Terça, 10 de Março de 2026
26°C 27°C
Salvador, BA
Publicidade

Atualidade que (não) temos no combate ao racismo na segurança pública (parte III):

O combate ao racismo é exclusivo das pessoas negras?

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: fontesegura.forumseguranca.org.br/Edição N.260
26/12/2024 às 13h59
Atualidade que (não) temos no combate ao racismo na segurança pública (parte III):

Caberia somente ao Ministério da Igualdade Racial a formulação de políticas contra o racismo? Por que o Ministério da Fazenda, o da Defesa, o da Educação ou o do Desenvolvimento Agrário não deveriam se engajar também?

Dando continuidade às reflexões iniciadas em nosso texto anterior[1], abordaremos agora mais uma forma de morte indireta da população negra: a necessidade de somente pessoas negras lutarem contra o racismo.

Holmes comenta que, por mais que as pessoas negras façam sua parte na luta contra o racismo, elas não possuem o monopólio dos esforços para que haja mudanças na questão racial. Ele nota que diversos textos e opiniões insistem na narrativa que “se pelo menos as pessoas negras fizessem a parte delas…”, “as pessoas negras deveriam fazer tal coisa….” e afins seriam o suficiente para reduzir a desigualdade racial. Assim, a responsabilidade por cobrar políticas públicas, formular alternativas, pensar em reformas seria somente das pessoas negras. Embora não seja um raciocínio específico para a segurança pública, podemos aproveitá-lo nesse sentido.

O bimestre final de 2024 está sendo farto em imagens sobre abusos, inclusive com resultados letais, contra pessoas negras. Conforme os dados anualmente produzidos a respeito da questão racial e segurança pública no Brasil pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública [2], tais imagens são apenas amostras ínfimas do que os dados demonstram, ano após ano, sobre a vitimização da população negra na segurança pública.

Utilizado o raciocínio do Holmes, falta ação por parte das pessoas negras contra esse quadro? Do lado da sociedade civil organizada, somente em São Paulo, houve a tradicional Marcha da Consciência Negra, sempre no dia 20 de novembro de cada ano, e mais um protesto do movimento negro no dia 4 de dezembro, dada a inundação de imagens a que nos referimos. No Poder Legislativo, sempre temos alguns parlamentares, ligados direta ou indiretamente à questão racial ou à desigualdade social no geral, que fazem moções de repúdio ou formulam propostas que não vingam por falta de aderência da situação ou da presidência da Casa. O Poder Judiciário, recentemente, publicou o resultado de uma pesquisa sobre racismo no sistema de justiça[3], ressaltando não só a sub-representatividade nos quadros de magistrados e servidores como outras formas. É exemplo delas o atendimento pior quando a pessoa atendida é negra. Enquanto isso, o Poder Executivo Federal lançou o “Plano Juventude Negra Viva” em março de 2024, com diversas propostas para reduzir a violência e as vulnerabilidades sociais da população negra.

Se temos tantas iniciativas de pessoas negras, por que ainda assim poderíamos considerar uma morte indireta? Notem que, embora tenhamos honrosas exceções, existe sempre a aparente necessidade de pessoas negras serem ativas para promover essas mudanças. Resgatando-nos de outros temas de políticas públicas, temos instituições e movimentos que não precisam ser compostos por vitimizados para lutar pela causa: os movimentos de alfabetização e melhoria da educação nunca foram formados exclusivamente por pessoas analfabetas ou com baixa escolaridade; as entidades que promovem a preservação do meio ambiente não são compostas apenas por vítimas imediatas de danos ambientais; nas lutas históricas pela implementação do SUS, contra a estigmatização do HIV e pela reforma antimanicomial, diversos atores sociais engrossavam as fileiras, não só pacientes e familiares destes.

Nos exemplos citados dos três Poderes, em regra, houve o protagonismo de pessoas negras. No caso do “Plano Juventude Negra Viva”, por exemplo, a iniciativa é exclusiva do Ministério da Igualdade Racial (MIR).

A sobrecarga que mata indiretamente, aproveitando a reflexão de Holmes, é pensarmos nas ausências envolvendo a vitimização racial, especialmente na segurança pública. No caso do governo federal, somente ao MIR cabe formular as políticas contra o racismo? Por que não o Ministério da Fazenda, Defesa, Educação ou Desenvolvimento Agrário? Não é falta de conexão dos temas das pastas com a questão racial, sendo pacífica a possibilidade de formulação de convênios e termos de cooperação desses e outros ministérios com o MIR, se for o caso.

