Quarta, 23 de Setembro de 2026
22°C 26°C
Salvador, BA
Publicidade

UMA REFLEXÃO NECESSÁRIA: O princípio da imparcialidade nos Processos Administrativos Disciplinares na Polícia Civil

A urgência de atuação das entidades de classe frente à violação de direitos fundamentais de servidores da segurança pública.

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: por BEL LUIZ FERRERA
16/04/2025 às 14h49 Atualizada em 16/04/2025 às 14h55
UMA REFLEXÃO NECESSÁRIA: O princípio da imparcialidade nos Processos Administrativos Disciplinares na Polícia Civil

Autor: Bel. Luiz Ferreira

Máxima vênia, este artigo tem o propósito único de esclarecer, na medida do possível, aos colegas que sofreram ou estão na iminência de sofrer algum tipo de ilegalidade e, consequentemente, constrangimentos — inclusive perdas salariais — em virtude da omissão de nossas entidades de classe. É indiscutível a inércia quanto a essa questão. E, quando falamos de salário, estamos também tratando de dignidade.

Nobres colegas e operadores do direito, diante dos inúmeros Processos Administrativos Disciplinares (PADs) abertos para apuração de supostos ilícitos administrativos praticados por servidores — em especial os policiais civis —, é necessário refletirmos sobre o princípio da imparcialidade.

Este princípio jurídico determina que as decisões devem ser tomadas de forma justa e equitativa, sem favorecimentos ou preconceitos. Assim, fica claro que Investigadores de Polícia Civil (IPCs) e Escrivães de Polícia Civil (EPCs), sendo em tese subordinados aos Delegados de Polícia Civil (DPCs), os quais, pela Lei Orgânica da Polícia Civil, se autodenominam superiores hierárquicos, não podem e não devem presidir PADs quando o fato apurado envolver um suposto ilícito cometido por um IPC contra um DPC.

Quando um DPC é designado como presidente de um PAD nessas condições, o procedimento nasce viciado, dada a parcialidade implícita na relação hierárquica e funcional entre os envolvidos. Como bem ensinou o jurista alemão Rudolf von Ihering, em sua obra A Luta pelo Direito (1872), o peso da balança da justiça certamente estará desequilibrado quando a espada da justiça estiver nas mãos contaminadas pela parcialidade.

A parcialidade em um processo administrativo compromete sua lisura, podendo prejudicar o inocente ou beneficiar o culpado. A imparcialidade, princípio constitucional, exige que a administração pública trate todos com isenção e igualdade, sem se deixar influenciar por opiniões subjetivas.

E o que ocorre se em um PAD houver parcialidade? Ele pode ser anulado. A Constituição Federal, em seu artigo 93, inciso IX, estabelece que todas as decisões devem ser fundamentadas e motivadas. A ausência desses elementos pode acarretar a nulidade do procedimento.

Com base na prática cotidiana, entende-se que mais de 90% dos PADs instaurados em corregedorias da Polícia Civil são passíveis de anulação, pois geralmente envolvem conflitos entre servidores de diferentes níveis hierárquicos, onde o julgador pertence à mesma classe funcional do superior hierárquico envolvido. Isso, além de ilegal, é imoral e atenta contra o princípio da imparcialidade e o princípio da razoabilidade. Seria o mesmo que escalar um árbitro brasileiro para apitar a final da Copa do Mundo entre Brasil e Argentina — ou um árbitro argentino para esse mesmo jogo. Seria razoável? Seria coerente?

A condução de processos administrativos com erros e vícios, que quase sempre resultam em prejuízo ao servidor de menor escalão, constitui uma afronta direta ao princípio da moralidade administrativa. É inadmissível que as entidades de classe permaneçam inertes diante de tais violações, que não apenas prejudicam a ficha funcional do servidor, mas também o abalam psicologicamente, levando-o à depressão, à perda da autoestima e ao desestímulo no exercício de sua função.

Muitos servidores exemplares foram vítimas dessa prática, sendo desmotivados pelo próprio sistema, perdendo a confiança e o ímpeto de seguir na missão de proteger a sociedade. Ao provar do “próprio veneno”, o policial civil percebe que a serpente que ataca não faz distinções: é feroz e implacável com qualquer um que ouse representar uma ameaça aos interesses estabelecidos.

