Segunda, 07 de Setembro de 2026
25°C 26°C
Salvador, BA
Publicidade

GEOMETRIAS DE PODER E TERRITORIALIDADES DO NARCOTRÁFICO NA AMAZÔNIA BRASILEIRA

As conexões entre narcotráfico e crimes ambientais fortaleceram a territorialização do crime organizado, expondo populações indígenas, quilombolas, camponesas e ribeirinhas à invasão de seus territórios e à violência. por Aiala Colares Oliveira Couto

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: fontesegura.forumseguranca.org.br/EDIÇÃO N.331
17/07/2026 às 14h03
GEOMETRIAS DE PODER E TERRITORIALIDADES DO NARCOTRÁFICO NA AMAZÔNIA BRASILEIRA

Aiala Colares Oliveira Couto

Geógrafo com doutorado em Ciências do Desenvolvimento Socioambiental, professor da UEPA, onde coordena o Núcleo de Estudos Afro-brasileiros, e está vinculado à Associação Brasileira de Pesquisadores Negros. Pesquisador sênior do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

A Amazônia brasileira, historicamente associada à exuberância natural e à diversidade sociocultural, tem se convertido, nas últimas décadas, em palco de complexas dinâmicas criminais que redesenham suas geografias de poder. Para compreender esse fenômeno, faz-se necessário partir do conceito de *escalas geográficas de poder, o qual opera em dois planos fundamentais: a gestão institucional do território, exercida pelo Estado por meio de suas divisões político-administrativas, e as escalas não estatais, forjadas por atores locais, regionais e transnacionais cujas ações produzem territorialidades materializadas em redes ou zonas de controle difuso.

O poder estatal, em sua arquitetura hierárquica, organiza-se desde a escala municipal até a global, valendo-se do monopólio legítimo da força e de instrumentos como políticas públicas, infraestrutura e, crescentemente, ações de militarização e repressão. Contudo, sua eficácia territorial é profundamente desigual, variando conforme a capilaridade de sua presença em cada ponto da região. Em contrapartida, o crime organizado atua em múltiplas escalas de modo articulado e, não raro, híbrido — operando ora na ilegalidade aberta, ora infiltrando-se na economia formal por meio de mecanismos de lavagem de dinheiro.

Na escala local, facções controlam periferias urbanas, impõem taxas de proteção, monopolizam o comércio varejista de entorpecentes e instituem justiças paralelas. Na escala regional, articulam rotas de tráfico, estabelecem alianças intramuros do sistema prisional e cooptam agentes políticos. Na escala nacional, distribuem drogas, armas e munições, branqueiam capitais e conectam grupos de diferentes unidades da federação. Finalmente, na escala global, integram-se a redes transnacionais que abastecem o mercado internacional de drogas, recorrem a paraísos fiscais e exploram crimes cibernéticos.

É nesse cenário que o conceito de geometria do poder, cunhado pela geógrafa Doreen Massey, revela toda sua potência analítica. Massey nos ensina que o espaço é produto social, aberto à política e imbuído de relações de poder que se realizam sempre em relação — entre pessoas, nações, regiões e lugares. Essa perspectiva nos permite enxergar o narcotráfico não como uma força externa que simplesmente ocupa um território dado, mas como um agente ativo na produção e reprodução de espacialidades marcadas por assimetrias, estratégias e disputas permanentes. A geometria do poder do narcotráfico, portanto, refere-se à disposição desigual do poder em diferentes territórios, evidenciando quem controla o quê, onde e com qual intensidade, em um jogo de forças que se estende do beco da periferia à rota internacional de cocaína.

No Brasil, o narcotráfico não se limita a uma rota de trânsito; o país consolidou-se como um importante mercado consumidor, o que impulsionou a reorganização do mercado da droga e a emergência de facções criminosas inspiradas no Comando Vermelho (CV) e no Primeiro Comando da Capital (PCC). Essas organizações, originárias do Sudeste, estenderam suas garras para a Amazônia, atraídas pela porosidade das fronteiras, pela extensa malha hidrográfica e pela fragilidade institucional de muitos municípios.