No âmbito legislativo, temos defendido, ainda precariamente, a obrigatoriedade de avaliação de impacto racial na formulação de políticas: o que a política proposta, ainda em projeto de lei, pode impactar a questão racial, à semelhança dos casos em que são estudados os impactos ambientais, guardadas as devidas proporções? Enquanto não houver redução do racismo, essa avaliação deveria ser obrigatória.

Como nosso tema principal é a segurança pública, cabe questionarmos a ausência do protagonismo dos gestores de segurança pública na luta contra desigualdade racial. Como é uma ausência, temos diversos elementos para serem cobrados: como está a representatividade da população negra nos quadros de servidores operacionais e nos quadros de carreiras de comando? Está proporcional à população do Estado, especialmente nos quadros de comando? Qual a abordagem do tema racial nos cursos de formação e aperfeiçoamento das carreiras? Qual a participação social nas organizações policiais nesse tema: existem canais de escuta, denúncia, ferramentas de transparência, monitoramento e avaliação nas organizações policiais?

Enquanto houver a sobrecarga da luta contra o racismo somente nas costas das pessoas negras, podemos contabilizar isso como uma das causas de mortes indiretas.

[1]Disponível AQUI:

[2]O último relatório está disponível AQUI:

[3]“Características do racismo (re)produzido no sistema de justiça: uma análise das discriminações raciais em tribunais estaduais”. Disponível AQUI:

Lívio José Lima-e-Rocha - Investigador de Polícia e Professor de Gestão Pública na Polícia Civil do Estado de São Paulo. Mestre em Gestão e Políticas Públicas (FGV) e doutorando em Políticas Públicas (UFABC). Pesquisador no Grupo de Estudos de Segurança Pública e Cidadania (Mackenzie). Membro sênior e Conselheiro Fiscal do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

fontesegura.forumseguranca.org.br/Edição N.260

Clique na IMAGEM e acesse a Coluna Fonte Segura/PÁGINA DE POLÍCIA, espaço destinado para publicações de artigos dos articulistas do Fonte Segura/Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

 

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
MÚLTIPLAS VOZES  Há 1 semana

ESPERTEZA E OPORTUNISMO: A hipervisibilidade do Smart Sampa enquanto uma estratégia estética de segurança na cidade de São Paulo

A adoção do Smart Sampa, como de outros aparatos de vigilância massiva, é sustentada por uma retórica punitivista que ganha expressão a partir de 2018 - quando Bolsonaro chega ao poder. Por Alcides Eduardo dos Reis Peron

MÚLTIPLAS VOZES  Há 1 semana

POLICIAMENTO EM METAVERSOS: por que a formação policial precisa mudar agora

Metacrimes exigem policiais capazes de atuar em fenômenos que transcendem as fronteiras entre mundos físico e digital. Por Carla Fernanda da Cruz e Francis Albert Cotta

PERÍCIA EM EVIDÊNCIA Há 1 semana

UMA PERÍCIA PARA CHAMAR DE SUA: O Caso Master e as controvérsias envolvendo a perícia. 

O que se observa é que neste caso a perícia serviu como uma ferramenta sujeita ao interesse dependente de quem atuou como autoridade requisitante. Por Cássio Thyone Almeida de Rosa

A COR DA QUESTÃO Há 1 semana

Togas no país das maravilhas.

Criança não namora, não se casa, não constitui união estável. Meninas não são esposas. Nisso não pode haver dúvida. Não há aqui qualquer sutileza ou entrelinha a ser considerada. Por Juliana Brandão

MÚLTIPLAS VOZES Há 1 semana

Indicador nacional é passo fundamental para o avanço da investigação criminal no Brasil

Em um país que convive há décadas com a dor de famílias sem respostas e com a sensação de que o crime compensa, ter um indicador nacional de elucidação é mais do que uma conquista técnica. Por Carolina Ricardo

FONTE SEGURA
FONTE SEGURA
Espaço dos articulistas do FONTE SEGURA/Fórum Brasileiro de Segurança Pública, dedicado a análises baseadas em dados e transparência para qualificar o debate sobre segurança pública. O projeto conecta fatos e estruturas, promove cooperação federativa e alcança leitores em diversos países.
Ver notícias
Salvador, BA
27°
Tempo limpo
Mín. 26° Máx. 27°
29° Sensação
5.58 km/h Vento
77% Umidade
38% (0.34mm) Chance chuva
05h37 Nascer do sol
17h51 Pôr do sol
Quarta
27° 26°
Quinta
27° 26°
Sexta
28° 25°
Sábado
28° 26°
Domingo
28° 25°
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Economia
Dólar
R$ 5,15 -0,23%
Euro
R$ 5,98 -0,25%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 382,473,48 -0,05%
Ibovespa
183,447,00 pts 1.4%
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Enquete
Nenhuma enquete cadastrada
Publicidade
Anúncio