Terça, 09 de Junho de 2026
24°C 25°C
Salvador, BA
Publicidade

Mortes policiais abruptas e paulatinas como elementos culturais

Vivenciar o risco é ser policial, sentir-se responsável é ser policial, resolver é obrigação policial.

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: fontesegura.forumseguranca.org.br/ | EDIÇÃO N.275
04/05/2025 às 08h41
Mortes policiais abruptas e paulatinas como elementos culturais

Nas atividades de segurança pública e privada a morte é tida como um componente profissional no Brasil. Floriano Cathalá Neto  analisou, na edição anterior do Fonte Segura, o triste acidente que ceifou a vida de três policiais rodoviários federais no dia 18 de abril de 2025. A guarnição da Polícia Rodoviária Federal acompanhava motociclistas que estavam sem capacete e fugiram de uma bllitz e, por haver ondulações no asfalto, a viatura saltou e bateu em um terceiro veículo. Três dos quatro policiais faleceram no acidente. Outro policial rodoviário e três pessoas que estavam no outro veículo ficaram feridos.

Com precisão, Neto destaca que o culto ao heroísmo e ao ato de bravura como um componente da cultura organizacional, que para fins didáticos chamarei como cultura policial nestas próximas linhas, é um fomento para a exposição policial aos riscos e à morte, sendo necessária sua substituição pelo compromisso com a própria vida e da população.

Como uma tentativa de colaborar com o debate, colocarei de forma simplificada algumas características da cultura policial em que o risco extremo ou até mesmo a morte na segurança pública é o ápice de um fato complexo com causas múltiplas e com diversas consequências na cultura policial e a mudança desse marco também é complexa.

Primeiramente, deve-se destacar a militarização da segurança pública, mesmo por mimetismo de modelo de unidades especializadas ou nos cursos profissionais nas instituições civis. A socialização militar formal nas Polícias Militares e informal nas Polícias Civis, na Polícia Rodoviária Federal e nas Guardas Municipais é uma característica que aumenta a homogeneização, dificultando o contraditório, conservando as práticas constituídas e a rigidez tradicional. Outro ponto é que, por ser instituição militar, ou por influência da militarização, o processo de socialização profissional conduz para a constituição de profissionais altruístas, até potencialmente suicidas altruístas, em uma perspectiva durkheimiana.

Neste sentido, o risco e seus desdobramento na atividade policial, inclusive os ritos que celebram o enfrentamento, é um dos elementos constitutivos e constituintes da cultura policial brasileira. Desta forma, o risco de morrer, a prisão ou a morte do outro são elementos constitutivos e constituintes do ser. Vivenciar o risco é ser policial, sentir-se responsável é ser policial, resolver é obrigação policial.

Por uma perspectiva cultural, o risco e a morte compõem dimensões cognitivas, simbólicas e estruturais imbricadas. Isso é, fazem parte do que dá sentido, representa e organiza o cotidiano institucional moldado em um processo cultural, mas também sócio-histórico, político e econômico. São componentes que auxiliam na “leitura do mundo”, indicam ações e explicam e justificam interpretações cotidianas. Compõem o “feeling e/ou tirocínio policial. No imaginário policial nenhuma ocorrência é somente de trânsito, assim, a desobediência à ordem de parada “é um sinal de que há outras possíveis condutas criminosas escamoteadas pela possível fuga” e o infrator já rompeu o “contrato com a sociedade” e já é punível.

Por esta cultura policial, o perigo para si e para a sociedade deve ser mitigado o mais rápido possível, independente dos recursos disponíveis e até mesmo do grau de risco iminente para si, para o perpetrador da infração ou até para terceiros. Assim, a partir desta lógica, até mesmo a menor infração cometida pode ser um risco à sociedade e se considera que pode se tornar um risco maior. Por conseguinte, o agente perpetrador do dano causador do risco deve ser considerado o maior dos riscos e cessado imediatamente, independentemente do grau do risco inicial. Por isso, em uma associação a partir do trágico acidente, pode-se interpretar que a lógica do acompanhamento e a “energia utilizada” para cessar os motociclistas infratores de trânsito não eram percebidas como infratores administrativos, mas potenciais criminosos, suspeitos, perturbadores da ordem social, entre outras qualificações construídas pelas instituições mantenedoras da ordem.

