Sexta, 23 de Outubro de 2026
25°C 27°C
Salvador, BA
Publicidade

O que seria um policiamento sensível a gênero?

Delegacias, batalhões e patrulhamentos exclusivos para as mulheres podem não ser suficientes quando ainda persistem nas corporações culturas e rotinas incapazes de analisar violências decorrentes da condição do sexo feminino.

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento
04/05/2025 às 01h58 Atualizada em 04/05/2025 às 02h03
O que seria um policiamento sensível a gênero?

Nos serviços públicos está ganhando destaque a perspectiva sensível a gênero, como, por exemplo, no âmbito orçamentário[i]. Em linhas gerais, ações públicas sensíveis a gênero consideram as diferenças entre homens e mulheres. Assim, são promovidas medidas que enfrentem desigualdades decorrentes do gênero. Nesse debate, observa-se que o gênero está sujeito a vários fatores, logo dada vulnerabilidade pode estar alinhavada a outras. Por exemplo, no caso de violência contra mulheres, o evento pode concorrer com outros fatores de risco aos quais elas estão submetidas, o que exige um policiamento capaz de enxergar os matizes dos conflitos. Diante disso, o que seria um policiamento sensível a gênero?

Dados sobre a criminalidade apontam as diferenças entre homens e mulheres, com a propensão de elas serem mais vitimadas. Verifica-se que, a depender do tipo de crime, elas são as vítimas preferenciais. Por exemplo, em 2021, no Distrito Federal, nos crimes de estupro, importunação sexual e perseguição (stalking), as mulheres perfizeram 90% das vítimas. Essa tendência se observa noutros tipos de crimes, mesmo naqueles não necessariamente caracterizados pelo sexismo. Por exemplo, no roubo a transeunte elas são 47,9% das vítimas. Por outro    lado, na condição de autoria, em geral, elas figuraram em 20% dos casos[ii].

Em crimes próprios da condição feminina, como os previstos na Lei Maria da Penha, na Capital Federal, em média, são registradas 20 mil ocorrências ao ano, o que demonstra que a referida norma descortinou abusos e agressões que ficavam submersos no âmbito doméstico. Por outro lado, mesmo nas situações domésticas em que o crime possa ser praticado contra vítima de qualquer gênero, homem ou mulher, como é o caso da lesão corporal do artigo 129, § 9 do Código Penal, elas são as mais agredidas. Desse modo, dados do Distrito Federal demonstram que, a cada dez registros de lesão corporal de violência doméstica, as mulheres foram vítimas em oito casos[iii].

Os dados apresentados não pretendem reforçar o estigma da mulher como sexo frágil. Na verdade, os dados sugerem que a mulher é vitimada não por uma suposta fragilidade, mas por ordenamentos que as expõem a mais riscos do que os homens. Ou seja, as mulheres tendem a ser mais vitimadas não por que são as partes mais frágeis, mas por que as dinâmicas da violência as atingem de modo distinto. Isso é vulnerabilidade, não fragilidade. Com efeito, é bem provável que violências contra as mulheres sejam as provas mais visíveis da persistência do patriarcado e da misoginia nas relações humanas.

Para mitigar esse problema, hoje é comum verificar polícias com unidades específicas para o atendimento a mulheres. Delegacias de atendimento a mulheres e patrulhas Maria da Penha, por exemplo, já são realidades em boa parte das corporações brasileiras. O objetivo dessas unidades é dar atendimento prioritário aos casos de violência doméstica e amparar as mulheres com os instrumentos legais possíveis. Outras medidas reforçam a recepção especializada às mulheres, como protocolos em casos de feminicídio e crimes sexuais. Com isso, de modo geral, tem-se buscado avistar as particularidades da condição feminina frente à criminalidade e evitar a revitimização no âmbito policial.

O estabelecimento de unidades policiais voltadas ao atendimento da mulher vítima é salutar, seja de modo material ou simbólico; afinal, isso demonstra o comprometimento das corporações em lidar com a problemática. Todavia, além de espaços físicos, é preciso que a concepção do policiamento seja efetivamente sensível à questão do gênero. Para tanto, isso implica que a compreensão e o tratamento da violência contra as mulheres sejam vistos com outras lentes. Ora, o gênero aqui não é um detalhe, pois pode ser mesmo a questão determinante.

Por isso, policiamento sensível a gênero é mais do que ostentar unidades especializadas; estruturalmente, ele é uma concepção decorrente da perspectiva do gênero. Isso se justifica não só pelo fato de mulheres serem vitimadas, mas também pela situação de que os variados delitos podem ser também violência de gênero. Soma-se a isso misoginia, um ódio deliberado contra mulheres, o que potencializa a condição de vulnerabilidade.

O policiamento sensível a gênero seria composto de ações preventivas a procedimentos investigativos, com policiais formados e capacitados para lidarem com o fato de que a condição do sexo feminino pode ser a razão do delito. Daí um policiamento atento às questões de gênero deve ser capaz de vislumbrar a dimensão do gênero com transversalidade e a interseccionalidade. Portanto, um desempenho sob a perspectiva de gênero muda a visão acerca das atividades de policiamento e de sua necessidade de criar condições para o enfretamento da violência contra as mulheres.

