Terça, 09 de Junho de 2026
24°C 25°C
Salvador, BA
Publicidade

Governança e reforma do setor de segurança: agenda possível e necessária para o Brasil

Inserir os conceitos de governança e reforma do setor de segurança no centro do debate brasileiro significa uma oportunidade para refletir de forma crítica sobre os modelos institucionais vigentes, valorizar experiências locais de inovação e construir, de maneira colaborativa, um setor de segurança mais eficiente, justo, transparente e comprometido com a democracia.

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: https://fontesegura.forumseguranca.org.br/ | EDIÇÃO N.274
02/05/2025 às 14h39
Governança e reforma do setor de segurança: agenda possível e necessária para o Brasil

O debate sobre segurança pública no Brasil tem sido frequentemente marcado por agendas de curto prazo e respostas imediatistas, centradas na repressão ao crime e no fortalecimento de aparatos coercitivos. Ainda assim, é importante reconhecer que, a duras penas, ocorreu a consolidação de um campo de reflexão e ação voltado à melhoria da governança democrática da segurança. Iniciativas como a criação de ouvidorias externas das polícias, a implementação de planos estaduais de segurança cidadã, a expansão do uso de câmeras corporais e os debates em torno do Sistema Único de Segurança Pública (SUSP) expressam preocupações com transparência, controle social, eficiência e responsabilização — temas centrais no debate internacional sobre Security Sector Governance (SSG) e Security Sector Reform (SSR).

Organismos multilaterais e organizações internacionais vêm utilizando amplamente esses dois conceitos para pensar estratégias de fortalecimento institucional e aprimoramento da segurança pública. A governança do setor de segurança refere-se à maneira como o poder e a autoridade sobre a segurança são exercidos no interior de um Estado, envolvendo necessariamente tanto atores estatais — como polícias, sistemas de justiça, parlamentos, poderes executivos e forças armadas — quanto atores não estatais, como organizações da sociedade civil, academia, empresas privadas e meios de comunicação. A boa governança do setor de segurança pressupõe a aplicação dos mesmos princípios que orientam outras áreas da administração pública: responsabilização, transparência, Estado de Direito, participação social, responsividade, efetividade e eficiência.

A reforma do setor de segurança, por sua vez, é um processo técnico e político voltado à melhoria da prestação, gestão e supervisão da segurança pública, com vistas a torná-la mais eficaz e mais alinhada aos direitos, expectativas e necessidades da população. Isso envolve desde reformas legislativas e organizacionais até mudanças operacionais, incluindo qualificação profissional, padronização de condutas, desenvolvimento de protocolos e fortalecimento dos mecanismos de controle interno e externo. No Brasil, iniciativas como a modernização das polícias civis, programas de redução de homicídios e o programa de audiências de custódia são exemplos de reformas que dialogam com os princípios da SSR.

Embora os termos SSR e SSG sejam frequentemente aplicados a países em contextos de pós-conflito, reconstrução institucional ou transição democrática — sobretudo no continente africano e no Orente Médio —, é importante destacar que esses conceitos são igualmente úteis e necessários em democracias consolidadas ou em processo de consolidação. Isso porque nenhuma estrutura de segurança está imune à necessidade de aperfeiçoamento, seja para enfrentar novas ameaças, superar desigualdades no acesso à justiça ou prevenir abusos de poder. A adoção de tais conceitos e princípios permite traçar paralelos entre realidades distintas, aprender com casos de outros países e facilitar a comunicação com organismos internacionais, instituições de cooperação e redes transnacionais que atuam na área da segurança e da justiça.

Entretanto, aplicar esses princípios no Brasil exige lidar com desafios concretos e persistentes. A fragilidade institucional se expressa na descontinuidade de políticas públicas, frequentemente desmanteladas ou ignoradas a cada mudança de gestão. A resistência corporativa de setores das polícias e do sistema de justiça impõe barreiras à implementação de mecanismos de controle, padronização de condutas e ampliação da transparência. As limitações orçamentárias dificultam o financiamento de reformas estruturais e sustentadas e, especialmente em áreas como formação continuada, monitoramento e avaliação de políticas e adoção de novas tecnologias. Soma-se a isso um ambiente de forte polarização política, no qual a segurança pública é muitas vezes instrumentalizada como pauta eleitoral, em vez de ser tratada como política de Estado baseada em evidências, pactos sociais e compromissos institucionais.

Reforçar os pilares da boa governança no setor de segurança é uma forma de proteger as instituições democráticas e ampliar a confiança da população no Estado. Em contextos como o brasileiro, marcados por altos índices de homicídios, letalidade policial, seletividade penal, ausência de controle efetivo e desconfiança nas instituições, a adoção da lógica da reforma orientada por princípios pode representar um caminho estratégico para enfrentar a crise de legitimidade e promover mudanças sustentáveis. Para que essas reformas sejam bem-sucedidas, é fundamental garantir engajamento político, coordenação interinstitucional e apropriação local do processo. Experiências internacionais mostram que processos participativos e liderados por atores nacionais e locais — e não impostos de fora — são os que mais têm chance de êxito e sustentabilidade.