Pontos como “risco injustificado” ou “expor a vida” têm outras conotações quando percebidos a partir do prisma cultural ou, como diria Laraia, com os óculos da cultura policial, que nos faz refletir sobre “Expor a vida a risco sem justificativa”. O segundo desdobramento, além da potencialidade do risco, é a percepção da “ofensa à sociedade”. Assim, quaisquer ações, sejam administrativas ou criminais, são percebidas como uma ofensa às instituições e à sociedade. Passar sem capacete frente a blitz, desobedecer a ordem de parada, roubar um celular, entre outras ações, são percebidas pelo dano propriamente dito (perigo no transito, subtração do patrimônio, por exemplo) e o dano à instituição (representados pelos agentes na blitz) ou à sociedade (uma norma social desobedecida).

Esse era o discurso presente na cerimônia de despedida do policial militar que morreu em um acidente na BR-070 em situação semelhante. Como Cathalá Neto destacou, acidentes de trânsito são comuns durante o serviço policial, alguns fatais. Em 2016, na BR-070 houve um acidente de trânsito após o acompanhamento de um veículo roubado e uma viatura bateu em um poste,  capotando em seguida. O motorista da viatura faleceu.  No cortejo, em meio às mesmas indagações que Neto indicou sobre a justificativa para arriscar a vida por um veículo, por um celular ou por qualquer outro objeto, era unânime nas falas que a ação policial era desenvolvida para recuperar o bem e para “dar uma resposta” à sociedade, entre outras afirmações que destacavam a moral e as regras sociais como os bens a preservar.

Cabe destacar ainda que a construção institucional da imagem do Herói está em um contexto de precarização de condições de trabalho, com insegurança acerca de ações cotidianas mínimas por ausência de protocolos fundamentados jurídica e cientificamente; com ausência de conhecimento científico que fundamente o mínimo de equipamentos de proteção individual e coletiva e ausência de integração sistêmica entre as instituições; e construindo a percepção de isolamento e de responsabilidade solitária pela manutenção da ordem.

Nesse contexto, a do Herói seria uma das poucas recompensas nesta Loucura do Trabalho, como poderia interpretar Christophe Dejours se analisasse as condições do trabalho policial e as consequências à saúde integral (física, mental e social), sendo que poderia chegar a conclusões que as condições são fatais, se não pelos eventos abruptos de acidentes de trânsito, intervenções armadas, entre outras, masmpela constante morte cotidiana do corpo, da mente e da vida social, resultando em uma expectativa de vida menor do que a da população local em quase dez anos, com destaque para o  crescente aumento do suicídio policial.

Portanto, refletir em uma lógica de trabalho diferente é refundar as instituições policiais, o que a curto e médio prazo é improvável. Todavia, há formas de mitigar esse processo a médio prazo: “Desmilitarizar” as instituições é um passo importante para pensar em outros processos de formação e socialização profissional, substituindo a lógica de combate para a manutenção da ordem social pela manutenção do estado de direito e a integração sistêmica como elementos orientadores profissionais; assim como fomentar a cientificidade como fundamentação das ações e operações policiais, alterando o tradicional “tirocínio” para a racionalidade de protocolos institucionais, modificando a forma de interpretar e explicar as relações sociais próprias da segurança pública; e fomentar a construção do saber científico policial e de segurança pública para orientar condições de trabalho, estimulando treinamento contínuo e atualização profissional para automatizar procedimentos e repensar protocolos.

Desta forma, devem ser construídas intervenções para a prevenção das mortes abruptas e naturalizadas, como destacou Floriano Cathalá Neto. Todavia, acrescento que também é necessário consolidar intervenções para os adoecimentos e mortes paulatinos, que reduzem a vida social, depois a saúde mental e, por fim, a morte física por ocorrência, por autoextermínio ou por consequência das más condições físicas anteriores, próprias da cultura policial, que estão naturalizadas, mas sem romantismo e reconhecimento.