A realidade amazônica impõe especificidades que transcendem as análises focadas exclusivamente nas facções. Uma delas é a profunda simbiose entre crime comum e crime organizado, que dificulta o discernimento entre um e outro. Essa relação se manifesta de maneira contundente no fenômeno do narcogarimpo, no qual o garimpo ilegal sustenta toda uma rede articulada de ilegalidades que envolve empresários, garimpeiros, donos de currutelas, profissionais do sexo, milícias, agentes estatais e políticos locais. O crime organizado, nesse contexto, acompanhou historicamente a expansão da fronteira econômica na Amazônia, valendo-se de contrabandistas de madeira, grileiros, assaltantes de bancos, ladrões de gado e redes de exploração sexual. Essa sinergia obedece a hierarquias e funciona em redes, tendo o território como dado central para a consolidação das relações de poder, regulação e controle das atividades ilícitas.

As conexões entre narcotráfico e crimes ambientais fortaleceram a territorialização do crime organizado, expondo populações indígenas, quilombolas, camponesas e ribeirinhas à invasão de seus territórios e à violência. A expansão da miliciarização e da pistolagem no campo, somada à presença de facções em municípios de até 50 mil habitantes, com infraestrutura precária, reduzido efetivo policial e vastas extensões de terra em disputa, cria um cenário no qual um grupo de 15 homens armados é capaz de controlar rotas, comercializar terras e impor sua lei.

A história recente das facções na Amazônia é marcada por movimentos de criação, aliança e ruptura. Em 2007, surgiu a Família do Norte (FDN), no Amazonas, que se tornou a terceira maior facção do Brasil, controlando o escoamento da cocaína colombiana e peruana pela rota do Rio Solimões. O rompimento do pacto entre PCC e CV, em 2016, e a subsequente ruptura entre CV e FDN, em 2018, desencadearam uma guerra que se espalhou pelas periferias de Manaus e pelo interior do estado, praticamente extinguindo a FDN e abrindo espaço para novos grupos, como “Os Crias” (hoje extintos) e o próprio PCC, que ampliou seu controle sobre novas rotas. No Pará, a facção Comando Classe A (CCA), braço político do PCC, surgiu no sistema prisional de Altamira em 2018, após uma guerra com o CV que resultou em 54 mortes.

Trabalhos de campo em Roraima revelam a presença marcante de pichações do CV e do PCC em placas de sinalização e muros, funcionando como marcadores territoriais e símbolos de disputa. A sobreposição de inscrições evidencia um antagonismo permanente e a atualização simbólica da presença faccional. Nas vias fluviais, a bacia amazônica, com seus 25 mil km de rios navegáveis, constitui um sistema transfronteiriço estratégico que conecta o Brasil à Bolívia, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela, sendo intensamente explorado pelas redes criminosas para o tráfico de drogas e outros ilícitos.

Figura 1 – Pichação do PCC em placa de sinalização em Alto Alegre (RR)

 

Fonte: Acervo Instituto Mãe Crioula

O relatório Cartografias da Violência na Amazônia (2025) indica que o CV está mais interiorizado, atuando sozinho em 122 municípios amazônicos, com forte presença no Pará e no Mato Grosso. O PCC, por sua vez, é hegemônico em 30 municípios, com destaque para Rondônia e Roraima. Outros grupos, como o Bonde dos 40 (Maranhão), os Piratas dos Solimões (Amazonas) e o Primeiro Comando Panda (Rondônia), ocupam nichos específicos, enquanto facções como o Bonde dos 13 (Acre) e a Família Terror do Amapá perderam influência para o CV e o PCC, sendo absorvidas ou dividindo espaços com estes. Essa dinâmica revela um processo constante de alianças, fusões e incorporações, no qual as facções locais e regionais, em um primeiro momento, se aliam às do Sudeste e, posteriormente, são absorvidas por elas.

Em suma, a geometria do poder do narcotráfico na Amazônia é um campo de forças em permanente reconfiguração, onde o Estado, as facções, os ilegalismos tradicionais e as populações locais se entrelaçam em relações assimétricas e violentas. Compreender essa complexidade exige ir além das abordagens reducionistas que veem o crime como mera externalidade, reconhecendo-o como parte integrante dos processos de produção do espaço amazônico. A segurança pública, nesse cenário, não pode prescindir de políticas que integrem desenvolvimento social, governança territorial, proteção ambiental e enfrentamento qualificado ao crime organizado, sob pena de vermos a Amazônia se tornar não apenas um corredor do narcotráfico, mas um território cada vez mais refém de suas geometrias de poder.

Referências

COUTO, Aiala Colares Oliveira. Fronteiras e estrutura espacial do narcotráfico na Amazônia. Boletim Gaúcho de Geografia, Porto Alegre, v. 47, n. 1, p. 365-388, 2020.