Inserir os conceitos de governança e reforma do setor de segurança no centro do debate brasileiro não significa importar soluções prontas, mas sim adotar uma linguagem e um marco de análise que ajudem a organizar diagnósticos, compartilhar boas práticas e desenhar respostas estruturais. Trata-se de uma oportunidade para refletir de forma crítica sobre os modelos institucionais vigentes, valorizar experiências locais de inovação e construir, de maneira colaborativa, um setor de segurança mais eficiente, justo, transparente e comprometido com a democracia.

Ariadne Natal

Doutora em sociologia, pesquisadora associada do Peace Research Institute Frankfurt (PRIF) e do Núcleo de Estudos da Violência da Univerisade de São Paulo (NEV-USP). Associada plena do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

https://fontesegura.forumseguranca.org.br/ | EDIÇÃO N.274

 

Clique na IMAGEM e acesse a Coluna Fonte Segura/PÁGINA DE POLÍCIA, espaço destinado para publicações de artigos dos articulistas do Fonte Segura/Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
MÚLTIPLAS VOZES Há 17 horas

FAMÍLIA E PRISÃO: presença inconteste e repercussões invisibilizadas

O conceito da prisionização secundária envolve os impactos da prisão sofridos pelas famílias, que sofrem repercussões ligadas às rotinas das unidades prisionais e ao campo jurídico-penal. Há também desdobramentos econômicos decorrentes do endividamento, consequências no mundo do trabalho e em aspectos das relações sociofamiliares. por Maria Palma Wolff

MÚLTIPLAS VOZES Há 17 horas

A infraestrutura invisível da vigilância no Brasil (Parte 3): monitoramento político, dissenso e os riscos democráticos da vigilância integrada.

Infraestruturas de vigilância construídas sob governos democráticos podem permanecer disponíveis para usos autoritários futuros. por Rodrigo Firmino, André Pecini e Thallita Lima

ATLAS DA VIOLÊNCIA Há 17 horas

DADOS DO ATLAS DA VIOLÊNCIA DE 2026 EVIDENCIAM AS DINÂMICAS DA VIOLÊNCIA CONTRA AS MULHERES NO BRASIL

São destaques da publicação os altos índices de letalidade de mulheres negras, a persistência da residência como principal lócus da violência, assim como os índices de reincidência e os tipos de violência que mais afetam as mulheres em cada ciclo da vida. Por Beatriz Schroeder e Deise Nunes

MÚLTIPLAS VOZES Há 18 horas

PRESENÇA QUE PROTEGE E APROXIMA: O Impacto da Base Fluvial Arpão na Cidadania e Segurança das Comunidades do Solimões.

Desde sua implementação, as ações articuladas na Base Arpão I resultaram na apreensão de toneladas de entorpecentes, como cocaína e maconha do tipo skunk, além de armas, munições e combustíveis ilegais, gerando um prejuízo financeiro direto ao crime organizado estimado em mais de R$ 100 milhões. por Aldo Ramos da Silva Jr. e César Maurício de Abreu Mello

MÚLTIPLAS VOZES Há 18 horas

Da Cooperação Policial ao Unilateralismo Coercitivo: As Implicações da Designação do PCC e do CV como Organizações Terroristas Estrangeiras pelos EUA

Longe de constituir uma política criminal eficiente, a medida delineia-se como um instrumento de coerção geopolítica, capaz de desestabilizar as relações diplomáticas e institucionais entre as duas maiores democracias do continente. por Roberto Uchôa

FONTE SEGURA
FONTE SEGURA
Espaço dos articulistas do FONTE SEGURA/Fórum Brasileiro de Segurança Pública, dedicado a análises baseadas em dados e transparência para qualificar o debate sobre segurança pública. O projeto conecta fatos e estruturas, promove cooperação federativa e alcança leitores em diversos países.
Ver notícias
Salvador, BA
25°
Parcialmente nublado
Mín. 24° Máx. 25°
25° Sensação
4.89 km/h Vento
70% Umidade
0% (0mm) Chance chuva
05h52 Nascer do sol
17h14 Pôr do sol
Quarta
25° 24°
Quinta
26° 24°
Sexta
26° 25°
Sábado
26° 24°
Domingo
26° 24°
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Economia
Dólar
R$ 5,19 -0,02%
Euro
R$ 5,99 -0,06%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 348,848,61 -0,56%
Ibovespa
168,668,72 pts -0.21%
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Enquete
Nenhuma enquete cadastrada
Publicidade
Anúncio