
Salvador, BA | A forma como determinadas regiões são denominadas pelas políticas de segurança pública entrou no centro de uma reflexão proposta pelo administrador Crispiniano Daltro, que questiona o uso de expressões como “complexo”, “território” e “área de intervenção” para identificar comunidades submetidas a ações de segurança.
A discussão parte de uma provocação: e se a lógica utilizada para denominar determinadas áreas fosse aplicada a bairros tradicionalmente associados a regiões valorizadas de Salvador?
Daltro propõe imaginar, por exemplo, que bairros como Barra, Graça e Amaralina fossem reunidos sob a denominação de “Complexo da Vitória”, enquanto Pituba e Alphaville fossem classificados como um “Território de Intervenção”.
Na avaliação do administrador, uma mudança dessa natureza provavelmente provocaria forte reação de moradores, imprensa, empresários e diferentes setores da sociedade, justamente porque esses locais possuem identidade, história, patrimônio, atividades econômicas e características próprias.
A reflexão também faz referência ao modelo de nomenclatura utilizado no Rio de Janeiro, onde termos como “complexo” são amplamente empregados para identificar conjuntos de comunidades e favelas, especialmente no contexto das políticas de segurança pública.
Para Daltro, a questão não está apenas nas palavras utilizadas, mas na percepção que elas podem produzir sobre os espaços urbanos e sobre as pessoas que vivem neles.
Segundo a proposta apresentada, quando determinada região passa a ser permanentemente associada à ideia de conflito, intervenção ou ocupação, existe o risco de sua identidade histórica e social ficar em segundo plano.
A discussão levanta, então, uma questão central:
Por que determinados lugares continuam sendo reconhecidos prioritariamente como bairros, enquanto outros passam a ser identificados por conceitos associados à intervenção e ao conflito?
“Bairro não é território. Bairro é comunidade”
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A partir dessa perspectiva, Crispiniano Daltro defende que a política de segurança pública considere, antes das divisões geográficas, as pessoas e as características de cada comunidade.
A proposta apresentada por ele é a adoção de uma Segurança Pública Circunscricional, modelo que, segundo sua visão, deve priorizar a proximidade entre as instituições de segurança e a população, além da integração entre inteligência, forças policiais e serviços públicos.
A ideia é que cada região seja compreendida a partir de suas particularidades, permitindo que as estratégias de segurança sejam construídas levando em consideração as características sociais, econômicas, culturais e territoriais de cada comunidade.
“Bairro não é território. Bairro não é complexo. Bairro é comunidade.”
A frase sintetiza a proposta defendida por Daltro e representa o eixo central da reflexão.
Para o administrador, discutir a nomenclatura utilizada na segurança pública também significa discutir a própria forma como a cidade enxerga seus bairros.
A proposta não se limita à mudança de nomes, mas busca provocar um debate sobre a relação entre segurança pública, território, identidade e cidadania.
Nesse contexto, Daltro defende que a segurança não deve transformar determinadas regiões em espaços permanentemente associados ao conflito, mas conhecer suas comunidades, respeitar suas características e estabelecer uma relação mais próxima com os moradores.
A reflexão termina com uma pergunta:
Se o nome de um bairro fosse invertido, a sociedade aceitaria a mesma lógica?
Para Crispiniano Daltro, a resposta passa pela necessidade de repensar a maneira como Salvador organiza sua política de segurança e reconhece seus diferentes territórios.
Sobre o autor
Crispiniano Daltro é administrador, inscrito no CRA nº 10845, e possui pós-graduação em Gestão Pública pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB). A proposta integra sua defesa de uma Segurança Pública Circunscricional e da desmilitarização da abordagem territorial na segurança pública.
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