Terça, 09 de Junho de 2026
24°C 25°C
Salvador, BA
Publicidade

A (des)governança nas fronteiras amazônicas: desafios à segurança nacional.

É fundamental construir uma estratégia de segurança nacional integrada que promova a sinergia entre os órgãos no dia a dia e estabeleça uma atuação de rotina capaz de preencher as lacunas do controle territorial. por Cesar Mello e Ariadne Natal

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: fontesegura.forumseguranca.org.br/EDIÇÃO N.292
29/09/2025 às 12h09
A (des)governança nas fronteiras amazônicas: desafios à segurança nacional.

Para o viajante habituado a transitar entre países, a palavra “fronteira” evoca a imagem de pontos de controle, filas de veículos e autoridades rigorosas. Nesses locais, documentos são minuciosamente checados, propósitos de viagem são questionados e bagagens são inspecionadas em busca de bens proibidos, como narcóticos, animais exóticos ou bens ilícitos. A intensidade desses procedimentos reflete o grau de risco que cada fronteira representa à segurança nacional.

No entanto, a vasta fronteira amazônica brasileira, que se estende por aproximadamente 6 mil km com Peru, Colômbia e Venezuela, subverte essa expectativa. Apesar da proximidade com nações que são centro de produção de cocaína e de onde partem rotas do tráfico global, pessoas e mercadorias circulam livremente sem a supervisão de qualquer mecanismo de controle ou fiscalização estatal, expondo o país a uma vulnerabilidade crítica de segurança.

Não há justificativas para a ausência de controle nessas regiões, mas o problema pode ser compreendido por duas vertentes principais: uma de natureza geográfica e outra de governança.

A geografia da Amazônia constitui, por si só, um obstáculo monumental para segurança e soberania do país. Sua extensão, a predominância de florestas densas e uma complexa rede de rios tornam as nossas divisas naturalmente permeáveis. Essa realidade física dificulta sobremaneira a implementação de uma fiscalização abrangente e eficiente, criando um ambiente de vulnerabilidade. Adicionalmente, acordos diplomáticos históricos permitem o livre trânsito de embarcações entre esses países.

No que tange à governança, a problemática é ainda mais intrincada. A fiscalização das fronteiras brasileiras, em especial na região amazônica, não é responsabilidade de uma única entidade. Ela se distribui entre diversas esferas e órgãos do Estado. Essa fragmentação institucional, aliada à presença intermitente do Estado, à falta de uma política de atuação coesa e à deficiência na integração entre as instituições gera lacunas que tornam o terreno fértil para a presença da criminalidade na região.

A cidade de Tabatinga, no Alto Solimões, Amazonas, ilustra bem essa situação. Situada na tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru, a divisa com Letícia, na Colômbia, é marcada apenas por um simples marco geodésico na calçada da grande avenida que conecta as duas cidades. Já Santa Rosa, no Peru, é acessada após uma viagem fluvial de poucos minutos, que se cumpre cruzando o rio que separa os países.

Nesse local, encontram-se diversas instituições que, em teoria, deveriam atuar no combate ao tráfico de entorpecentes e a crimes correlatos. O Exército Brasileiro, embora conte com um efetivo superior a mil homens, prioriza atuação de defesa e ocupação de alguns pontos considerados estratégicos. O efetivo fica estático em pelotões de fronteira, com um uso pontual de seu potencial em operações específicas, mas sem responsabilidade pelo patrulhamento terrestre ou fluvial de rotina. A Marinha do Brasil, com uma Capitania dos Portos e um destacamento de fuzileiros navais, restringe sua atuação à fiscalização administrativa e segurança das embarcações, não realizando inspeção de pessoas ou cargas. Os fuzileiros, por sua vez, atuam na proteção das instalações físicas da Marinha e dos próprios agentes de fiscalização.

A Polícia Federal, por sua vez, tem a atribuição de atuar como polícia de fronteira, mas não executa fiscalização ostensiva nem patrulhamento, alegando carência de pessoal e recursos, concentrando sua missão em tarefas investigativas, de polícia judiciária e em operações sazonais. Órgãos como o IBAMA e o ICMBIO não possuem representação fixa no local, atuando em operações. A FUNAI mantém presença em bases fixas no Vale do Javari, com o objetivo de preservar o isolamento das comunidades indígenas.

Essa falta de uma política de segurança de fronteiras integrada e a ausência de um órgão coordenador compõem um cenário de inação. As instituições, ao atuarem em silos, criam uma zona cinzenta de responsabilidade na qual o patrulhamento ostensivo e a fiscalização de transeuntes e cargas – ações essenciais para o controle cotidiano da criminalidade – não são vistos como atribuições primárias por nenhum dos órgãos federais com presença na região.

Nesse contexto, a Polícia Militar e a Polícia Civil, que são forças estaduais e enfrentam limitações de efetivo e recursos, acabam por assumir papel desproporcional. Elas se veem obrigadas a suprir uma demanda de segurança que exigiria uma atuação coordenada de múltiplos órgãos, evidenciando a falência de um sistema de governança fragmentado e ineficaz. A ausência de uma política de segurança de fronteiras que promova a integração e a unidade entre os órgãos resulta em uma presença estatal insatisfatória ou na escassez de meios para o cumprimento de suas missões, perpetuando, assim, um cenário de fiscalização deficiente.