COUTO, Aiala Colares Oliveira. Geografia das redes do narcotráfico na Amazônia. Revista GeoAmazônia, Belém, v. 11, n. 22 p. 46-67, 2023.

COUTO, Aiala Colares Oliveira. Geopolítica do narcotráfico na Amazônia. Curitiba: Appris, 2024.

FBSP. Cartografias da violência na Amazônia. São Paulo: Fórum Brasileiro de Segurança Pública: Instituto Mãe Crioula, 2025.

MASSEY, Doreen. Geometries of power and the concept of space. In: ALLEN, John; MASSEY, Doreen; PRYKE, Michael (ed.). Unsettling the City: movement/settlement. London: Routledge, 1999. p. 55-111.

fontesegura.forumseguranca.org.br/EDIÇÃO N.331

Clique na IMAGEM e acesse a Coluna Fonte Segura/PÁGINA DE POLÍCIA, espaço destinado para publicações de artigos dos articulistas do Fonte Segura/Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

 

(*) Os textos publicados não refletem, necessariamente, a opinião do Fonte Segura e são de responsabilidade de seu autor ou autores.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
Furto de celulares Há 1 semana

As dinâmicas de roubo e furto de celulares no Brasil

Os roubos e furtos de celulares assumem contornos distintos no Brasil. Nesse cenário, o avanço de tecnologias de proteção e o combate ao mercado ilegal se tornam fundamentais para prevenir esses crimes e reduzir a insegurança associada ao uso cotidiano dos aparelhos em espaços. por Samira Bueno e Renato Sérgio de Lima

MÚLTIPLAS VOZES Há 1 semana

POLÍCIA PARA QUEM PRECISA DE POLÍCIA: o que os números do Anuário Brasileiro de Segurança Pública (2026) apontam sobre a atividade policial

As transformações na criminalidade indicam que o policiamento tradicional – lastreado na presença ostensiva, armas, operações e viaturas – não é mais suficiente para enfrentar a delinquência em tempos de algoritmos, internet e inteligência artificial. por Alexandre Pereira da Rocha

MÚLTIPLAS VOZES Há 1 semana

DA RUA AO JUIZADO: por que segurança no futebol é política pública (e não só policiamento)

O futebol é um laboratório visível e sensível de escolhas que também estruturam a segurança pública em geral. As escolhas de cada país para a segurança dos eventos desse esporte se apresentam como um reflexo do modelo mais amplo de governança da segurança urbana. por Raquel Sousa

PERÍCIA EM EVIDÊNCIA Há 1 semana

A cabeça de bacalhau da segurança pública que atinge em cheio a perícia oficial

Protocolos policiais, que orientam uma atividade que interfere diretamente na liberdade, na intimidade e na integridade das pessoas, devem estar disponíveis de maneira clara, atualizada e verificável. A transparência só se completa quando a sociedade consegue consultar o documento e cobrar sua aplicação. por Cássio Thyone Almeida de Rosa

SEGURANÇA NO MUNDO Há 1 semana

AS EXTORSÕES EM EL SALVADOR E AS POLÍTICAS DE SEGURANÇA DE BUKELE

Por qual motivo, segundo pesquisas, os salvadorenhos apoiam um governo que restringe seus direitos políticos? A resposta está, de novo, na segurança, a área do desempenho governamental que recebe maior aprovação dos cidadãos. por Ignacio Cano

FONTE SEGURA
FONTE SEGURA
Espaço dos articulistas do FONTE SEGURA/Fórum Brasileiro de Segurança Pública, dedicado a análises baseadas em dados e transparência para qualificar o debate sobre segurança pública. O projeto conecta fatos e estruturas, promove cooperação federativa e alcança leitores em diversos países.
Ver notícias
Salvador, BA
28°
Tempo nublado
Mín. 25° Máx. 26°
31° Sensação
4.19 km/h Vento
75% Umidade
38% (0.36mm) Chance chuva
05h34 Nascer do sol
17h30 Pôr do sol
Terça
26° 25°
Quarta
26° 24°
Quinta
26° 24°
Sexta
26° 24°
Sábado
26° 23°
Publicidade

? LOCALIZAR UNIDADE NA BAHIA

Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Economia
Dólar
R$ 5,13 +0,07%
Euro
R$ 5,96 +0,21%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 430,145,31 -0,79%
Ibovespa
185,147,16 pts -0.02%
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Enquete
Nenhuma enquete cadastrada
Publicidade
Anúncio