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A controversa morte de JK: 5 Comissões com 50 Laudos

O governo, por meio da Comissão sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), órgão de Estado que tem apoio técnico-administrativo do Ministério dos Direitos Humanos, decidiu reabrir o caso do acidente que matou o ex-presidente, em 1976.

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: fontesegura.forumseguranca.org.br/EDIÇÃO N.267
01/03/2025 às 22h29 Atualizada em 01/03/2025 às 22h45
A controversa morte de JK: 5 Comissões com 50 Laudos

Alguns casos emblemáticos parecem nunca ter solução. É o que acontece com a morte do ex-presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira, que governou o país entre 1956 e 1961. Meios de comunicação noticiaram no último dia 14 de fevereiro que o governo, por meio da Comissão sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), órgão de Estado que tem apoio técnico-administrativo do Ministério dos Direitos Humanos, decidiu reabrir o caso do acidente que matou o ex-presidente em 1976.

Em 2026, a morte completa exatos 50 anos. Tal número, aliás, faz parte da história do próprio JK, que usou como slogan de campanha “50 anos em 5” em alusão ao progresso prometido em seu governo de cunho desenvolvimentista.

Desde o início, o evento foi considerado um acidente. JK e seu motorista Geraldo Ribeiro morreram no início da noite de 22 de agosto de 1976. Ambos estavam em um Opala que trafegava pela Via Dutra no sentido São Paulo–Rio de Janeiro. Na altura do quilômetro 165, no município de Resende-RJ, o condutor teria perdido o controle do veículo, que atravessou o canteiro central da pista, vindo a se chocar com uma carreta Scania.

Entretanto, por se tratar de uma personalidade influente, as especulações de que a morte de Juscelino poderia ser resultado de um atentado político sempre estiveram presentes nos debates, em especial pelo fato de o ex-presidente ter sido um crítico do regime militar; ele foi investigado pela ditadura a partir de 1964. JK chegou a ser cassado quando cumpria mandato de senador, ainda no ano de 1964, buscando exílio voluntário na Europa e nos Estados Unidos. Retornou ao Brasil em 1967 e articulava sua volta ao cenário político após findado seu período de cassação, de dez anos.

As controvérsias existentes sobre as duas linhas opostas em relação à morte de JK estabeleceram-se e, ao longo dos anos, foram se acumulando, conforme a cronologia apresentada a seguir:

1976 – Laudos de Exame de Local e de Exames Complementares elaborados pelo Instituto de Criminalística Carlos Éboli/RJ: concluíram pelo acidente, identificando posteriormente um ônibus da Viação Cometa como o terceiro veículo envolvido e que teria produzido uma colisão inicial e desgovernado o Opala em que estava JK antes da colisão com a carreta Scania, que vinha em sentido contrário. Laudo produzido pelo Instituto de Criminalística de São Paulo atesta que exames revelaram a presença da tinta do Opala no para-lamas do ônibus.

1977 – Parecer técnico produzido por perito contratado pela empresa Cometa contesta o levantamento e a análise pericial decorrentes dos laudos produzidos pelo Instituto Carlos Éboli, entretanto sem alterar o diagnóstico de acidente.

1996 – Em virtude da exumação realizada em 14 de agosto de 1996, foi realizada perícia na ossada de Geraldo Ribeiro, o motorista de JK, transladada para Belo Horizonte em 1979. Os exames comprovaram tratar-se da ossada de Ribeiro. Um pequeno fragmento metálico encontrado no crânio foi identificado como sendo uma peça do próprio caixão (especulou-se que poderia ser um projétil de arma de fogo). Diversas fraturas cranianas foram atribuídas ao próprio transporte da ossada, já muito fragilizada.

1996 – Perícia de reexame dos Laudos de Local e exame de partes do Opala, na tentativa de encontrar elementos de uma possível sabotagem. O resultado foi que “não houve nenhuma explosão provocada por artefato explosivo no auto de passeio”.

2001 – Comissão externa da Câmara dos Deputados em 2001 concluiu pelo acidente.

2013 – Comissão Municipal da Verdade de São Paulo (MMVSP) concluiu, com base em depoimentos, que a morte foi provocada por conspiração, complô e atentado político.

2014: Comissão Nacional da Verdade (CNV) concluiu que “não restam mais dúvidas de que a morte de Juscelino Kubitschek foi causada por um acidente automobilístico, sem qualquer resquício da consumação de um assassinato encomendado” .

2014: Comissão Estadual da Verdade de São Paulo (CEVSP) concluiu que a morte de Juscelino foi um atentado político. A conclusão alimenta a hipótese de que o Opala não colidiu com um ônibus, e que o carro pode ter sido alvo de sabotagem mecânica ou tiro, e ainda que Ribeiro poderia ter sido envenenado.

2017: Comissão Estadual da Verdade de Minas Gerais (COMEMG) concluiu que “é provável e possível que as mortes tenham ocorrido devido a atentado político”.

2019: Um parecer (chamado erroneamente de laudo) produzido a pedido do Ministério Público Federal (MPF), assinado por um perito engenheiro, trouxe como conclusão: “… o evento, a partir dessa demonstração, fica sem causa definida” e ainda: “segundo a TEORIA GERAL DO ACIDENTE, refutam a hipótese assumida como verídica nos laudos do ICCE que apontam um acidente de trânsito como a causa do evento que resultou na morte do ex-presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira e de seu motorista Geraldo Ribeiro”. Em outras palavras: seria “impossível afirmar ou descartar” uma possibilidade de atentado.

É esse o documento que embasa a decisão da Comissão sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) de reabrir o caso agora, em 2025.

Antes de terminar, relembro uma frase atribuída a JK: “Sei que a paz é mais difícil que a guerra.

Para reflexão: a pergunta que resta é até quando vamos seguir produzindo documentos voltados para discutir teorias da conspiração e analisar as possibilidades de causas diversas para o mesmo fato? Alguém aposta em uma conclusão irrefutável desta vez? Minha recomendação: deixem o ex-presidente descansar em paz!

Cássio Thyone Almeida de Rosa - Membro do Conselho de Administração do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Graduado em Geologia pela UnB, com especialização em Geologia Econômica. Perito Criminal Aposentado (PCDF). Professor da Academia de Polícia Civil do Distrito Federal, da Academia Nacional de Polícia da Polícia Federal e do Centro de Formação de Praças da Polícia Militar do Distrito Federal.

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