
A relação entre o governo federal e as forças de segurança pública atravessa um novo momento de tensão. Em menos de dois meses, duas declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva provocaram forte reação de entidades representativas de policiais e aprofundaram o desgaste entre o Palácio do Planalto e categorias que exercem papel fundamental no enfrentamento à criminalidade.
As manifestações de repúdio tiveram como origem declarações sobre policiais federais cedidos a outros órgãos públicos e, mais recentemente, sobre a devolução de aparelhos celulares roubados ou furtados.

As duas declarações foram recebidas pelas entidades representativas das carreiras policiais como generalizações indevidas, capazes de gerar desconfiança sobre instituições e profissionais que exercem funções essenciais ao Estado.
Policiais federais "fingindo trabalhar"
Em abril deste ano, durante cerimônia de anúncio da convocação de mil novos integrantes da Polícia Federal, o presidente afirmou ter determinado o retorno de agentes e delegados cedidos a outros órgãos da administração pública, excetuando apenas aqueles que ocupam cargos de secretários de Estado.
A frase sobre policiais que estariam "fingindo trabalhar" provocou imediata reação da Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal (ADPF) e de outras entidades ligadas à Polícia Federal.
As associações destacaram que os policiais cedidos representam um percentual reduzido do efetivo e desempenham funções estratégicas em áreas de inteligência, controle, cooperação internacional e assessoramento governamental. Para as entidades, a declaração presidencial desqualificou, de forma injusta, profissionais altamente capacitados que continuam prestando relevantes serviços ao Estado brasileiro, ainda que fora da estrutura administrativa da Polícia Federal.
A polêmica dos celulares roubados
Confira vídeo:
A tensão voltou a crescer em junho, durante o lançamento de um programa federal destinado à recuperação de aparelhos celulares roubados ou furtados.
Ao defender que a devolução dos aparelhos pudesse ocorrer nas agências dos Correios, o presidente afirmou que muitas pessoas teriam receio de procurar uma delegacia porque não saberiam "que tipo de delegado ou policial" encontrariam.
A declaração foi recebida com indignação por entidades representativas das carreiras policiais. A Associação dos Delegados de Polícia do Brasil (Adepol do Brasil) afirmou que a fala transmite à sociedade uma percepção generalizada de desconfiança em relação às instituições policiais, classificando a declaração como inadequada, injusta e descontextualizada.
Representantes da segurança pública ressaltaram que as delegacias de polícia são instituições constitucionalmente responsáveis pela apuração das infrações penais, pela custódia de bens apreendidos e pelo atendimento às vítimas de crimes. Na avaliação das entidades, a fala presidencial acaba enfraquecendo a confiança da população em órgãos que deveriam ser fortalecidos pelo próprio chefe de Estado.
O desgaste político e institucional
As duas controvérsias revelam mais do que simples problemas de comunicação. Elas evidenciam uma crescente dificuldade de interlocução entre o governo federal e as forças de segurança pública.
Ao tentar anunciar medidas consideradas positivas, como a ampliação do efetivo da Polícia Federal e o programa de recuperação de celulares, o governo acabou produzindo um efeito contrário: gerou desconforto entre os profissionais da segurança, provocou manifestações públicas de repúdio e ampliou o sentimento de desvalorização de categorias que atuam diariamente no combate ao crime organizado.
As palavras de um presidente da República possuem enorme peso institucional e repercussão nacional. Por isso, foram declarações infelizes, especialmente em se tratando de um chefe de Estado. Generalizar comportamentos, sugerir que policiais cedidos estariam "fingindo trabalhar" e lançar dúvidas sobre a atuação de delegados e demais policiais não contribui para o fortalecimento das instituições. Ao contrário, fragiliza a confiança pública justamente em órgãos que o próprio Estado necessita para enfrentar a criminalidade organizada.
As reações das entidades de classe são legítimas e necessárias, mas o episódio também exige uma manifestação institucional do Conselho Nacional dos Chefes de Polícia Civil (CONCPC). Diante de declarações que atingem a credibilidade das polícias e das delegacias brasileiras, o silêncio das principais instâncias de representação institucional pode ser interpretado como complacência ou omissão.
Num país marcado pelo avanço das facções criminosas e pela crescente sensação de insegurança, espera-se do chefe de Estado palavras que fortaleçam as instituições de segurança pública, valorizem seus profissionais e reforcem a confiança da sociedade em suas polícias, e não declarações que, ainda que involuntariamente, acabem por lançar suspeitas sobre aqueles que têm a missão constitucional de proteger a população.
Veja, a seguir, as notas de repúdio divulgadas por entidades representativas das carreiras policiais sobre as declarações do presidente da República.
Associação dos Delegados de Polícia do Brasil | REPÚDIO NACIONAL ÀS FALAS ESTEREOTIPADAS DO PRESIDENTE LULA SOBRE A ATUAÇÃO DAS DELEGACIAS DE POLÍCIA E DOS PROFISSIONAIS DAS POLÍCIAS CIVIS
SINPOL-PE
https://www.instagram.com/p/DZnGKIRPOFA/
Fala de uma IPC da Bahia

"Quando um presidente nos acusa de ladrões, o que esperar da sociedade? Saímos todos os dias para trabalhar, uma grande parte já idoso, com problemas de saúde, alguns com marcas de tiros, outros com problemas sérios financeiros, mas estamos lá, atendendo a sociedade, confrontando bandidos, etc... Aí ouvimos isso, em um país sério, haveria uma convocação geral para uma grande manifestação contra essa agressão grave que nos atingiu no fundo da alma, mas não, tá tudo bem, é normal isso."




