
A presença de extremistas nas universidades públicas brasileiras é um fenômeno que assusta. Não me refiro a pessoas ou grupos conservadores, mas fascistas. Como espaço plural e democrático, o ambiente acadêmico não distingue posições políticas. Entretanto, como em qualquer espaço que abrigue coletividades, há incontornáveis pressões e constrangimentos, quase sempre com função pedagógica.
Nas minhas turmas não distingo sobre as opções políticas e partidárias dos meus alunos. Nos idos dos anos 1990 e 2000, essa questão nunca pareceu importante. Eu simplesmente dava minhas aulas quase sem ter ideia do credo político dos estudantes. Nos últimos anos, contudo, frente ao fato de que a direita saiu à luz do dia, vez ou outra me deparo com estudantes que se dizem conservadores.
Tenho com meus alunos uma relação de confiança, que é a base sólida do processo pedagógico. Se não faço distinções nas minhas classes, isso não quer dizer que seja obrigado a levar relações de amizade para além da sala de aula. Não posso escolher meus estudantes, mas posso muito bem selecionar com quem quero continuar cooperando.
Não faço distinções das posições políticas de cada um que frequenta as minhas aulas, mas explicito que não é possível tolerar o fascismo. A Constituição de 1988 e a legislação brasileira me resguardam nesse quesito, haja vista que são taxativas em coibir qualquer discurso de ódio. Há 30 anos dando aulas na universidade pública, nunca tive o infortúnio de precisar lidar com um fascista a provocar minhas aulas.
Há uma década o Brasil assistiu a multiplicação de grupos de extrema direita, muitos dos quais passaram a frequentar as universidades públicas, na maioria dos casos sem qualquer vinculação formal, fazendo provocações e importunando estudantes e professores. Diante dessa ofensiva, episódios de enfrentamento vem sendo registrados, com os provocadores sendo expulsos com firmeza e bravura por estudantes organizados nos CA´s e DCE’s.
Vez por outra, esses eventos entram na mira das instituições, que felizmente tomam partido dos estudantes e professores agredidos. Ano passado, um estudante de História da UnB passou meses provocando professores e colegas, até ser suspenso da universidade. Há quinze dias, a UFF, campus Gragoatá, foi invadida por um grupo de provocadores, que foi expulso pelos estudantes. Em nota emitida pela Reitoria, consta que as provocações dirigidas por quem propaga “discursos de ódio e incitam a violência como estratégia política (...) evidenciam que essas ações não são pontuais”. Os eventos se multiplicam e até aqui as universidades têm respondido a altura.
Há quem veja nessa postura uma tentativa de resguardar a universidade como “feudo ideológico” da esquerda. Eu vejo como defesa da civilidade e da democracia. Quem negocia com extremistas arrisca ter que engolir o fascismo, não apenas no campus, mas a governar o país.
Carlos Zacarias de Sena Júnior
Doutor em História, Professor do Departamento de História da UFBA.
Contato: zacasenajr@uol.com.br

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