Terça, 10 de Março de 2026
26°C 27°C
Salvador, BA
Publicidade

Uma nova arquitetura de segurança para as Américas

O recente acordo para implementação de um Plano de Ação Integral para o Combate ao Tráfico de Armas na América Central e República Dominicana pode ser um norte na construção de estratégias de cooperação visando ao enfrentamento do crime organizado.

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: EDIÇÃO N.269 | fontesegura.forumseguranca.org.br/
24/03/2025 às 13h44
Uma nova arquitetura de segurança para as Américas

Em tempos de pouca convergência no cenário internacional, há unanimidade de que chegamos a uma situação-limite de insegurança nas Américas. A violência, impulsionada por organizações criminosas, coloca em xeque o desenvolvimento, a convivência pacífica e até a democracia na região. Dinâmicas delitivas movimentam bilhões de dólares, alimentando verdadeiros conglomerados multinacionais do crime, que diversificam suas atividades ilícitas e estendem sua presença a múltiplos países. Ao promover essa expansão, valem-se de coligações com grupos criminosos locais, maximizam lucros e distribuem riscos, dada a desarticulação das autoridades, limitadas por jurisdições territoriais e mecanismos de colaboração ineficientes. Frente a essa realidade, é fundamental redesenhar instrumentos de cooperação transnacionais.

Nessa linha, o recente acordo para implementar um Plano de Ação Integral para o Combate ao Tráfico de Armas na América Central e República Dominicana, assinado na Organização dos Estados Americanos (OEA), pode ser um norte na construção de estratégias de cooperação entre países vizinhos. Além do combate ao tráfico de armas, o acordo apresenta um modelo para enfrentar outras manifestações do crime organizado. Explorar a ampliação desse sistema pode ser a chave para uma nova arquitetura de segurança para a região.

Um Plano de Ação Integral implica dois movimentos simultâneos e complementares: primeiro, uma reorganização interna nos países para melhorar sua governança na luta contra o crime especializado; segundo, a coordenação entre os países envolvidos com o apoio da comunidade internacional.

A reorganização interna passa por engajar agências governamentais, iniciativa privada e sociedade civil na formulação de Planos Nacionais. Estes estabelecem objetivos alinhados aos da sub-região e criam indicadores para medir sua evolução, além de abrir a oportunidade para incorporar novos atores que tradicionalmente não fazem parte dos esforços de combate ao crime. No caso do tráfico de armas, por exemplo, a participação dos serviços postais tem sido fundamental devido à forma como os criminosos utilizam esse serviço para enviar peças e componentes. Os Planos Nacionais criam também estruturas de governança permanentes que ultrapassam a rotatividade dos governos. Dado o esforço interno de mobilização, almeja-se, ainda, que o combate ao crime organizado seja elevado a prioridade política em cada um dos países.

A coordenação internacional, por sua vez, garante um sistema de colaboração para supervisão e acompanhamento contínuo dos Planos. Organismos internacionais, como a OEA e a ONU, têm desempenhado esse papel de garantidor dos acordos e prestador de assistência técnica aos países. Ademais, são convidados a participar de bancos de desenvolvimento como o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e o Banco de Desenvolvimento das Américas e do Caribe (CAF), além de ONGs especializadas, consolidando apoio financeiro e técnico aos países. Por fim, os Planos de Ação dividem as Américas em sub-regiões de trabalho, o que facilita sua execução e a busca por consensos políticos, valendo-se das semelhanças socioeconômicas e dinâmicas criminais comuns, tornando factível a implementação de objetivos comuns.

Não é mera casualidade que este modelo de cooperação tenha avançado na América Central e no Caribe. A violência e a criminalidade são fatores determinantes para o crescimento do investimento privado, a redução dos fluxos migratórios forçados, a preservação do Estado de Direito e da Democracia. Sobretudo, continua sendo uma questão de vida e morte para milhares de pessoas todos os dias.

Neste cenário, ganha relevância um movimento internacional para priorizar o combate ao crime organizado nas Américas. O Fundo Monetário Internacional lançou em dezembro de 2024 um estudo que relaciona criminalidade, insegurança e baixo crescimento econômico na América Latina, evidenciando como esses fenômenos se retroalimentam. Também em dezembro, o BID inaugurou sua Aliança para Segurança, Justiça e Desenvolvimento – iniciativa que proporcionará recursos para políticas de combate ao crime organizado.

