Terça, 08 de Setembro de 2026
25°C 26°C
Salvador, BA
Publicidade

FAMÍLIA E PRISÃO: presença inconteste e repercussões invisibilizadas

O conceito da prisionização secundária envolve os impactos da prisão sofridos pelas famílias, que sofrem repercussões ligadas às rotinas das unidades prisionais e ao campo jurídico-penal. Há também desdobramentos econômicos decorrentes do endividamento, consequências no mundo do trabalho e em aspectos das relações sociofamiliares. por Maria Palma Wolff

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: fontesegura.forumseguranca.org.br/EDIÇÃO N.325
08/06/2026 às 10h03 Atualizada em 11/06/2026 às 10h22
FAMÍLIA E PRISÃO: presença inconteste e repercussões invisibilizadas

Maria Palma Wolff

Doutora em Direitos Humanos e membro do LabGEPEN.

Os conhecidos problemas da prisão – superpopulação e descumprimento de preceitos legais[1] – não atingem apenas as pessoas presas. As famílias, embora não privadas de liberdade, vivenciam profundamente seu problemático cotidiano e ainda agregam importante sobrecarga emocional de quem teme pela vida e pelo futuro de seu familiar enfrentando consequências financeiras decorrentes dos custos da prisão. Temos aqui questões que poucas vezes são enxergadas em sua real dimensão. Trata-se de uma relação que transborda sobejamente os limites da prisão e pode ser referida como prisionização secundária[2], afrontando o inciso XLV do artigo 5º da Constituição de 1988, que preconiza que a pena não deve ultrapassar a pessoa do condenado.

Embora a Lep (Lei de Execução Penal) mencione a família em alguns de seus dispositivos, estes raramente se constituíram como práticas efetivas durante a execução penal e sua visibilidade permanece relegada às movimentações dos dias de visita ou no seu cancelamento como forma de sanção disciplinar. Apenas recentemente a questão foi abordada na Recomendação nº 2/25 da Comissão de DH da Corte Interamericana de Direitos Humanos (Corte IDH), que orienta os estados-membros sobre o tratamento de familiares, que sofrem de forma desproporcional. Fruto de mobilizações de familiares na América Latina, é um marco na luta por reconhecimento dos efeitos estendidos da prisão e do papel que as famílias possuem no cumprimento de penas privativas de liberdade.

Além de representarem a conexão da pessoa presa com a vida em liberdade, as famílias expressam também a realidade socioeconômica das pessoas presas no Brasil[3]. O perfil dos familiares é composto majoritariamente por mulheres negras – especialmente mães e companheiras – com renda mensal de até dois salários mínimos, escolaridade até o ensino médio e média de idade em torno de 40 anos. Mais uma vez raça, classe social e gênero se sobrepõem agora não apenas para definir os selecionados pela justiça penal, mas para indicar que mulheres, mais especificamente negras e pobres, são as que estão na linha de frente do acompanhamento e do sustento de seu familiar, realidade constatada também no contexto latino-americano[4].

A prisão de um familiar sempre produz grande impacto e implica a apreensão das regras formais e informais das unidades prisionais e o enfrentamento dos meandros do processo penal. Do mesmo modo, a necessária reorganização do orçamento e das relações familiares leva o universo prisional em todas as suas dimensões para “dentro de casa” e o incorpora ao dia a dia das famílias. Nessa relação se estabelece uma retroalimentação de problemas: por um lado, há menor tempo disponível para o trabalho em razão das visitas e de outros encargos decorrentes da prisão; por outro, aumenta a necessidade de renda para atender às demandas que surgem. Ocorre também que os familiares passam a sofrer o estigma atribuído às pessoas presas, tornando-se quase imediatamente “familiares de bandido” e não confiáveis, suspeições que permeiam de diferentes formas seu cotidiano.

O dia de visita implica investimento significativo para a preparação da sacola – alimentos, material de higiene e limpeza – para o transporte, esforço que se estende para as horas de deslocamento e espera para o ingresso. Ainda que o custo da sacola seja o mais recorrente[5], há também gastos com roupas, remédios, pagamento de cursos e eletroeletrônicos e advogados particulares. Contraditoriamente, esta economia do cuidado e trabalho não remunerado é ao mesmo tempo possibilidade de garantir alguma assistência e até a sobrevivência do familiar encarcerado mas também fator de reprodução  das condições da prisão e de seus problemas.[6]

A relação com o contexto prisional é permeada de tensão e possibilidade de conflito com policiais penais, mas há também a complexa interface com as demais instâncias do campo jurídico-penal. É nesse sentido que as redes de apoio tomam importância, seja para obter informações sobre regras de visitação, seja nos movimentos por melhorias no contexto prisional ou para as visitas[7]. Ainda que com características e repercussões diversas nos diferentes estados da federação, as redes de familiares buscam suprir a ausência de políticas de atendimento e enfrentar as barreiras impostas para o exercício dos diferentes direitos previstos para presos e suas famílias.[8]

A ausência ou a fragilidade das políticas de atenção a pessoas egressas é mais um dos impactos da prisão a serem enfrentados pela família. O apoio à pessoa recém-liberta implica o enfrentamento dos diferentes problemas advindos do encarceramento, como as defasagens educacional e tecnológicas, dificuldade de acesso à documentação e a postos de trabalho e ainda, a vivência em territórios muitas vezes conflagrados, desafios acrescidos do estigma de ser ex-presidiário[9].

