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O DINHEIRO DOS TROUXAS

Existe uma discussão no Congresso para impedir o funcionamento das bets. Por que não levar a coisa mais longe, discutindo seriamente a reabertura de cassinos e bingos e talvez até legalizar o jogo do bicho, tirando-o das mãos dos criminosos?  por Guaracy Mingardi

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: fontesegura.forumseguranca.org.br/EDIÇÃO N.331
17/07/2026 às 14h24
O DINHEIRO DOS TROUXAS

Guaracy Mingardi

Doutor em Ciência Política e associado do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Dados de pesquisas feitas nos últimos dias mostraram que houve um aumento exponencial de apostas nas bets durante a Copa do Mundo.  Cerca de um terço dos brasileiros estaria arriscando seu dinheiro nesse tipo de jogo, muitos deles acreditando que isso aumentaria sua renda.

Lamento desiludir esses apostadores, mas casas de apostas, tanto online como físicas, só continuam funcionando porque ganham muito mais dinheiro do que perdem. Pode ser jogo do bicho, cassino, bingo ou, no caso em pauta, as bets. Não é a intenção deste artigo discutir a convicção do apostador, mas a falta de lógica em nossa legislação. Ou pelo menos em sua aplicação.

Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, o jogo foi proibido no Brasil. O governo Dutra fechou os cassinos frequentados por ricos, como o da Urca, e foi atrás dos bicheiros, que arrecadavam muito dinheiro entre os pobres. E essa patrulha continua até hoje, com resultado pífio. Abundam na imprensa notícias sobre cassinos clandestinos fechados e cotidianamente são detidos apontadores do jogo do bicho (não os bicheiros, claro). Outro resultado foi acabar com a diversão das vovós, já que os bingos foram fechados há mais de uma década, depois de um breve período de liberação e expansão acelerada. Naqueles anos foram construídos enormes palácios do jogo, a maioria dos quais acabou se transformando em templos de um ou outro culto.

Já a repressão ao jogo do bicho levou a criminalização cada vez maior de suas organizações. O controle dele, nessas oito décadas de proibição, provocou um aumento exponencial de violência por parte dos bicheiros para controlar territórios. Com os jogos oficiais de números (Mega-Sena e outros) patrocinados pela Caixa Econômica Federal, eles foram perdendo parte de seu público. Alguns podem sonhar com um cavalo e jogar em seu grupo, que vai do número 41 a 44, tanto nas ruas como nas lotéricas. Os mais tradicionalistas continuaram com o jogo do bicho, que consegue fazer em qualquer esquina, já que a repressão nunca funcionou. Na prática só aumentou a corrupção policial. Ou apostar legalmente numa lotérica, com chance de ganhar muito mais.

E aí chegaram as bets. Uma forma mais simples de jogar, que é permitida e não demanda nem sair de casa. E que qualquer um, de qualquer idade, tendo acesso a uma conta bancária e a um celular, pode apostar quanto quiser.

A lógica de nossa situação é complexa. O bicho, da forma como está, praticamente todo comandado por criminosos, dificilmente será liberado tão cedo. A não ser que se consiga tirá-lo das mãos de seus atuais donos. Já os cassinos e bingos continuam impedidos, embora alguns continuem a funcionar de forma clandestina ou disfarçada. E seria exatamente nesses casos que o grande problema, levantado pelos moralistas, poderia ser resolvido. Essas casas de apostas seriam locais com entradas que podem ser controladas. Ou seja, menores de idade poderiam ser barrados na porta. Já as bets estão sempre de portas abertas para todos. Um garoto com o celular do pai pode fazer uma fezinha em cinco minutos, desde que saiba a senha do aparelho e da conta bancária do progenitor. Pessoas altamente endividadas nem precisam sair de casa para atender o vício. Deitadas no sofá conseguem raspar o fundo do tacho de sua conta bancária, sonhando com um dinheiro que nunca verão.

Ou seja, é uma situação pior do que se fossem a um cassino, o que demandaria tempo e algum constrangimento, já que a família e amigos saberiam que ele jogava dinheiro pelo ralo.

Existe um movimento no Congresso Brasileiro para impedir o funcionamento das bets, se vai ou não chegar a um desfecho legal não é possível prever. Porém os legisladores, como sempre, pensam pequeno. Brecar o jogo via celular não é tão fácil. Muitas dessas casas virtuais de apostas nem são legalizadas, e elas vão continuar agindo, tirando dinheiro dos trouxas. É preciso pensar em como impedir esse procedimento, coisa difícil de fazer, tendo em conta as facilidades que o mundo digital oferece.

E por que não levar a coisa mais longe, discutindo seriamente a reabertura dos cassinos e bingos, desde que submetidos a um controle efetivo? E, talvez, procurar maneiras de legalizar o jogo mais popular, o do bicho, tirando-o das mãos de notórios criminosos. Mas isso é utopia, claro. Seria exigir raciocínio e interesse não eleitoreiro de uma grande parte de parlamentares, alguns dos quais não enxergam nada além da eleição de outubro.

fontesegura.forumseguranca.org.br/EDIÇÃO N.331

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