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ENTRE CÂMERAS E PROTOCOLOS: Os limites da política institucional das polícias na era da transparência

Abordagem recente da PM na zona leste da capital paulista, que terminou com a morte de uma mulher, reforça debate sobre as formas de lidar com a exposição proporcionada por câmeras de celulares e redes sociais. por Juliana Lemes da Cruz

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: fontesegura.forumseguranca.org.br/EDIÇÃO N.318
21/04/2026 às 15h09 Atualizada em 21/04/2026 às 15h21
ENTRE CÂMERAS E PROTOCOLOS: Os limites da política institucional das polícias na era da transparência

Juliana Lemes da Cruz

Doutora em Política Social (UFF), Cabo na PMMG (Sargento em formação) e Conselheira do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

A atuação policial nunca foi tão visível. Com a popularização das redes sociais e a disseminação de dispositivos capazes de registrar e transmitir eventos em tempo real, ocorrências que antes se encerravam em boletins internos passaram a circular amplamente no espaço público — sujeitas a julgamento imediato, contestação e disputa de narrativas.

Esse novo ambiente não apenas amplia o controle social sobre a atividade policial, como também expõe limites estruturais do modelo de atuação vigente. Diante desse cenário, torna-se cada vez mais necessário repensar a política de segurança pública, especialmente no que diz respeito à formação, aos protocolos e à gestão do trabalho policial.

No início de abril de 2026, uma abordagem policial na zona leste de São Paulo terminou com a morte de uma mulher de 31 anos, baleada por uma policial militar de 21 anos. Registrado por câmera corporal, o episódio ganhou repercussão nacional e rapidamente suscitou questionamentos sobre a proporcionalidade do uso da força, a formação da agente e a condução da ocorrência. Mais do que um evento isolado, o caso ilumina um padrão recorrente: situações de rápida escalada, marcadas por ruptura de comunicação e tensão crescente, nas quais se evidenciam os limites dos protocolos tradicionais.

Nesse contexto de exposição permanente, a segurança pública brasileira atravessa um momento de inflexão. A tramitação da PEC 18/2025, ao propor o fortalecimento do Sistema Único de Segurança Pública (SUSP) e ampliar a integração entre instituições, recoloca no centro do debate a necessidade de reorganização do modelo vigente. Embora a proposta avance na coordenação federativa e no enfrentamento ao crime organizado, ela também dá o ensejo para uma discussão mais ampla: os limites da política institucional das polícias diante das transformações recentes da vida social.

Esse descompasso se torna particularmente visível quando se observam as demandas que chegam às ruas. Conflitos interpessoais, situações de tensão emocional e ocorrências ambíguas têm sido, cada vez mais, tratadas sob a lógica policial tradicional — orientada para o controle e a resposta a ameaças objetivas, mas nem sempre adequada para lidar com a complexidade dessas interações.

Se esses limites já eram relevantes, tornam-se ainda mais claros em um ambiente marcado pela ampliação da visibilidade da atuação estatal. A difusão de plataformas como Instagram e TikTok transformou profundamente a relação entre polícia e sociedade. Hoje, mais de 80% dos brasileiros têm acesso à internet, e o país figura entre os que mais consomem redes sociais no mundo — um cenário em que praticamente toda intervenção policial pode ser registrada, compartilhada e reinterpretada em questão de minutos.

Nesse novo contexto, o controle da atividade policial deixa de ser exclusivamente interno e passa a ser também social. A legitimidade da ação estatal não se constrói apenas na conformidade com a lei, mas na forma como essa ação é percebida. A exposição contínua impõe um deslocamento importante: não basta agir dentro dos parâmetros legais; é necessário que a ação seja reconhecida como legítima por uma sociedade que observa, registra e compartilha.

Diante dessa realidade, a política institucional de boa parte das polícias ainda opera, em grande medida, sob pressupostos de baixa visibilidade. Protocolos de abordagem, modelos de formação e práticas organizacionais foram estruturados em um contexto no qual o registro das ações era limitado e o controle público, restrito. Essa defasagem entre o ambiente atual e o desenho institucional produz tensões crescentes — tanto para as corporações quanto para os próprios policiais.

Na prática, o agente contemporâneo atua em duas arenas simultâneas: a ocorrência concreta e sua projeção pública. Cada decisão tomada no calor da ação carrega não apenas consequências operacionais, mas também potenciais repercussões sociais. Imagens fragmentadas podem ganhar novos significados fora do contexto em que foram produzidas, ampliando o grau de incerteza e pressão sobre o trabalho policial.

Essa exposição permanente não cria, por si só, os problemas da segurança pública, mas elimina a possibilidade de ignorá-los. Registros audiovisuais ampliam o debate sobre proporcionalidade, necessidade e legalidade do uso da força, transformando decisões locais em questões de interesse público. Casos registrados por câmeras — de operações nacionais até episódios internacionais como o de George Floyd — levam-nos a concluir que a visibilidade torna incontornável o enfrentamento de práticas problemáticas.

Diante desse cenário, a necessidade de revisão da política institucional das polícias se impõe. Não se trata apenas de adaptar procedimentos pontuais, mas de reconhecer que a visibilidade deve ser incorporada como elemento estruturante da atuação estatal. Isso implica revisar protocolos de abordagem, investir em práticas de desescalada e ampliar o foco na comunicação e na mediação como competências centrais do trabalho policial.

Também exige uma postura institucional mais transparente e proativa. A gestão da informação, o diálogo com a sociedade e a capacidade de reconhecer falhas passam a ser componentes essenciais para a construção de confiança. Transparência, nesse contexto, não é apenas uma demanda externa, mas uma condição de legitimidade.

Ao mesmo tempo, é necessário considerar os impactos dessa transformação sobre os próprios policiais. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública indicam que esses profissionais estão entre os mais expostos a estresse ocupacional e a riscos à saúde mental — cenário que tende a se intensificar com o monitoramento contínuo e a pressão por desempenho público.

A ampliação do registro e da circulação de imagens não representa apenas uma inovação tecnológica, mas uma mudança profunda na forma como o poder estatal é exercido e percebido. Se pretende manter sua efetividade e legitimidade, a política de segurança pública precisa acompanhar essa transformação.

Em um cenário de exposição permanente, insistir em modelos pensados para o sigilo tende a aprofundar conflitos e desgastes. O controle da atividade policial deixou de ser exclusivamente institucional e passou a ser também social. Incorporar essa realidade não é apenas um desafio — é uma condição para a construção de uma segurança pública mais democrática, transparente e compatível com as exigências do presente.

fontesegura.forumseguranca.org.br/EDIÇÃO N.318

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