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O DIA QUE NÃO TERMINOU: os 30 anos da Batalha do Pacaembu e o cerco às torcidas organizadas

É preciso integrar o conhecimento científico de maneira orientada com as demandas da sociedade para que possamos evitar novos confrontos e construir um universo do futebol mais seguro. Por João Vitor Sudário, Nicolás Cabrera e Raquel Sousa

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: fontesegura.forumseguranca.org.br/EDIÇÃO N.287
20/08/2025 às 10h12 Atualizada em 20/08/2025 às 10h45
O DIA QUE NÃO TERMINOU: os 30 anos da Batalha do Pacaembu e o cerco às torcidas organizadas

Clássicos entre equipes locais tendencialmente são partidas de grande apelo popular, mobilizando grande número de torcedores ao redor e dentro dos estádios, mas também ligados aos meios de comunicação, como televisão, rádio e os populares streamings. Retornando ao passado, mais precisamente há 30 anos, uma partida ficou marcada como um dos principais confrontos entre torcidas organizadas no futebol brasileiro. Na final da Supercopa São Paulo de Juniores, no estádio do Pacamebu, torcedores de São Paulo e Palmeiras se enfrentaram. É necessário destacar que não se tratava de uma partida de times profissionais.

Se pararmos para observar o contexto do futebol mundial da época, confrontos entre torcedores estavam em ascensão, sobretudo no universo do futebol inglês a partir do hooliganismo e dos acontecimentos em Heysel e Hillsborough nos anos de 1985 e 1989, respectivamente. Como consequência, discussões a respeito de políticas de segurança em eventos esportivos passaram a estar em maior evidência e o pânico moral tomava conta do universo do futebol por parte dos discursos da mídia.

Anos após a tragédia de Hillsborough, o então primeiro-ministro inglês Boris Johnson se retratou publicamente, confirmando despreparo policial diante de toda a situação, contribuindo para o aumento da espiral de violência e perseguição aos torcedores e a seu direito de torcer. No Brasil, mesmo diante do saldo de 102 feridos e uma morte, a Batalha do Pacaembu ainda é narrada a partir do olhar da estigma e da perseguição aos torcedores organizados e a suas agremiações, mesmo ignorando que o estádio, que passava por reforma, na época, não deveria ter recebido um clássico, ainda que o jogo fosse de uma das categorias de base. Precisamos também entender as estratégias que estão em jogo.

Os pânicos morais operam imputando uma atribuição negativa, um rótulo, um estigma que deteriora a identidade, a reputação e o status do grupo rotulado (Becker, 2008). A permanente e sistemática rotulação das torcidas organizadas como “quadrilhas”, “bárbaros”, “selvageria”, “praga”, “vândalos”, “hooligans”, “bandidos”, “meliantes”, “terroristas”, “facções”, “organizações criminosas”, “bandidagem”, “doença do futebol” (Toledo, 1996; Pimenta, 1997; Reis, 2000; Murad, 2007) . Erich Goode e Nachman Ben-Yehuda (1994) identificam cinco características fundamentais dos pânicos morais que podem ser observadas, com nuances, na análise sobre os estigmas sofridos pelos torcedores: a preocupação com as condutas relatadas; a hostilidade em relação aos perpetradores demonizados; o consenso na reação social negativa; a desproporcionalidade da reação em relação à ameaça real representada pela conduta; e a volatilidade da cobertura midiática (Goode e Ben-Yehuda, 1994). Acrescenta-se a esse rol um sexto elemento: a seletividade na escolha dos bodes expiatórios. Os “demônios populares” não são selecionados aleatoriamente; ao contrário, as chances de serem alvo de pânicos morais estão desigualmente distribuídas. No caso dos integrantes das torcidas organizadas, majoritariamente compostas por jovens de camadas populares e periféricas – frequentemente racializados –, a probabilidade de incriminação (MISSE, 1999) é ainda maior. Em síntese, o pânico moral direcionado a esses grupos também carrega um viés de classe e racial.

Sabemos que o problema da violência entre torcedores de futebol existe e é necessário ter uma ação de política pública voltada para essa questão social. No entanto, pouco se reflete ou se discute o papel das forças de segurança e as omissões de outras instituições para a administração eficaz dos conflitos. Dado o contexto sócio-histórico e a intensificação da produção do estigma (GOFFMAN, 1982) em relação aos torcedores organizados após a Batalha do Pacaembu, o que mais se dissemina são os pânicos morais em relação aos torcedores, em especial, os torcedores organizados.

A “violência no futebol” é apresentada como uma categoria fixa, unilateral e que só está relacionada a esses atores sociais. Todavia, a partir das contribuições acadêmicas da área percebemos que devemos tratar sobre as violências no futebol brasileiro, devido à complexidade desse fenômeno social. Portanto, vistos o enredamento e a heterogeneidade das violências no futebol, o Observatório Social do Futebol, na linha de Violências e Convivências, propõe-se a mapear, categorizar e quantificar diferentes casos com o intuito de sistematizá-los e evitar abordagens generalistas. Sabemos que confrontos como a Batalha do Pacaembu povoam o imaginário popular de diferentes maneiras e, por isso, acreditamos que é preciso integrar o conhecimento científico de maneira orientada com as demandas da sociedade para que, dessa maneira, possamos evitar novos confrontos e construir um universo do futebol mais seguro.

(*) João Vitor Sudário - Mestrando do Programa de Pós Graduação em Geografia (POSGEO/UFF) e Observatório Social do Futebol.

(*) Nicolás Cabrera - Pós-Doutorando da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e Observatório Social do Futebol.

(*) Raquel Sousa - Doutoranda do Programa de Pós Graduação em Ciências Sociais (PPCIS/UERJ) e Observatório Social do Futebol.

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