A defesa do princípio da imparcialidade é fundamental para assegurar a justiça nos procedimentos administrativos e preservar a dignidade dos servidores públicos. A atuação proativa das entidades de classe é urgente e indispensável. É necessário que se posicionem com firmeza frente às ilegalidades que maculam não apenas as carreiras, mas também o sistema de justiça e o equilíbrio institucional. Só assim será possível restabelecer a confiança dos policiais civis em suas instituições, permitindo que exerçam suas funções com a coragem, o zelo e a honra que a sociedade espera deles.

Bel Luiz Carlos Ferreira de Souza - Brasileiro, baiano, casado, 63 anos, servidor público aposentado pelo estado da Bahia, atualmente reside no estado do Rio Grande do Sul, com formação técnica em redator auxiliar, acadêmico em História, Direito, pós-graduado em Ciências Criminais, política e estratégia e mestrando em políticas públicas.

Contato: lcfsferreira@gmail.com 

facebook.com/LcfsFerreira

Coluna Luiz Carlos Ferreira/PÁGINA DE POLÍCIA, acesse e acompanhe suas últimas publicações:

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
RELATO REAL: Há 2 semanas

RELATO REAL: JOVEM CUBANO REFUGIADO NO SUL DO BRASIL REVELA A DURA ROTINA SOB VIGILÂNCIA POLICIAL, CENSURA E MISÉRIA EM SEU PAÍS NATAL

Em depoimento exclusivo gravado no Rio Grande do Sul, imigrante cubano detalha a repressão a quem contesta o regime, a falta de itens básicos e alerta: “Lá a polícia não dialoga; ou você faz como eles querem, ou vai preso”. por |Bel Luiz Carlos Ferreira

A História de Helena Há 3 semanas

O Preço da Negação - A História de Helena

A morte do filho que a mãe tanto quis negar venceu, e ainda a levou também. Duas vidas se foram onde uma havia decidido que só uma importava. por Bel LUIZ FERREIRA

Salário vergonhoso Há 1 mês

O DESCASO COM QUEM INVESTIGA: o salário vergonhoso de investigadores e escrivães da Polícia Civil da Bahia

Na Bahia, quem carrega a investigação nas costas recebe o mínimo. Investigadores e escrivães da Polícia Civil trabalham com carga excessiva, risco real, plantões, cumprimento de mandados e atendimento direto à população. por LUIZ FERREIRA

“Capitão do mato”. Há 2 meses

O SILÊNCIO DOS INOCENTES

Às vezes vejo que o silêncio pode se confundir com covardia, e em outras vezes com sabedoria. por LUIZ FERREIRA

Sem a ocorrência? Há 3 meses

Resiliência depois da aposentadoria: recomeçar sem o distintivo

Aposentar da polícia civil é trocar a viatura pela rotina de casa. Por décadas o ritmo foi sirene, plantão, adrenalina e responsabilidade por vidas. De repente, o rádio cala. E aí bate a pergunta: quem eu sou sem a placa e sem a ocorrência? por Bel LUIZ FERREIRA

Bel LUIZ CARLOS FERREIRA
Bel LUIZ CARLOS FERREIRA
Luiz Carlos Ferreira - Brasileiro, baiano, casado, servidor público aposentado, torcedor do vitória, residente no Rio Grande do Sul, Bacharel em Direito, com formação técnica em redator auxiliar, acadêmico em História, pós graduado em Ciências Criminais, política e estratégia e mestrando em políticas públicas.
E-mail: lcfsferreira@gmail.com | facebook.com/LcfsFerreira
Ver notícias
Salvador, BA
27°
Tempo limpo
Mín. 22° Máx. 26°
29° Sensação
1.37 km/h Vento
73% Umidade
0% (0mm) Chance chuva
05h22 Nascer do sol
17h29 Pôr do sol
Quinta
26° 24°
Sexta
26° 24°
Sábado
26° 24°
Domingo
26° 25°
Segunda
26° 24°
Publicidade

? LOCALIZAR UNIDADE NA BAHIA

Publicidade
Publicidade
Anúncio
Economia
Dólar
R$ 5,14 +0,80%
Euro
R$ 5,86 +0,35%
Peso Argentino
R$ 0,00 +3,23%
Bitcoin
R$ 467,710,21 -0,48%
Ibovespa
187,768,55 pts 0.18%
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Enquete
Nenhuma enquete cadastrada
Publicidade
Anúncio