Sexta, 24 de Abril de 2026
25°C 27°C
Salvador, BA
Publicidade

COCAÍNA EM ALTA: dinâmicas do tráfico e seus efeitos da América Latina à Europa

É urgente reforçar o controle portuário, ampliar a cooperação internacional e aprimorar a inteligência financeira e institucional para enfrentar os impactos do mercado europeu na segurança nacional.

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: fontesegura.forumseguranca.org.br/ |EDIÇÃO N.276
30/05/2025 às 14h46
COCAÍNA EM ALTA: dinâmicas do tráfico e seus efeitos da América Latina à Europa

É urgente fortalecer o controle portuário no Brasil, expandir a cooperação internacional e estruturar inteligência financeira e institucional capaz de conter os efeitos do mercado europeu que, embora distante, impõe desafios concretos e crescentes à nossa segurança nacional

Nos últimos anos, a Europa tem testemunhado uma escalada na disponibilidade de cocaína, consolidando a droga como a segunda substância ilícita mais consumida no continente, atrás apenas da cannabis. O European Drug Report 2024, publicado pela European Union Drug Agency, confirma uma tendência observada há mais de uma década: além do recorde de 323 toneladas apreendidas em 2022, intensificaram-se também os impactos sobre a saúde pública, a violência urbana e os sistemas de controle ao tráfico.

Esse crescimento levanta uma questão central para as políticas de drogas e segurança pública: o que os números realmente revelam e quais são suas implicações? Dados complementares deixam claro que o aumento das apreensões não reflete apenas a maior eficácia das agências de segurança, mas sobretudo uma maior disponibilidade da substância. Indicadores indiretos — como pesquisas populacionais de consumo, traços de cocaína nas águas residuais e registros hospitalares — confirmam o aumento do consumo, inclusive entre populações vulneráveis e em cidades que antes estavam fora do radar.

Fatores geopolíticos e transformações no mercado global de drogas ajudam a explicar esse cenário. Com o mercado norte-americano mais saturado e suas rotas altamente vigiadas, redes criminosas latino-americanas buscam aumentar a diversificação e direcionar parte de sua produção para a Europa. Além disso, a queda na produção de ópio no Afeganistão após a proibição do cultivo de papoula pelo Talibã reduziu a oferta de heroína, abrindo espaço para a cocaína, inclusive entre usuários de drogas injetáveis. A droga também se tornou mais acessível devido ao seu alto grau de pureza e ao preço estável, ampliando sua presença em diferentes estratos sociais.

Diante dessa pressão crescente, os mecanismos de controle e repressão na Europa foram fortalecidos. Houve aumento de operações policiais, investimentos em escaneamento de cargas, intercâmbio de inteligência entre países e cooperação internacional inclusive com os países de origem. Ainda assim, o crime organizado reagiu com sofisticação: rotas alternativas foram ativadas, cargas lícitas passaram a ser quimicamente contaminadas ocultando a droga e laboratórios de refino foram instalados dentro do próprio continente — o que evidencia a adaptação estrutural dessas redes.

Nesse contexto, a Alemanha desponta como um estudo de caso representativo das novas dinâmicas do tráfico europeu. Embora não fosse, historicamente, um dos principais países de apreensão, registrou em 2023 o maior volume de sua história: 43 toneladas de cocaína, com o Porto de Hamburgo como principal ponto de entrada, de acordo com informações do Bundeskriminalamt (Departamento Federal de Polícia Criminal da Alemanha – BKA). Maior porto comercial da Alemanha e terceiro da Europa, Hamburgo tornou-se alvo das redes criminosas que buscam diversificar rotas para escapar do maior controle nos portos ibéricos e holandeses.

A droga apreendida em solo alemão provém, sobretudo, de Colômbia, Equador e do Brasil, que se consolidou como corredor logístico das remessas sul-americanas. A cocaína transita por regiões da Amazônia — próximas aos centros produtores — e pelo Sudeste brasileiro, onde se aproveita da infraestrutura portuária e do comércio com a Europa. Portos como Santos e Paranaguá figuram com frequência em investigações internacionais. No entanto, do outro lado da remessa, os grupos responsáveis pela logística e distribuição na Europa são, em sua maioria, europeus — alemães, albaneses, turcos, italianos e holandeses. Os latino-americanos vendem a cocaína no atacado, mas não participam das etapas finais da distribuição, como ocorre nos Estados Unidos, por exemplo.

A crescente oferta e o consumo na Europa não resultaram, até o momento, em um aumento proporcional dos homicídios. No entanto, os efeitos colaterais são significativos: há registros de corrupção de funcionários portuários, ameaças, disputas entre grupos criminosos e sobrecarga dos serviços públicos. Esses impactos, embora menos visíveis que a violência letal, comprometem a governança urbana e a resiliência institucional em pontos estratégicos.

