financeiras merecem especial atenção. Não raro, assediam policiais na porta dos quarteis, por contato telefônico e até por mensagens nas redes sociais. Para alguns é uma boa chance; para outros, pode ser o início de um pesadelo. Ao que parece, a inserção da disciplina de educação financeira funcionaria como um dos mecanismos de apoio àquele público.

Por outro lado, sem medidas preventivas na área, haverá terreno fértil à vulnerabilidade financeira, à tomada de decisões impulsivas e à perpetuação de ciclos de endividamento. Isso sem problematizar a questão da insegurança jurídica, que acaba demandando despesas que absorvem reservas dos que não as têm e forçam a busca por refinanciamento dos que ainda dispõem de crédito.

Como nesse ambiente uma dificuldade vem acompanhada de outras, o consumismo, a pressão social, as compensações emocionais, vícios e alguns casos das dinâmicas familiares pouco saudáveis constituem o conjunto de fatores que agravam a realidade de endividamento. Nessa direção, sobrevêm riscos à saúde e/ou agravamento do adoecimento psíquico.

REFERÊNCIAS

[1] Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2023

[2] Raio X das forças de segurança pública no Brasil.

Disponível AQUI:  

JULIANA LEMES DA CRUZ - Doutora em Política Social (UFF), cabo na PMMG e presidente do Conselho do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

ROSÂNGELA MARIA GUIMARÃES ROSA - Doutora em Saúde Pública (UFRJ), pós-doutora em Direitos Humanos (Universidade de Salamanca/Espanha), docente na UFMA e coordenadora do Curso de Comando e Estado Maior (CCEM/UFMA-PMMA).

fontesegura.forumseguranca.org.br/EDIÇÃO N.286

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