Gilvan Gomes da Silva

Sargento da Polícia Militar do Distrito Federal, doutor em Sociologia, professor do Instituto Superior de Ciências Policiais (PMDF) e pesquisador do Núcleo de Estudos sobre Violência e Segurança (UnB).

fontesegura.forumseguranca.org.br/  |  EDIÇÃO N.275

Clique na IMAGEM e acesse a Coluna Fonte Segura/PÁGINA DE POLÍCIA, espaço destinado para publicações de artigos dos articulistas do Fonte Segura/Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

 

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
MÚLTIPLAS VOZES Há 17 horas

FAMÍLIA E PRISÃO: presença inconteste e repercussões invisibilizadas

O conceito da prisionização secundária envolve os impactos da prisão sofridos pelas famílias, que sofrem repercussões ligadas às rotinas das unidades prisionais e ao campo jurídico-penal. Há também desdobramentos econômicos decorrentes do endividamento, consequências no mundo do trabalho e em aspectos das relações sociofamiliares. por Maria Palma Wolff

MÚLTIPLAS VOZES Há 17 horas

A infraestrutura invisível da vigilância no Brasil (Parte 3): monitoramento político, dissenso e os riscos democráticos da vigilância integrada.

Infraestruturas de vigilância construídas sob governos democráticos podem permanecer disponíveis para usos autoritários futuros. por Rodrigo Firmino, André Pecini e Thallita Lima

ATLAS DA VIOLÊNCIA Há 17 horas

DADOS DO ATLAS DA VIOLÊNCIA DE 2026 EVIDENCIAM AS DINÂMICAS DA VIOLÊNCIA CONTRA AS MULHERES NO BRASIL

São destaques da publicação os altos índices de letalidade de mulheres negras, a persistência da residência como principal lócus da violência, assim como os índices de reincidência e os tipos de violência que mais afetam as mulheres em cada ciclo da vida. Por Beatriz Schroeder e Deise Nunes

MÚLTIPLAS VOZES Há 18 horas

PRESENÇA QUE PROTEGE E APROXIMA: O Impacto da Base Fluvial Arpão na Cidadania e Segurança das Comunidades do Solimões.

Desde sua implementação, as ações articuladas na Base Arpão I resultaram na apreensão de toneladas de entorpecentes, como cocaína e maconha do tipo skunk, além de armas, munições e combustíveis ilegais, gerando um prejuízo financeiro direto ao crime organizado estimado em mais de R$ 100 milhões. por Aldo Ramos da Silva Jr. e César Maurício de Abreu Mello

MÚLTIPLAS VOZES Há 18 horas

Da Cooperação Policial ao Unilateralismo Coercitivo: As Implicações da Designação do PCC e do CV como Organizações Terroristas Estrangeiras pelos EUA

Longe de constituir uma política criminal eficiente, a medida delineia-se como um instrumento de coerção geopolítica, capaz de desestabilizar as relações diplomáticas e institucionais entre as duas maiores democracias do continente. por Roberto Uchôa

FONTE SEGURA
FONTE SEGURA
Espaço dos articulistas do FONTE SEGURA/Fórum Brasileiro de Segurança Pública, dedicado a análises baseadas em dados e transparência para qualificar o debate sobre segurança pública. O projeto conecta fatos e estruturas, promove cooperação federativa e alcança leitores em diversos países.
Ver notícias
Salvador, BA
25°
Parcialmente nublado
Mín. 24° Máx. 25°
25° Sensação
4.89 km/h Vento
70% Umidade
0% (0mm) Chance chuva
05h52 Nascer do sol
17h14 Pôr do sol
Quarta
25° 24°
Quinta
26° 24°
Sexta
26° 25°
Sábado
26° 24°
Domingo
26° 24°
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Economia
Dólar
R$ 5,19 -0,02%
Euro
R$ 5,99 -0,06%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 348,848,61 -0,56%
Ibovespa
168,668,72 pts -0.21%
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Enquete
Nenhuma enquete cadastrada
Publicidade
Anúncio