Paralelamente, a 61ª Conferência de Segurança de Munique concluiu que o crime organizado transnacional é uma das maiores ameaças à segurança global e seu combate deve ser uma prioridade para todos os países. Entre as recomendações sobre como avançar nesta tarefa estão o fortalecimento das capacidades estatais na luta contra o crime por meio da construção de resiliências locais e o aumento intensivo da cooperação internacional, incluindo o avanço na construção de quadros legais comuns, operações policiais compartilhadas e troca de informações em tempo real entre países.

Esse consenso emergente entre atores internacionais representa uma janela de oportunidade histórica para a região, que pode se beneficiar do conhecimento técnico acumulado, do investimento financeiro e da capacidade de coordenação que a comunidade internacional pode oferecer.

A ameaça existencial do crime organizado exige uma resposta à altura, inovadora, audaciosa e, acima de tudo, coordenada. O modelo do Plano de Ação Integral consolida um mecanismo de cooperação sub-regional que transcende as limitações da soberania tradicional e abre caminho para uma nova arquitetura de segurança hemisférica. Bem aproveitada, essa macroestrutura têm enorme potencial de catalisar o trabalho realizado pelos países de maneira individual e permitir os avanços necessários para uma América mais segura e próspera.

Ivan C. Marques

Secretário de Segurança Multidimensional da Organização dos Estados Americanos.

EDIÇÃO N.269 | fontesegura.forumseguranca.org.br/

Clique na IMAGEM e acesse a Coluna Fonte Segura/PÁGINA DE POLÍCIA, espaço destinado para publicações de artigos dos articulistas do Fonte Segura/Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  • Beta
Funcionalidade Beta
* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
MÚLTIPLAS VOZES  Há 1 semana

ESPERTEZA E OPORTUNISMO: A hipervisibilidade do Smart Sampa enquanto uma estratégia estética de segurança na cidade de São Paulo

A adoção do Smart Sampa, como de outros aparatos de vigilância massiva, é sustentada por uma retórica punitivista que ganha expressão a partir de 2018 - quando Bolsonaro chega ao poder. Por Alcides Eduardo dos Reis Peron

MÚLTIPLAS VOZES  Há 1 semana

POLICIAMENTO EM METAVERSOS: por que a formação policial precisa mudar agora

Metacrimes exigem policiais capazes de atuar em fenômenos que transcendem as fronteiras entre mundos físico e digital. Por Carla Fernanda da Cruz e Francis Albert Cotta

PERÍCIA EM EVIDÊNCIA Há 1 semana

UMA PERÍCIA PARA CHAMAR DE SUA: O Caso Master e as controvérsias envolvendo a perícia. 

O que se observa é que neste caso a perícia serviu como uma ferramenta sujeita ao interesse dependente de quem atuou como autoridade requisitante. Por Cássio Thyone Almeida de Rosa

A COR DA QUESTÃO Há 1 semana

Togas no país das maravilhas.

Criança não namora, não se casa, não constitui união estável. Meninas não são esposas. Nisso não pode haver dúvida. Não há aqui qualquer sutileza ou entrelinha a ser considerada. Por Juliana Brandão

MÚLTIPLAS VOZES Há 1 semana

Indicador nacional é passo fundamental para o avanço da investigação criminal no Brasil

Em um país que convive há décadas com a dor de famílias sem respostas e com a sensação de que o crime compensa, ter um indicador nacional de elucidação é mais do que uma conquista técnica. Por Carolina Ricardo

FONTE SEGURA
FONTE SEGURA
Espaço dos articulistas do FONTE SEGURA/Fórum Brasileiro de Segurança Pública, dedicado a análises baseadas em dados e transparência para qualificar o debate sobre segurança pública. O projeto conecta fatos e estruturas, promove cooperação federativa e alcança leitores em diversos países.
Ver notícias
Salvador, BA
27°
Tempo limpo
Mín. 26° Máx. 27°
29° Sensação
7.04 km/h Vento
75% Umidade
38% (0.34mm) Chance chuva
05h37 Nascer do sol
17h51 Pôr do sol
Quarta
27° 26°
Quinta
27° 26°
Sexta
28° 25°
Sábado
28° 26°
Domingo
28° 25°
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Economia
Dólar
R$ 5,15 -0,10%
Euro
R$ 5,98 -0,33%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 381,824,10 +1,51%
Ibovespa
183,447,00 pts 1.4%
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Enquete
Nenhuma enquete cadastrada
Publicidade
Anúncio