Terça, 09 de Junho de 2026
24°C 25°C
Salvador, BA
Publicidade

Os crimes cibernéticos na realidade brasileira: breve panorama e desafios

Um retrato da dimensão dos prejuízos acarretados pelos crimes virtuais e de roubos de celulares no Brasil.

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: fontesegura.forumseguranca.org.br/ | EDIÇÃO N.270
01/04/2025 às 13h33
Os crimes cibernéticos na realidade brasileira: breve panorama e desafios

O ambiente virtual vem se tornando cenário de um número cada vez maior de crimes que vão desde ameaças e bullying a estelionatos e crimes cibernéticos que geram bilhões de reais de prejuízo à sociedade. Segundo dados do mais recente Anuário Brasileiro de Segurança Pública, em 2023 foram quase dois milhões de estelionatos no Brasil, um aumento de 8,2% em relação a 2022, sendo que aproximadamente 12% ocorreram em meio eletrônico. Essa proporção pode ser bem maior porque Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul e São Paulo não informaram quantas ocorrências de estelionato, diante do total, se deram em meio eletrônico. Tal aumento contrasta com a diminuição de roubos verificada no período. O gráfico abaixo demonstra como essa tendência vem sendo reforçada desde 2018:

 

Fonte: Anuário FBSP 2024, disponível em: 18º Anuário Brasileiro de Segurança Pública: 2024

Em pesquisa realizada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública/Datafolha, os prejuízos estimados em decorrência de crimes virtuais e de roubos de celulares ultrapassaram R$ 186 bilhões no período de julho de 2023 a julho de 2024. Mais de 80 milhões de pessoas no Brasil foram vítimas de golpes/fraudes virtuais, resultando em quase R$ 40 bilhões em prejuízos (lembrando que a pesquisa não contemplou empresas, somente pessoas físicas).

A diversidade e a complexidade dos golpes aplicados demonstram que quadrilhas vêm se especializando nesse tipo de crime, utilizando técnicas sofisticadas como criação de ambientes virtuais falsos, engenharia social hiperpersonalizada etc. Para isso são empregadas ferramentas desenvolvidas para esse fim, bem como soluções de Inteligência Artificial para burlar as camadas de segurança e enganar pessoas.

O resgate recente de dois brasileiros que foram enganados com falsas promessas de emprego e acabaram escravizados em Mianmar, obrigados a praticar crimes virtuais[1], revela que os crimes e golpes virtuais mobilizam grupos com atuação em escala global. Essas quadrilhas mapeiam e abordam as vítimas, muitas vezes selecionadas em cadastros e bases de dados que contêm informações pessoais adquiridas ilegalmente.

Para dar conta de prevenir novos golpes, identificar quadrilhas e responsabilizar seus membros, temos um longo caminho a percorrer. É preciso adequar a legislação à nova realidade, prevendo e tipificando os crimes e fraudes cibernéticos; as instituições do sistema de justiça e segurança pública devem ser reestruturadas. Faz-se necessária a criação de laboratórios digitais para investigação e produção de provas. Os agentes precisam passar por capacitações para que possam operar nesse novo ambiente. É fundamental, ainda, ampliar a capacidade fiscalizatória do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF), órgão cuja missão é produzir inteligência financeira e supervisionar setores econômicos para proteção da sociedade contra a lavagem de dinheiro e o financiamento do terrorismo e da proliferação de armas de destruição em massa. Para que as instituições trabalhem em parceria, faltam acordos interagências para compartilhamento de dados e protocolos de atuação em conjunto. Do contrário, ficarão restritas aos limites jurisdicionais.

Sabemos o quão difícil são essas adequações no ambiente público. Mesmo que, num cenário atual todas elas se tornassem realidade, o ente público não daria conta de, sozinho, obstar os crimes/fraudes virtuais. Parcerias com instituições privadas são fundamentais pois, ao fim e ao cabo, instituições financeiras, grandes marketplaces e empresas são diretamente impactadas pela atuação dessas quadrilhas e precisam, além de criar camadas de segurança para as pessoas usuárias, impulsionar a atuação do poder público. O risco de se manterem inertes nesse cenário é o de terem suas receitas reduzidas, pois um ambiente virtual inseguro acaba caindo o número de operações, compras e transferências.

Como a quantidade de pessoas acessando serviços no ambiente digital não deve diminuir nos próximos anos, temos um cenário que demanda ações dos entes públicos e das empresas privadas. Cada um desenvolvendo soluções e ferramentas, acumulando conhecimento para evitar a ação dessas quadrilhas e a vitimização da população. Algumas boas ações já estão operando nesse sentido, como, por exemplo, o Sistema Tentáculos, da Polícia Federal, que centraliza todas as notícias-crime de fraudes em um repositório único de dados, que são compartilhados para diferentes agências realizarem suas investigações. Também temos os acordos de cooperação técnica, como o que foi assinado entre o Ministério da Justiça e a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) para a capacitação de agentes públicos e parceiros e o mapeamento dos principais casos de fraudes, golpes e crimes cibernéticos que vão pautar atividades específicas, além da produção de materiais para conscientização e letramento digital da população e da formulação de diretrizes para o adequado tratamento das vítimas na esfera civil.

