Segunda, 07 de Setembro de 2026
25°C 26°C
Salvador, BA
Publicidade

Quantitativo das mortes em decorrência de intervenção policial em Santa Catarina

A existência de dados fidedignos é essencial para trazer accountability aos órgãos de segurança pública, sobretudo num cenário no qual é feito uso político do aumento das mortes provocadas pela polícia, como se demonstrasse o “sucesso” de políticas de segurança pública.

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: fontesegura.forumseguranca.org.br/ | EDIÇÃO N.270
01/04/2025 às 09h53 Atualizada em 01/04/2025 às 15h24
Quantitativo das mortes em decorrência de intervenção policial em Santa Catarina

A ausência da divulgação de dados na segurança pública já é questão conhecida e discutida de longa data, fruto de omissão deliberada do poder público em reconhecer a importância da transparência e da accountability na discussão sobre a violência no país. Essa falta tem sido suprida por organizações não governamentais, a exemplo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, com os dados gerais do Anuário de Segurança Pública, e do Instituto Sou da Paz, com  “Onde Mora a Impunidade”, que traz a taxa de esclarecimento de homicídios no país.

No âmbito das mortes em decorrência de intervenção policial, o CESeC (Centro de Estudos de Segurança e Cidadania) tem divulgado o relatório Pele como Alvo, trazendo dados sobre o fenômeno, inclusive com o recorte racial para alguns estados brasileiros. Em larga medida, essas informações estão indisponíveis pelo fato de as secretarias de segurança pública não as divulgarem rotineiramente. Também se verifica a ausência desses dados nos portais dos Ministérios Públicos, via de regra.

Mesmo o painel existente no âmbito do CNMP, em razão da falta de registros fidedignos de todas as ocorrências de MDIP nos Estados e também da falta de profundidade dos dados disponíveis, acaba não permitindo o uso que se espera, ou seja, diagnóstico da realidade e planejamento de políticas públicas adequadas de segurança.

Pensando em suprir essa falta, no âmbito do Núcleo de Enfrentamento de Crimes de Racismo e Intolerância (NECRIM) no MPSC, foi divulgado, em 2023, o Relatório sobre MDIP’s[1], abrangendo o período de 2018 a 2022. Posteriormente, no âmbito da 14ª Promotoria de Justiça de Chapecó, com atribuição na tutela difusa da segurança pública, foi divulgado o Anuário de Segurança Pública de Chapecó (2024)[2], com dados atualizados de 2023 sobre a proporção entre a letalidade policial e as mortes violentas intencionais em todo o Estado.

E o que os dados revelam?

 

Do pico de MDIP’s observado em 2018 até o ano de 2022, Santa Catarina vinha conseguindo obter diminuição dos homicídios e crimes violentos em paralelo com a diminuição das mortes em decorrência de intervenção policial.

A reversão brusca no número de MDIP em apenas um ano, anulando os ganhos observados em anos anteriores, revela como esse número pode flutuar em razão da incidência de fatores externos, a exemplo de mudanças de perfis na gestão pública, pois não se observam mudanças nas dinâmicas criminais de 2022 para 2023.

Mesmo com  o grande aumento de 2022 para 2023, em termos de taxa de MDIP por 100 mil habitantes, esta voltou ao patamar dos anos anteriores, com flutuação entre 0,6 a 1,4. Quando se olha para os estados do Brasil, Santa Catarina ainda aparece entre aqueles com menores taxas.

Um dado interessante calculado e divulgado no relatório do NECRIM-MPSC foi a proporção entre as mortes violentas intencionais e as mortes em decorrência de intervenção policial. Tomando-se como base a proporção de 10% como limite superior (acima do qual haveria indicativo de excesso no uso da força letal), dessa proporção se extrai informação relevante a guiar o debate público e também a ação ministerial no controle externo.

Neste ponto, utilizando-se a classificação de regiões IBGE de região imediata e mediata, duas regiões se destacam em Santa Catarina.

A primeira é a de Florianópolis, com especial concentração de MDIP’s na capital. Parece relevante perceber que a capital catarinense possui a mesma conformação geográfica do Rio de Janeiro, com áreas irregularmente ocupadas em morros e encostas, nas quais o estado ainda não exerce plena soberania, e populações vivendo sob o jugo de facções criminosas. Disso resulta o mesmo padrão de atuação das forças de segurança, com alta letalidade policial. Especificamente na cidade de Florianópolis, em 2023, a proporção MDIP/MVI alcançou 40,91%. Para 2024, houve redução para 33,33%. São valores ainda elevados. Há procedimento aberto na promotoria competente para apurar essa alta taxa.

A segunda região com alta proporção encontrada foi a de Itajaí, cidade portuária que se encontra na rota de escoamento de cocaína para fora do país, portanto, com maior presença do crime organizado.