Com efeito, da mesma forma que o arcabouço teórico sobre orçamento sensível à questão do gênero não visa à produção de um orçamento exclusivo para as mulheres[iv], o policiamento sensível a gênero não deve se limitar à criação de estruturas separadas para contemplar as mulheres vitimadas. Assim, delegacias, batalhões e patrulhamentos exclusivos para as mulheres podem não ser suficientes quando ainda persistem nas corporações culturas e rotinas incapazes de analisar violências decorrentes da condição do sexo feminino.

Por isso, um policiamento sensível a gênero é desafio tal qual em outras áreas do poder público que visam atacar as diferenças entre homens e mulheres. Vale destacar que há avanços significativos em várias corporações brasileiras, com instalações e protocolos voltados às mulheres. Porém, isso ainda não é um policiamento sensível às questões de gênero. Afinal, um policiamento nesses termos sugere análise de gênero em aspectos profundos dos procedimentos policiais, logo é algo mais amplo assentado em valores e práticas cidadãs direcionadas ao enfrentamento de preconceitos de gênero.

REFERÊNCIAS

[i] Orçamento sensível a gênero: conceitos / Márcia Laranjeira Jácome e Shirley Vilela (ORG) – Brasília: ONU Mulheres, 2012.

[ii] Levantamento Evidências da vitimização feminina do Distrito Federal (2021), fonte DATE/DGI/PCDF

[iii] Relatório Estatístico violência doméstica – 2024, fonte DATE/DGI/PCDF

[iv] Elson, Diane. “Iniciativas orçamentárias sensíveis à questão de gênero: dimensões chave e exemplos práticos.” Revista do Serviço Público, 2005.

Alexandre Pereira da Rocha

Doutor em Ciências Sociais. Policial civil no Distrito Federal. Associado do FBSP. Professor substituto no IPOL/UNB.

fontesegura.forumseguranca.org.br/ | EDIÇÃO N.274

Clique na IMAGEM e acesse a Coluna Fonte Segura/PÁGINA DE POLÍCIA, espaço destinado para publicações de artigos dos articulistas do Fonte Segura/Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
MÚLTIPLAS VOZES Há 6 dias

Quem protege também precisa ser cuidado

Pesquisa identifica sinais relevantes de sofrimento psíquico e reforça a necessidade de prevenção e cuidado institucional permanente. por Luana Maria Lima Alves, Silvia dos Santos de Almeida e Alethea Maria Carolina Sales Bernardo

MÚLTIPLAS VOZES Há 6 dias

Menos registros, mais perguntas sobre a violência sexual contra crianças e adolescentes

A queda inédita nos registros de estupro de vulnerável em 2025 suscita a questão: estamos diante de uma redução efetiva da violência ou de uma mudança na capacidade de identificá-la e denunciá-la?. por Luciana Temer*

MÚLTIPLAS VOZES Há 6 dias

Material de abuso sexual infantil: novas dinâmicas da violência no ambiente digital

A violência sexual contra crianças e adolescentes ganha novas dimensões no ambiente digital. Os microdados revelam a predominância de meninas entre as vítimas e a expressiva presença de adolescentes entre os autores. por Cauê Martins*

MÚLTIPLAS VOZES Há 1 semana

Ladrões do Centro paulistano

Pesquisa exploratória sobre determinados crimes no centro da capital paulista identificou alguns padrões de comportamento de ladrões, traficantes e receptadores de bens roubados na área. por Guaracy Minga

Desaparecidas Há 2 semanas

O aumento dos desaparecimentos e a urgência de respostas institucionais mais adequadas

O desaparecimento de pessoas continua sendo fenômeno de difícil compreensão, atravessado por diferentes causas e trajetórias. Enquanto os registros crescem, persistem lacunas na produção de informações, na articulação entre instituições e em uma legislação que ainda não contempla adequadamente essa diversidade. por Deise Nunes*

FONTE SEGURA
FONTE SEGURA
Espaço dos articulistas do FONTE SEGURA/Fórum Brasileiro de Segurança Pública, dedicado a análises baseadas em dados e transparência para qualificar o debate sobre segurança pública. O projeto conecta fatos e estruturas, promove cooperação federativa e alcança leitores em diversos países.
Ver notícias
Salvador, BA
26°
Parcialmente nublado
Mín. 25° Máx. 27°
28° Sensação
15.08 km/h Vento
78% Umidade
100% (2.55mm) Chance chuva
05h04 Nascer do sol
17h32 Pôr do sol
Sábado
27° 24°
Domingo
28° 24°
Segunda
28° 24°
Terça
27° 26°
Quarta
27° 26°
Publicidade

? LOCALIZAR UNIDADE POLICIAL NA BAHIA

Publicidade

? LOCALIZAR UNIDADE POLICIAL EM PERNAMBUCO

Publicidade

? LOCALIZAR UNIDADE POLICIAL EM SERGIPE

```
Economia
Dólar
R$ 5,05 +0,07%
Euro
R$ 5,67 +0,11%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 437,105,92 +0,20%
Ibovespa
204,120,13 pts -1.15%
Publicidade
Publicidade
Enquete
Nenhuma enquete cadastrada
Publicidade
Anúncio