
O A P A G Ã O ...em apuração eleitoral não é fato novo ou isolado. Na Bahia, há 22 anos, em outubro de 2004, ocorreu o mesmo travamento.
Mude o cenário, mude a década, mas a justificativa oficial e as sombras que pairam sobre o processo continuam rigorosamente as mesmas. Quem tem memória institucional, faro de rua e o olhar crítico de um investigador, não pôde evitar o forte sentimento de déjà vu, ao acompanhar o travamento (apagão) na apuração das Eleições de 2026.
O roteiro e comportamento do sistema parecem uma cópia carbono daquele distante outubro de 2004, no Estado da Bahia, quando a apuração para a Prefeitura de Salvador, congelou, ao subverter as expectativas dos eleitores e dos institutos de pesquisa.
A granA grande contradição... reside na diferença temporal de 22 anos. Em 2004, a engenharia de TI vivia uma realidade que hoje podemos classificar como quase "analógica" em termos de processamento de rede. Naquele primeiro turno - como hoje -, na capital baiana, as pesquisas oficiais apontavam um segundo turno desenhado entre João Henrique (PDT) e Nelson Pellegrino (PT). No entanto, na hora apuração, após um longo e estranho travamento do sistema, o resultado final pregou uma peça nas projeções: deu César Borges (PFL), carlista raiz, na segunda vaga.
Questionado pela imprensa e pela sobre o motivo da pane que mudou o rumo dos fatos, o então presidente do TRE-BA, desembargador Carlos Cintra, limitou-se a levantar as mãos, com olhar e gesto de espanto, deu uma resposta que entrou para a história política baiana: "Não sei".
Naquela época, a desculpa do desconhecido até podia ser engolida por falta de alternativa técnica - como numa cirurgia analógica do passado, onde uma equipe médica surpreendida por uma complicação súbita podia ficar sem respostas imediatas. Mas duas décadas depois, o ecossistema mudou por completo. Entramos na era da Inteligência Artificial, da computação em nuvem elástica e de sistemas online avançados. Hoje, em uma cirurgia robótica moderna, o procedimento pode ser feito sem a presença física do cirurgião humano no recinto, pois qualquer anomalia na rede ou nos braços mecânicos é detectada, diagnosticada e corrigida em milissegundos pela própria IA.
Às 19 horas, início do apagão
Dizer que em 2026 uma apuração de votos travou "pelo volume de dados" não é apenas um erro de engenharia; é uma afronta à lógica atual. Ora, foi a nível nacional, será que no TSE não houve testes de estresse antes? Se a tecnologia deu um salto quântico e a resposta para o "apagão", às 19 horas, continua sendo muita coincidência de horário e justificativa do "acúmulo de dados" de 22 anos atrás, ocorrido nas eleições na Capital baiana, o silêncio constrangedor da grande imprensa e o pior: recuo dos institutos de pesquisas - que se comprometem ao calar diante do erro de suas projeções - acendem o alerta vermelho.
A solução para esse impasse não exige fórmulas tecnológicas mirabolantes, mas sim o retorno aos fundamentos básicos do Direito e da administração pública, conforme preconiza o Artigo 37 da Constituição Federal, que coloca a princípio da publicidade como pilar obrigatório de qualquer ato do Estado. Como aprendi nos bancos da Academia de Polícia Judiciária Nelson Pinto (ACADEPOL), no curso de formação de Investigador de Polícia, a Justiça e a verdade material se alimentam de provas materiais e objetivas, e nunca de convicções subjetivas - historicamente apelidadas nas delegacias como as "provas prostitutas" do processo.
A saída legítima e prática é unir a modernidade à segurança jurídica: o voto permanece digitalizado, mas o ato comprobatório precisa ser impresso e depositado de forma automática, gerando a contraprova física necessária para qualquer auditoria. A Inteligência Artificial e a tecnologia de ponta estão aí para servir como ferramentas de suporte na ciência, na educação e na atividade policial, e não para agir como atores ou autores soberanos e inquestionáveis de um resultado.
Quando os responsáveis técnicos recorrem à velha narrativa de 2004 das eleições no Estado da Bahia, em plena era da IA, fica o registro incômodo: a tecnologia avançou no papel, mas a velha engenharia de manipulação e a falta de transparência continuam operando de forma estritamente analógica.
(*) Crispiniano Daltro
Investigador de Polícia / Ba. Administrador Público - Especialista em Gestão Pública Municipal - UNEB
