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Um Doutor da Política brasileira

Raul Jungmann ocupa a condição, cada vez mais rara, de ser chamado de Político, com ‘P’ maiúsculo mesmo, para que não confundamos com as frivolidades da política com ‘p’ minúsculo com as quais o noticiário ainda nos espanta, mas já não nos surpreende.

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: fontesegura.forumseguranca.org.br/ | EDIÇÃO N.279
31/05/2025 às 22h50
Um Doutor da Política brasileira

Raul Jungmann ocupa a condição, cada vez mais rara, de ser chamado de Político, com ‘P’ maiúsculo mesmo, para que não confundamos com as frivolidades da política com ‘p’ minúsculo com as quais o noticiário ainda nos espanta, mas já não nos surpreende.

O ex-ministro Raul Jungmann recebeu do Instituto de Desenvolvimento, Ensino e Pesquisa (IDP) o título de Doutor Honoris Causa. Desse modo, seu fundador, Gilmar Mendes, decano da Suprema Corte, formalizou o reconhecimento à contribuição do homenageado no campo da Política. E, se Noberto Bobbio acertou em que “os fins da Política são tantos quantas são as metas […] de acordo com os tempos e circunstâncias“, é justo pensar que o Brasil encontrou em sua história recente um dos seus professores.

Afinal de contas, foi com militância e trabalho que o Raul conquistou a condição, cada vez mais rara, de ser chamado de Político. Com ‘P’ maiúsculo mesmo, para que não confundamos com as frivolidades da política com ‘p’ minúsculo com as quais o noticiário ainda nos espanta, mas já não nos surpreende.

Em seu discurso de diplomação, por exemplo, foi sutil e afirmativo ao parabenizar o Judiciário e as Forças Armadas por suas posições decisivas para a Democracia nos últimos anos. Estiveram na cerimônia ministros do STF, ex-ministros da Justiça, parlamentares, juristas, comandantes militares e representantes da sociedade civil.

Tive a sorte de ser uma espécie de estagiário em um think tank que o Raul fundara em Recife no início dos anos 1990, o IDEC – Instituto de Estudos da Cidadania. O cara já conseguia atuar simultaneamente em temas tão diversos como a ressocialização de jovens da Funabem, economia do Nordeste, educação de adultos, enquanto dirigia a federação nacional de secretários municipais de educação e trabalhava em projetos de ONGs como a Ashoka.

No corredor daquele prédio art déco em Recife, você poderia, inesperadamente, esbarrar com o ainda senador Fernando Henrique Cardoso, a socióloga Ruth Cardoso, o governador do Ceará Tasso Jereissati, ou Paulo Freire. O Raul é aquilo que Ted Roosevelt chamava de “o homem que se encontra na arena, com a face suja de poeira”. Sabe que na democracia moderna os cargos públicos têm a ver com trabalho e não com poder, como diria Flavio Dino, presente à diplomação no IDP.

Em 2018, ainda ministro da Defesa, o Raul reuniu sua equipe mais próxima para perguntar se ele deveria aceitar o convite do presidente Temer para estruturar um Ministério da Segurança Pública. Daquela conversa participaram o seu chefe de gabinete Alessandro Candeas (que viria a ser o embaixador do Brasil na Palestina durante a crise de Gaza), o economista Flávio Basílio, (futuro SENASP que idealizaria as fontes financeiras do Fundo Nacional de Segurança Pública), o assessor de comunicação João Bosco (que foi diretor do Estadão por 20 anos), o brigadeiro Tadeu Fiorentini (futuro Chefe do Estado Maior da FAB) e eu como chefe da assessoria.

Precipitados, fomos unânimes em opinar que seria mais tranquilo permanecer na Defesa, naqueles últimos meses de governo, do que assumir a conturbada Segurança Pública. O que nós não sabíamos é que ele já havia aceitado a tarefa! Havíamos esquecido que, assim como Tancredo Neves, o Raul entendia que “a Pátria não é a aposentadoria dos heróis”. Ou, como diria seu conterrâneo Eduardo Campos, “se fosse fácil, não seria conosco”.

Raul Jungmann foi secretário de Planejamento de Pernambuco, secretário-executivo do Ministério do Planejamento (onde viu de perto a implantação do Plano Real), presidente do IBAMA e do INCRA, ministro da Reforma Agrária (quando foram assentadas quinhentas mil famílias), vereador do Recife, deputado federal por três mandatos, ministro da Defesa, ministro da Segurança Pública, fundou o Centro Soberania e Clima e o IREE Segurança Pública, é membro do Conselho do CEBRI e preside o Instituto Brasileiro de Mineração IBRAM.

Dentre suas contribuições no tema da Segurança Pública, destacam-se o Estatuto do Desarmamento, a abertura das investigações do caso Marielle Franco, a criação da Política e do Sistema Único de Segurança Pública (SUSP), a oficialização das loterias federais como fonte regular de recursos para o Fundo Nacional de Segurança Pública e a revitalização do Conselho Nacional de Segurança Pública. Sempre atento ao Estado de Direito e ao bem-estar social.

(*) Felipe Sampaio - Cofundador do Centro Soberania e Clima; ex-diretor do Instituto de Estudos de Defesa no Ministério da Defesa; ex-diretor do sistema de estatísticas do Ministério da Justiça; ex-secretário executivo de Segurança Pública do Recife; colabora com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

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