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Universidades como palco da política digital: Que segurança possível?

Precisamos encarar o fenômeno da agitação da ultradireita como uma forma de violência híbrida sobre as universidades, sobre seus responsáveis e usuários. por Susana Durão e Taís Lombardi

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: fontesegura.forumseguranca.org.br/EDIÇÃO N.327
18/06/2026 às 10h40
Universidades como palco da política digital: Que segurança possível?

Susana Durão

Professora Livre Docente e coordenadora da Secretaria de Vivência nos Campi SVC, Unicamp.

Taís Lombardi

Discente Curso de Ciências Sociais, Unicamp.

Recentemente, as universidades públicas se tornaram um dos cenários favoritos para a produção midiática de influenciadores digitais da ultradireita política. Situações e ambientes acadêmicos são filmados para produção e reprodução em massa de conteúdos nas redes sociais. Retiradas do seu contexto real, as imagens e takes captados são editados e expostos de forma a corroborar narrativas tendenciosas a respeito de possível laxismo de ambientes nas humanidades, doutrinação ideológica e suposto mau uso de dinheiro público por parte das reitorias.

Esse tipo de conteúdo não vem sendo produzido apenas em ambientes universitários. É uma das táticas de guerrilha midiática amplamente utilizadas por influenciadores e aplicadas a qualquer serviço público, como unidades de saúde, transporte público e outros. O fenômeno tem contornos globais. Embora a origem esteja em Turning Point USA, organização conservadora fundada por Charlie Kirk e Bill Montgomery em 2012, tendo o primeiro sido assassinado, há exemplos de inflenciadores digitais assemelhados por todo o mundo. Alvise Pérez e Vito Quiles, na Espanha, não diferem muito no estilo de Gabriel Piauhy e Douglas Garcia no Brasil ou de Matheus Pereira, que vem fazendo da Universidade Estadual de Campinas um palco para a promoção digital da sua candidatura a deputado estadual.

Como operam? Inicialmente é postado um vídeo longo no feed das redes e, a partir dessa postagem, são produzidas centenas de “cortes” (vídeos curtos) e imagens, com o objetivo de proliferar o conteúdo. O roteiro dos vídeos segue um padrão: o influenciador, protagonista do vídeo, se apresenta como “fiscal do cidadão”, adentra local de funcionamento rotineiro, transformando um espaço de serviço ou estudo em palco para sua performance. Ali ele vai denunciar o suposto problema, provocando uma situação de constrangimento e intimidação em relação às pessoas presentes (alunos e funcionários) e partindo para a captura de suas respectivas reações. As reações filmadas são editadas priorizando expressões, falas e gestos exaltados. O resultado final é o protagonista mostrando um problema, de forma amigável, e sendo recebido com hostilidade pelos presentes.

Os vídeos são assim desenhados para causar revolta e indignação moral em espectadores digitais que já têm predisposição contra os setores progressistas da sociedade. Ao criar a percepção pública de que a universidade é um ambiente de doutrinação e não de aprendizado, tais vídeos curtos fornecem pretensa justificativa ética para propostas legislativas que almejam cercear a liberdade de cátedra, criminalizar o debate de certos temas em sala de aula e justificar cortes orçamentários neste e em outros setores públicos.

Nos espaços da universidade, enquanto filmam para produzir os vídeos, nem sempre fica clara a dimensão agressiva dos atos que os agitadores provocaram antes de obterem as reações indignadas de alunos e funcionários que serão captadas pelas lentes. Não há classificação clara para o que fazem. Diz a lei que não é ilegal filmar com o celular em espaços públicos, como são os da universidade. Assim sendo, os agentes de segurança ou policiais chamados a atuar relutam em retirar das mãos dos influenciadores os aparelhos. Preocupados com o que possa ser divulgado posteriormente, os próprios agentes da lei temem agir. Também é perceptível, nos últimos, certa paralisação moral que resulta das mensagens higienistas dos agitadores quando chegam para passar, de forma provocatória, tinta branca em paredes de unidades de ensino com pixações e grafites. Ou seja, na segurança pública não estamos acostumados e capacitados para lidar com formas de abuso de liberdade que encontram na imposição forçada da presença e nas filmagens a arma digital que vai dar origem aos conteúdos descontextalizados.

Precisamos encarar este fenômeno como uma forma de violência híbrida sobre as universidades, sobre seus responsáveis e usuários. O que pode então ser feito? Como criar soluções de segurança para violências novas que não se apresentam e nem são categorizadas claramente como confronto ou crime?

Em primeiro lugar, é necessário alertar a comunidade universitária que perde mais em confrontar os agitadores digitais do que em se afastar e esperar a ajuda profissional de seguranças. Para tal estão sendo realizadas múltiplas reuniões, e têm sido elaborados protocolos e cartilhas de orientação. Em segundo lugar, é urgente capacitar os supervisores, agentes de segurança e vigilantes patrimoniais para atuar, com a devida autoridade, nessa modalidade de invasão conflituosa pré-digital aos espaços comuns da universidade. As intervenções agressivas dos agitadores políticos provocam danos e gastos públicos, na medida em que interrompem aulas e estudo, deixando à sua passagem um rastro de destruição e lixo. Após a sua atuação, as reitorias e os institutos têm reuniões infindas e acabam por solicitar aumento de recursos em segurança paga para lidar com tamanha disrupção. Ou seja, o argumento moral sacado pelos atores do ativismo digital, de que seriam fiscais do erário público, cai por terra. Em terceiro lugar, uma vez que os agitadores empregam modalidades de violência orquestradas, com uma espécie de coreografia para os vídeos, é preciso solidificar a presença do efetivo de segurança, chamar reforços na universidade e “convidar” os agitadores a literalmente sair de cena. Isso deve ser feito com certa rapidez e eficácia, antes da eclosão de possíveis confrontos e da instalação do caos. Em quarto lugar, nos estatutos e normativas administrativas das universidades a intervenção de pessoas desautorizadas no patrimônio é considerada uma violação, cuja política está inteiramente a cargo de diretores e de membros eleitos. Assim, com possível apoio da polícia, é provável que sejam criadas condições para que se retirem e que sejam confiscados instrumentos, como latas de tinta e rolos, assim como outros equipamentos de depredação dos espaços. Em quinto lugar, é preciso solicitar apoio mais claro dos órgãos de representação jurídica, da consultoria da universidade e de atores independentes, como o Ministério Público, para prevenção e atuação nesses fenômenos.

Para ações conflituosas táticas, é preciso que a segurança universitária estude também soluções táticas que aprimorem sua estratégia de atuação. É nessa medida que a Secretaria de Vivência nos Campi da Unicamp, embora defendendo uma política de ação desarmada e a filosofia de atuação preventiva, não pode travar e se vê obrigada a se repensar perante um novo fenômeno de ataque às universidades.

fontesegura.forumseguranca.org.br/EDIÇÃO N.327

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