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EDUCAÇÃO POLICIAL MILITAR:

como as expectativas dos candidatos à PM diferem das percepções dos formandos após a conclusão do curso de formação?* por Dênis Wellinton Viana e Maria de Fátima Quintal de Freitas

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: fontesegura.forumseguranca.org.br/EDIÇÃO N.287
20/08/2025 às 10h51
EDUCAÇÃO POLICIAL MILITAR:

Estudo analisa percepções de candidatos e formandos da Polícia Militar do Paraná e revela tensões entre discursos humanitários e práticas tradicionais de segurança pública.

Apesar de décadas de esforços para modernizar e humanizar a segurança pública no Brasil, o modelo tradicional ainda exerce forte influência na formação de novos policiais militares. Mas os profissionais em início de carreira percebem esse processo? A partir dessa inquietação, uma pesquisa concluída em 2024 procurou entender a educação policial militar a partir da ótica de quem vivencia a base da carreira no Paraná: os próprios candidatos e formandos do Curso de Formação de Praças da Polícia Militar daquele estado.

Ao contrário de muitos estudos anteriores que focam em gestores de ensino e estruturas curriculares, essa investigação voltou-se para as pessoas diretamente envolvidas na educação policial. A proposta foi descrever e comparar as percepções de civis que desejavam ingressar na PM — denominados “candidatos” — e de policiais militares recém-formados, que haviam concluído o Curso de Formação de Praças no biênio 2022-2023, em unidades da corporação localizadas em Curitiba, Região Metropolitana e litoral paranaense.

O instrumento de coleta de informações foi um questionário on-line, aplicado em duas etapas, cada uma voltada a um dos públicos. As perguntas foram elaboradas tendo por base resultados de uma análise qualitativa bibliográfica, previamente realizada, sobre o conteúdo de 41 artigos científicos brasileiros que discutem a educação policial militar.  O questionário foi organizado em três grandes temas: concepções sobre a educação policial militar antes e depois do curso, práticas educativas e processos de escolarização durante o curso e práticas profissionais e identidade antes e depois do curso. A análise interpretativa das respostas obtidas seguiu os referenciais da Psicologia Social Comunitária, da Educação e das concepções de Polícia Comunitária.

Identidade em formação: entre o ideal e a realidade

O foco central da pesquisa foi investigar como se constrói a identidade profissional dos novos policiais militares. O pressuposto que orientou o estudo é o de que, embora o discurso oficial da formação policial contemple elementos de atuação comunitária e defesa dos Direitos Humanos, a prática ainda é marcada por uma perspectiva predominantemente repressiva e de controle, presente ainda antes do ingresso na corporação.

Essa hipótese foi parcialmente confirmada. Os dados revelaram que muitos candidatos chegam ao concurso com expectativas alinhadas a uma atuação tradicional da polícia militar. Ao mesmo tempo, o processo formativo, apesar de discutir conteúdos sobre cidadania, Polícia Comunitária e Direitos Humanos, nem sempre consegue desconstruir tais visões — e, em alguns casos, acaba por reforçá-las.

Um dos achados que se destacam é o nível de escolaridade alto dos participantes. A maioria dos candidatos e formandos possuía curso superior completo, embora essa não tenha sido uma exigência para o ingresso na época da coleta dos dados. No entanto, essa formação acadêmica não necessariamente representa, na visão dos próprios participantes, um diferencial real para o status profissional ou para a efetiva transformação da prática policial.

Um currículo com luzes e sombras

No que diz respeito ao conteúdo do curso de formação, os respondentes apontaram a presença de discursos voltados à cidadania, aos Direitos Humanos e à atuação comunitária. Entretanto, também relataram práticas formativas que contradizem esses discursos — como excessos disciplinares, autoritarismo e atividades que reproduzem modelos militares rígidos sem abertura para o diálogo ou reflexão crítica.

Essa contradição sugere que há uma transição em curso: de uma concepção tradicional de segurança pública, centrada na repressão e no controle social, para uma abordagem mais contextualizada, com ênfase na prevenção e no vínculo com a comunidade. No entanto, essa mudança parece ocorrer de forma lenta e desigual, mesclando elementos do modelo anterior ainda bastante presentes tanto no imaginário dos candidatos quanto no cotidiano da formação.

Implicações e caminhos futuros

A pesquisa revela a complexidade e os desafios da formação policial militar no Brasil contemporâneo. Se por um lado há esforços institucionais para modernizar o currículo e incorporar princípios democráticos, por outro, subsistem práticas e concepções herdadas de períodos anteriores à redemocratização do país. Esse descompasso impacta diretamente na construção da identidade profissional dos novos policiais, que se veem diante de modelos conflitantes de atuação.

Um dos méritos do estudo foi possibilitar que pessoas que vivenciam esse processo por dentro pudessem expor suas opiniões a respeito de suas expectativas como candidatos ao ingresso na PM e suas impressões sobre o curso como policiais recém-formados. A partir desse olhar, torna-se possível compreender melhor os dilemas, os conflitos e as tensões experimentados pelos futuros policiais e as possibilidades (ou limitações) de transformação efetiva por meio da educação.

O trabalho reforça a necessidade de aprofundar o debate sobre o papel da educação na constituição da prática policial. A formação policial, como mostra o estudo, está longe de ser neutra ou meramente técnica: trata-se de um espaço de, também, disputa simbólica entre diferentes concepções de segurança, poder e cidadania. A maneira como essa disputa se resolve — ou se mantém — no processo formativo tem implicações diretas para o futuro das políticas públicas de segurança e para a qualidade da cidadania e da democracia brasileira.

* REFERÊNCIAS

Este texto é uma síntese da tese de doutorado: “Educação Policial Militar: Dimensões psicossociais na construção de práticas profissionais”, desenvolvido no Núcleo de Psicologia Social Comunitária, Educação e Saúde (NUPCES) do Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal do Paraná (PPGE/UFPR) e disponível em: https://acervodigital.ufpr.br/xmlui/handle/1884/95082

(*) Dênis Wellinton Viana - Doutor em Educação pela UFPR, Oficial da Polícia Militar do Paraná e membro do Núcleo de Psicologia Social Comunitária, Educação e Saúde (NUPCES).

(*) Maria de Fátima Quintal de Freitas - Doutora em Psicologia Social pela PUCSP, professora titular do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFPR e fundadora do Núcleo de Psicologia Social Comunitária, Educação e Saúde (NUPCES).

fontesegura.forumseguranca.org.br/EDIÇÃO N.287

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