
Ao analisar a queda expressiva do furto e roubo de celulares em Londres entre 2013 e 2014, de mais de 20%, a organização da sociedade civil Behavioural Insights Team, relatou que uma das medidas mais efetivas foi a instalação de placas de aviso, pela própria polícia local, nas entradas e saídas do metrô, um hotspot de furtos e roubos de celulares.
Estamos em 2025 e tivemos uma das maiores operações, se não a maior, contra a facção criminosa conhecida como PCC. Uma junção de três operações (Carbono Oculto, Quasar e Tank) atacou uma cadeia de procedimentos envolvendo a lavagem de dinheiro por atividades ilícitas envolvendo desde adulteração de combustíveis, passando pela legalização de empresas criadas para facilitar a lavagem até chegar à constituição de fintechs sediadas no centro financeiro de São Paulo, a região conhecida como Faria Lima. Quase todos os escritórios estão na avenida que tem esse nome. Para quem não conhece, é comum usarmos o termo “Faria Lima” como uma entidade que é sinônimo de mercado financeiro. É frequente no noticiário econômico a referência sobre a opinião da “Faria Lima” a respeito de questões econômicas.
Todos esses casos, entre outros, trazem-nos a reflexão sobre como, infelizmente, sempre que falamos em políticas de segurança pública, a maioria dos atores, sem distinção, repete incansavelmente a mesma linha do bingo: mais armas, mais policiais, mais viaturas, mais tiros (dependendo da região de atuação, modalidade criminal e recorte racial dos envolvidos), mais encarceramento, penas maiores … ou seja, medidas que envolvam compras, contratações e alterações pontuais da legislação, sem compromisso com a efetividade dessas alterações. E onde estão as medidas, como as citadas em caso, que não envolvem essas compras, contratações e alterações legislativas?
A rota de fuga simplória do debate seria simplesmente colocar a culpa nas organizações policiais: se a polícia metropolitana de Londres teve a iniciativa de colocar cartazes nos pontos de incidência de furtos e roubos de celulares, por que as polícias brasileiras não tomam medidas parecidas? Não, não vamos adotar essa rota. Seria exigir uma proatividade das organizações policiais que não é ensinada, estimulada ou financiada.
Inicialmente, nossos agentes políticos (incluindo o Poder Judiciário, não só o Executivo e o Legislativo) precisam parar de enxergar o crime como fenômeno isolado. Enquanto essa visão for mantida, as políticas de segurança públicas serão focadas em atacar os autores dos crimes, não o crime em si. Mesmo que seja necessário, não deveria ser decisivo no combate ao tráfico de drogas os policiais trocarem tiros com criminosos que estão vendendo drogas não produzidas no Brasil e usando armamentos não fabricados no país. A megaoperação atacou umas das fontes do dinheiro que compram esse produtos. Ainda assim, temos políticos falando em aumento de pena e de rigor no sistema prisional como solução. Pensar nos autores, e não no crime, dá nisso.
O segundo ponto é a cooperação interagências. Pensando o conceito de agência como todos os órgãos públicos envolvidos, é impressionante como temos resultados melhores quando as agências cooperam, compartilham as informações, trabalham em conjunto. Temos projetos de lei estimulando mais cooperações? Essas cooperações são estimuladas pelos agentes políticos? Sabemos a resposta: as vaidades, egos e propagandas políticas dos envolvidos priorizam a autovalorização, não o elogio à cooperação. Isso ficou notório em algumas das coletivas de imprensa dos agentes políticos após a megaoperação: a concorrência político-partidária falou mais alto do que o interesse da sociedade na melhora da segurança pública.
Pensar em políticas públicas de segurança fora de alterações do sistema jurídico criminal e das organizações policiais exige uma revisão do ciclo completo dos atores e agências envolvidos. Servidores do Judiciário, Ministério Público, órgãos de fiscalização e controle e organizações policiais precisam aprender a pensar nessas possibilidades além da própria ilha desde o ingresso. Os dirigentes desses órgãos devem ser cobrados por proatividade em medidas que envolvam ir além da atividade-fim do próprio órgão. Os atores políticos precisam incorporar esse pensamento horizontalizado na segurança pública no discurso e na ação.
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