Iniciativas como a recente criação do Centro de Cooperação Policial Internacional da Amazônia são bem-vindas, mas é preciso ter no horizonte que a superação dos desafios da governança fragmentada exige mais do que grandes operações pontuais ou sazonais. É fundamental construir uma estratégia de segurança nacional integrada que promova a sinergia entre os órgãos no dia a dia e estabeleça uma atuação de rotina capaz de preencher as lacunas do controle territorial, assegurando uma presença estatal constante e à altura da vasta dimensão do desafio e da proteção da soberania brasileira na região.[

(*) Cesar Mello - Professor da Universidade Federal do Pará (UFPA) e Pesquisador Sênior do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

(*) Ariadne Natal - Pesquisadora Sênior do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (NEV-USP).

fontesegura.forumseguranca.org.br/EDIÇÃO N.292

Clique na IMAGEM e acesse a Coluna Fonte Segura/PÁGINA DE POLÍCIA, espaço destinado para publicações de artigos dos articulistas do Fonte Segura/Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

*COMENTE A MATÉRIA E COMPARTILHE, assim você estará apoiando o jornalismo independente.!*

*INSCREVA-SE* no Canal do YouTube do PÁGINA DE POLÍCIA - @tvpaginadepolicia  

Clique no *"GOSTEI"* e COMPARTILHE...:

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
MÚLTIPLAS VOZES Há 14 horas

FAMÍLIA E PRISÃO: presença inconteste e repercussões invisibilizadas

O conceito da prisionização secundária envolve os impactos da prisão sofridos pelas famílias, que sofrem repercussões ligadas às rotinas das unidades prisionais e ao campo jurídico-penal. Há também desdobramentos econômicos decorrentes do endividamento, consequências no mundo do trabalho e em aspectos das relações sociofamiliares. por Maria Palma Wolff

MÚLTIPLAS VOZES Há 14 horas

A infraestrutura invisível da vigilância no Brasil (Parte 3): monitoramento político, dissenso e os riscos democráticos da vigilância integrada.

Infraestruturas de vigilância construídas sob governos democráticos podem permanecer disponíveis para usos autoritários futuros. por Rodrigo Firmino, André Pecini e Thallita Lima

ATLAS DA VIOLÊNCIA Há 14 horas

DADOS DO ATLAS DA VIOLÊNCIA DE 2026 EVIDENCIAM AS DINÂMICAS DA VIOLÊNCIA CONTRA AS MULHERES NO BRASIL

São destaques da publicação os altos índices de letalidade de mulheres negras, a persistência da residência como principal lócus da violência, assim como os índices de reincidência e os tipos de violência que mais afetam as mulheres em cada ciclo da vida. Por Beatriz Schroeder e Deise Nunes

MÚLTIPLAS VOZES Há 14 horas

PRESENÇA QUE PROTEGE E APROXIMA: O Impacto da Base Fluvial Arpão na Cidadania e Segurança das Comunidades do Solimões.

Desde sua implementação, as ações articuladas na Base Arpão I resultaram na apreensão de toneladas de entorpecentes, como cocaína e maconha do tipo skunk, além de armas, munições e combustíveis ilegais, gerando um prejuízo financeiro direto ao crime organizado estimado em mais de R$ 100 milhões. por Aldo Ramos da Silva Jr. e César Maurício de Abreu Mello

MÚLTIPLAS VOZES Há 14 horas

Da Cooperação Policial ao Unilateralismo Coercitivo: As Implicações da Designação do PCC e do CV como Organizações Terroristas Estrangeiras pelos EUA

Longe de constituir uma política criminal eficiente, a medida delineia-se como um instrumento de coerção geopolítica, capaz de desestabilizar as relações diplomáticas e institucionais entre as duas maiores democracias do continente. por Roberto Uchôa

FONTE SEGURA
FONTE SEGURA
Espaço dos articulistas do FONTE SEGURA/Fórum Brasileiro de Segurança Pública, dedicado a análises baseadas em dados e transparência para qualificar o debate sobre segurança pública. O projeto conecta fatos e estruturas, promove cooperação federativa e alcança leitores em diversos países.
Ver notícias
Salvador, BA
25°
Parcialmente nublado
Mín. 25° Máx. 25°
25° Sensação
5.78 km/h Vento
71% Umidade
0% (0mm) Chance chuva
05h51 Nascer do sol
17h14 Pôr do sol
Terça
25° 24°
Quarta
25° 24°
Quinta
26° 25°
Sexta
26° 25°
Sábado
27° 24°
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Economia
Dólar
R$ 5,19 -0,02%
Euro
R$ 5,99 -0,06%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 345,025,64 -1,65%
Ibovespa
168,668,72 pts -0.21%
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Enquete
Nenhuma enquete cadastrada
Publicidade
Anúncio