Diante desse panorama, compreender a engrenagem transnacional da economia da cocaína é fundamental — não apenas para a Europa, mas também para os países latino-americanos envolvidos na cadeia logística. O crescimento da demanda europeia alimenta a intensificação da atividade criminosa ao longo de toda a rota, incentivando a produção, o armazenamento e o escoamento da droga em países como o Brasil. Isso pressiona regiões de fronteira, amplia a competição entre facções, compromete estruturas portuárias e eleva os riscos de corrupção institucional.

Nesse sentido, a resposta brasileira precisa articular segurança pública, diplomacia e política criminal. Não basta investir apenas em repressão. É urgente fortalecer o controle portuário, expandir a cooperação internacional e estruturar inteligência financeira e institucional capaz de conter os efeitos de um mercado que, embora distante geograficamente, impõe desafios concretos e crescentes à nossa segurança nacional.

Ariadne Natal

Doutora em Sociologia, Pesquisadora Associada do Peace Research Institute Frankfurt (PRIF) e do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (NEV-USP), Associada Plena do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

fontesegura.forumseguranca.org.br/ |EDIÇÃO N.276

Clique na IMAGEM e acesse a Coluna Fonte Segura/PÁGINA DE POLÍCIA, espaço destinado para publicações de artigos dos articulistas do Fonte Segura/Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

 

*COMENTE A MATÉRIA E COMPARTILHE!*

Se *INSCREVAM* no Canal do YouTube, clique no *"GOSTEI"* e compartilhe...:

 @tvpaginadepolicia

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
Episódio 5 Há 3 dias

CONVERSA DE SEGURANÇA

Podcast Conversa de Segurança – Episódio 5

PERÍCIA EM EVIDÊNCIA Há 3 dias

IA vai substituir o CSI?

A Inteligência Artificial é uma ferramenta que apresenta limitações técnicas. Uma vez que seus sistemas operam com base em probabilidades e padrões estatísticos, pode dar origem a informações incorretas com aparência de verdade.  por  Thyone Almeida de Rosa

PROFISSÃO POLÍCIA Há 3 dias

ENTRE CÂMERAS E PROTOCOLOS: Os limites da política institucional das polícias na era da transparência

Abordagem recente da PM na zona leste da capital paulista, que terminou com a morte de uma mulher, reforça debate sobre as formas de lidar com a exposição proporcionada por câmeras de celulares e redes sociais. por Juliana Lemes da Cruz

Múltiplas Vozes Há 3 dias

Orçamento Público e Militarização da Segurança: Prioridades Estatais e Expansão do Aparato Repressivo nos Estados Brasileiros

As matrizes militarizadas se caracterizam pela centralidade do policiamento ostensivo, pelo fortalecimento institucional das corporações armadas e pela adoção de estratégias repressivas como principal mecanismo de enfrentamento da violência urbana. por Giselle Florentino e Fransérgio Goulart

Múltiplas Vozes Há 2 semanas

O POLICIAL COMO PROFISSIONAL DA COMUNICAÇÃO: Voz e Escuta Ativa no Processo de Gestão de Conflitos

A escuta ativa, qualificada e humanizada, sustenta a leitura da cena de ação, a avaliação dos riscos e a tomada de decisão justa, ética e proporcional, evitando julgamentos baseados em estereótipos sociais, preconceitos e reprodução de estigmas. Por STEPHANIE MAYRA DE MORAES e FRANCIS ALBERT COTTA

FONTE SEGURA
FONTE SEGURA
Espaço dos articulistas do FONTE SEGURA/Fórum Brasileiro de Segurança Pública, dedicado a análises baseadas em dados e transparência para qualificar o debate sobre segurança pública. O projeto conecta fatos e estruturas, promove cooperação federativa e alcança leitores em diversos países.
Ver notícias
Salvador, BA
27°
Tempo nublado
Mín. 25° Máx. 27°
29° Sensação
4.68 km/h Vento
76% Umidade
100% (16.69mm) Chance chuva
05h40 Nascer do sol
17h23 Pôr do sol
Sábado
27° 26°
Domingo
27° 26°
Segunda
27° 26°
Terça
27° 26°
Quarta
27° 26°
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Economia
Dólar
R$ 4,98 +0,00%
Euro
R$ 5,84 +0,00%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 408,377,81 -0,34%
Ibovespa
190,745,02 pts -0.33%
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Enquete
Nenhuma enquete cadastrada
Publicidade
Anúncio