Fazendo-se o recorte racial das MDIP’s em relação à proporção de negros no Estado, os resultados não fogem de outros levantamentos, com desproporção desfavorável à população negra.

Em face a tema politizado, com o uso do aumento das mortes provocadas pela polícia como demonstração de “sucesso” de políticas de segurança pública, a existência de dados fidedignos e com profundidade sobre o tema é essencial para trazer accountability para os órgãos de segurança pública, incluindo-se o Ministério Público, o qual detém a atribuição para o exercício do controle externo da atividade policial. Sem informação de qualidade, palavras e ações tendem a ser meramente simbólicas.

 

REFERÊNCIAS

[1] Disponível em:       [2] Disponível em

Simão Baran Junior - Promotor de Justiça em Santa Catarina; titular da Promotoria Regional de Segurança Pública de Chapecó (14ª PJ). Mestre em Gestão e Políticas Públicas (Segurança Pública) pela EAESP/FGV.

fontesegura.forumseguranca.org.br/ | EDIÇÃO N.270

Clique na IMAGEM e acesse a Coluna Fonte Segura/PÁGINA DE POLÍCIA, espaço destinado para publicações de artigos dos articulistas do Fonte Segura/Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

 

  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  • Beta
Funcionalidade Beta
* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
Furto de celulares Há 1 semana

As dinâmicas de roubo e furto de celulares no Brasil

Os roubos e furtos de celulares assumem contornos distintos no Brasil. Nesse cenário, o avanço de tecnologias de proteção e o combate ao mercado ilegal se tornam fundamentais para prevenir esses crimes e reduzir a insegurança associada ao uso cotidiano dos aparelhos em espaços. por Samira Bueno e Renato Sérgio de Lima

MÚLTIPLAS VOZES Há 1 semana

POLÍCIA PARA QUEM PRECISA DE POLÍCIA: o que os números do Anuário Brasileiro de Segurança Pública (2026) apontam sobre a atividade policial

As transformações na criminalidade indicam que o policiamento tradicional – lastreado na presença ostensiva, armas, operações e viaturas – não é mais suficiente para enfrentar a delinquência em tempos de algoritmos, internet e inteligência artificial. por Alexandre Pereira da Rocha

MÚLTIPLAS VOZES Há 1 semana

DA RUA AO JUIZADO: por que segurança no futebol é política pública (e não só policiamento)

O futebol é um laboratório visível e sensível de escolhas que também estruturam a segurança pública em geral. As escolhas de cada país para a segurança dos eventos desse esporte se apresentam como um reflexo do modelo mais amplo de governança da segurança urbana. por Raquel Sousa

PERÍCIA EM EVIDÊNCIA Há 1 semana

A cabeça de bacalhau da segurança pública que atinge em cheio a perícia oficial

Protocolos policiais, que orientam uma atividade que interfere diretamente na liberdade, na intimidade e na integridade das pessoas, devem estar disponíveis de maneira clara, atualizada e verificável. A transparência só se completa quando a sociedade consegue consultar o documento e cobrar sua aplicação. por Cássio Thyone Almeida de Rosa

SEGURANÇA NO MUNDO Há 1 semana

AS EXTORSÕES EM EL SALVADOR E AS POLÍTICAS DE SEGURANÇA DE BUKELE

Por qual motivo, segundo pesquisas, os salvadorenhos apoiam um governo que restringe seus direitos políticos? A resposta está, de novo, na segurança, a área do desempenho governamental que recebe maior aprovação dos cidadãos. por Ignacio Cano

FONTE SEGURA
FONTE SEGURA
Espaço dos articulistas do FONTE SEGURA/Fórum Brasileiro de Segurança Pública, dedicado a análises baseadas em dados e transparência para qualificar o debate sobre segurança pública. O projeto conecta fatos e estruturas, promove cooperação federativa e alcança leitores em diversos países.
Ver notícias
Salvador, BA
26°
Tempo nublado
Mín. 25° Máx. 26°
27° Sensação
6.14 km/h Vento
73% Umidade
38% (0.36mm) Chance chuva
05h34 Nascer do sol
17h30 Pôr do sol
Terça
26° 25°
Quarta
26° 24°
Quinta
26° 24°
Sexta
26° 24°
Sábado
26° 23°
Publicidade

? LOCALIZAR UNIDADE NA BAHIA

Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Economia
Dólar
R$ 5,13 +0,07%
Euro
R$ 5,96 +0,15%
Peso Argentino
R$ 0,00 -3,12%
Bitcoin
R$ 430,312,22 -0,75%
Ibovespa
185,147,16 pts -0.02%
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Enquete
Nenhuma enquete cadastrada
Publicidade
Anúncio