Assim, como sujeitos participantes e ativos na manutenção da prisão e de sua lógica de controle e punitividade[10],  as famílias sofrem impactos da prisão ligados tanto às rotinas das unidades prisionais e do campo jurídico-penal como às repercussões econômicas pelo endividamento, impactos no mundo do trabalho e ainda aqueles que repercutem de diferentes formas nas relações sociofamiliares. Resta evidente que suas demandas devem entrar para a agenda das instituições, seja nos processos de formação de servidores, na construção de protocolos de atendimento ou de espaços de interlocução com os movimentos de familiares. Mas o seu reconhecimento deve também incluir pautas das políticas socias, com incidência na política de assistência social, na efetivação da atenção à pessoa egressa e na ampliação do auxílio-reclusão.

Referências

[1] Situações que justificaram a definição de Estado de Coisas Inconstitucional no sistema prisional brasileiro,i definido pela Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental / ADPF 347, considerando a vulneração generalizada de direitos fundamentais.

[2] CONFORT M.. We Share Everything We Can the Best Way We Can. Transatlantica: american studies journal. 2009. http://journals.openedition.org/transatlantica/4281.

fontesegura.forumseguranca.org.br/EDIÇÃO N.325

Clique na IMAGEM e acesse a Coluna Fonte Segura/PÁGINA DE POLÍCIA, espaço destinado para publicações de artigos dos articulistas do Fonte Segura/Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

 

*COMENTE A MATÉRIA E COMPARTILHE, assim você estará apoiando o jornalismo independente!*

*INSCREVA-SE* no Canal do YouTube do PÁGINA DE POLÍCIA - @tvpaginadepolicia

Clique no *"GOSTEI"* e COMPARTILHE...:

(*) Os textos publicados não refletem, necessariamente, a opinião do Fonte Segura e são de responsabilidade de seu autor ou autores.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
Furto de celulares Há 2 semanas

As dinâmicas de roubo e furto de celulares no Brasil

Os roubos e furtos de celulares assumem contornos distintos no Brasil. Nesse cenário, o avanço de tecnologias de proteção e o combate ao mercado ilegal se tornam fundamentais para prevenir esses crimes e reduzir a insegurança associada ao uso cotidiano dos aparelhos em espaços. por Samira Bueno e Renato Sérgio de Lima

MÚLTIPLAS VOZES Há 2 semanas

POLÍCIA PARA QUEM PRECISA DE POLÍCIA: o que os números do Anuário Brasileiro de Segurança Pública (2026) apontam sobre a atividade policial

As transformações na criminalidade indicam que o policiamento tradicional – lastreado na presença ostensiva, armas, operações e viaturas – não é mais suficiente para enfrentar a delinquência em tempos de algoritmos, internet e inteligência artificial. por Alexandre Pereira da Rocha

MÚLTIPLAS VOZES Há 2 semanas

DA RUA AO JUIZADO: por que segurança no futebol é política pública (e não só policiamento)

O futebol é um laboratório visível e sensível de escolhas que também estruturam a segurança pública em geral. As escolhas de cada país para a segurança dos eventos desse esporte se apresentam como um reflexo do modelo mais amplo de governança da segurança urbana. por Raquel Sousa

PERÍCIA EM EVIDÊNCIA Há 2 semanas

A cabeça de bacalhau da segurança pública que atinge em cheio a perícia oficial

Protocolos policiais, que orientam uma atividade que interfere diretamente na liberdade, na intimidade e na integridade das pessoas, devem estar disponíveis de maneira clara, atualizada e verificável. A transparência só se completa quando a sociedade consegue consultar o documento e cobrar sua aplicação. por Cássio Thyone Almeida de Rosa

SEGURANÇA NO MUNDO Há 2 semanas

AS EXTORSÕES EM EL SALVADOR E AS POLÍTICAS DE SEGURANÇA DE BUKELE

Por qual motivo, segundo pesquisas, os salvadorenhos apoiam um governo que restringe seus direitos políticos? A resposta está, de novo, na segurança, a área do desempenho governamental que recebe maior aprovação dos cidadãos. por Ignacio Cano

FONTE SEGURA
FONTE SEGURA
Espaço dos articulistas do FONTE SEGURA/Fórum Brasileiro de Segurança Pública, dedicado a análises baseadas em dados e transparência para qualificar o debate sobre segurança pública. O projeto conecta fatos e estruturas, promove cooperação federativa e alcança leitores em diversos países.
Ver notícias
Salvador, BA
27°
Tempo limpo
Mín. 25° Máx. 26°
29° Sensação
6.56 km/h Vento
71% Umidade
0% (0mm) Chance chuva
05h33 Nascer do sol
17h30 Pôr do sol
Quarta
26° 24°
Quinta
26° 24°
Sexta
26° 24°
Sábado
26° 23°
Domingo
25° 24°
Publicidade

? LOCALIZAR UNIDADE NA BAHIA

Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Economia
Dólar
R$ 5,09 -0,68%
Euro
R$ 5,92 -0,68%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 425,457,55 -0,47%
Ibovespa
187,428,81 pts 1.23%
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Enquete
Nenhuma enquete cadastrada
Publicidade
Anúncio