Diante desse cenário, é importante que a população adote hábitos para prevenir os crimes virtuais, tais como as medidas de segurança para prevenção de crimes em meio físico que vemos propagadas. Governo, empresas e sociedade precisam se adequar a essa nova realidade.

[1] Brasileiros resgatados em Mianmar chegam em Guarulhos – Sociedade – CartaCapital

Leonardo de Carvalho

Doutor em Planejamento Urbano pelo IPPUR/UFRJ e Pesquisador Sênior do FBSP.

fontesegura.forumseguranca.org.br/ | EDIÇÃO N.270

Clique na IMAGEM e acesse a Coluna Fonte Segura/PÁGINA DE POLÍCIA, espaço destinado para publicações de artigos dos articulistas do Fonte Segura/Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

 

  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  • Beta
Funcionalidade Beta
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  • Beta
Funcionalidade Beta
* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
MÚLTIPLAS VOZES Há 16 horas

FAMÍLIA E PRISÃO: presença inconteste e repercussões invisibilizadas

O conceito da prisionização secundária envolve os impactos da prisão sofridos pelas famílias, que sofrem repercussões ligadas às rotinas das unidades prisionais e ao campo jurídico-penal. Há também desdobramentos econômicos decorrentes do endividamento, consequências no mundo do trabalho e em aspectos das relações sociofamiliares. por Maria Palma Wolff

MÚLTIPLAS VOZES Há 16 horas

A infraestrutura invisível da vigilância no Brasil (Parte 3): monitoramento político, dissenso e os riscos democráticos da vigilância integrada.

Infraestruturas de vigilância construídas sob governos democráticos podem permanecer disponíveis para usos autoritários futuros. por Rodrigo Firmino, André Pecini e Thallita Lima

ATLAS DA VIOLÊNCIA Há 16 horas

DADOS DO ATLAS DA VIOLÊNCIA DE 2026 EVIDENCIAM AS DINÂMICAS DA VIOLÊNCIA CONTRA AS MULHERES NO BRASIL

São destaques da publicação os altos índices de letalidade de mulheres negras, a persistência da residência como principal lócus da violência, assim como os índices de reincidência e os tipos de violência que mais afetam as mulheres em cada ciclo da vida. Por Beatriz Schroeder e Deise Nunes

MÚLTIPLAS VOZES Há 17 horas

PRESENÇA QUE PROTEGE E APROXIMA: O Impacto da Base Fluvial Arpão na Cidadania e Segurança das Comunidades do Solimões.

Desde sua implementação, as ações articuladas na Base Arpão I resultaram na apreensão de toneladas de entorpecentes, como cocaína e maconha do tipo skunk, além de armas, munições e combustíveis ilegais, gerando um prejuízo financeiro direto ao crime organizado estimado em mais de R$ 100 milhões. por Aldo Ramos da Silva Jr. e César Maurício de Abreu Mello

MÚLTIPLAS VOZES Há 17 horas

Da Cooperação Policial ao Unilateralismo Coercitivo: As Implicações da Designação do PCC e do CV como Organizações Terroristas Estrangeiras pelos EUA

Longe de constituir uma política criminal eficiente, a medida delineia-se como um instrumento de coerção geopolítica, capaz de desestabilizar as relações diplomáticas e institucionais entre as duas maiores democracias do continente. por Roberto Uchôa

FONTE SEGURA
FONTE SEGURA
Espaço dos articulistas do FONTE SEGURA/Fórum Brasileiro de Segurança Pública, dedicado a análises baseadas em dados e transparência para qualificar o debate sobre segurança pública. O projeto conecta fatos e estruturas, promove cooperação federativa e alcança leitores em diversos países.
Ver notícias
Salvador, BA
25°
Parcialmente nublado
Mín. 24° Máx. 25°
25° Sensação
5.1 km/h Vento
70% Umidade
0% (0mm) Chance chuva
05h52 Nascer do sol
17h14 Pôr do sol
Quarta
25° 24°
Quinta
26° 24°
Sexta
26° 25°
Sábado
26° 24°
Domingo
26° 24°
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Economia
Dólar
R$ 5,19 -0,02%
Euro
R$ 5,99 -0,06%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 348,001,13 -0,80%
Ibovespa
168,668,72 pts -0.21%
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Enquete
Nenhuma enquete cadastrada
Publicidade
Anúncio