Sábado, 25 de Abril de 2026
26°C 27°C
Salvador, BA
Publicidade

Mortes violentas intencionais autoprovocadas na Segurança Pública: o que os dados revelam?

Dados publicados recentemente pelo Instituto de Pesquisa, Prevenção e Estudos em Suicídio (IPPES) revelam números preocupantes sobre a saúde mental dos profissionais de segurança pública brasileiros.

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: fontesegura.forumseguranca.org.br/ | EDIÇÃO Nº. 250.
24/11/2024 às 20h44
Mortes violentas intencionais autoprovocadas na Segurança Pública: o que os dados revelam?

Nos últimos seis anos perdemos, ao menos, 1.155 vidas devido ao adoecimento mental dos profissionais de segurança pública: 821 profissionais ativos, 226 inativos e 108 vítimas de homicídios ou feminicídios que precederam o suicídio; esse número supera o efetivo total das polícias civis de quatro estados.

Dados publicados recentemente pelo Instituto de Pesquisa, Prevenção e Estudos em Suicídio (IPPES) revelam números preocupantes sobre a saúde mental dos profissionais de segurança pública brasileiros. A sexta edição do Boletim de Notificação de Mortes Violentas Intencionais Autoprovocadas e Tentativas de Suicídio de Profissionais de Segurança Pública[1] identificou 821 agentes ativos que tiraram a própria vida entre 2018 e 2023. No mesmo período, pelo menos 226 profissionais inativos também faleceram, um número que provavelmente está subestimado, considerando que poucas instituições monitoram e produzem dados sobre seus agentes após a aposentadoria.

Algumas das mortes envolveram ainda a vitimização de outras pessoas, os chamados homicídios ou feminicídios seguidos de suicídio, resultando em 108 vítimas mortas antes do suicídio pelos agentes. Essas vítimas eram majoritariamente mulheres que possuíam vínculo íntimo atual ou anterior com as vítimas dos suicídios.

Ao considerar tanto os suicídios quanto os homicídios ou feminicídios que os precederam, nos últimos seis anos perdemos, ao menos, 1.155 vidas devido ao adoecimento mental dos profissionais de segurança pública: 821 profissionais ativos, 226 inativos e 108 vítimas de homicídios ou feminicídios que precederam o suicídio. Para se ter uma ideia, esse número é superior ao efetivo total das polícias civis de quatro estados brasileiros[2], o que equivale a afirmar que perdemos o efetivo completo de uma força policial para o adoecimento mental dos profissionais.

Analisamos também os aspectos sociodemográficos e profissionais das vítimas, como sexo, idade, situação funcional (ativo/inativo) e tempo de serviço dos profissionais ativos, o instrumento utilizado nas mortes, o local dos fatos e características das vítimas de feminicídios e homicídios que precederam os suicídios. Entre as vítimas ainda em atividade, 86% eram do sexo masculino, 27% tinham entre 30 e 39 anos e 21% possuíam entre 11 e 20 anos de serviço na ocasião da morte. Também nos chamou a atenção a ampla utilização de armas de fogo nesses casos: em 2023, 84% das mortes em que essa informação estava disponível foram cometidas com armas de fogo.

Se os números são chocantes, o problema se agrava ao considerarmos o impacto do suicídio sobre os sobreviventes enlutados, sejam familiares, amigos ou colegas de trabalho. Em média, quando uma pessoa morre por suicídio, entre cinco a dez pessoas são afetadas (SOARES et al, 2007) [3]. Como é retornar ao trabalho após perder um colega para o suicídio? Como lidar com essa perda em um ambiente que não oferece um “espaço seguro” para falar sobre emoções e ressignificar o sentido da vida?

Pensando nesses impactos e na assistência à saúde mental ofertada aos profissionais nas instituições de segurança pública, apresentamos ainda dados sobre a disponibilidade de psiquiatras, psicólogos e assistentes sociais nas instituições. Embora a promoção da saúde mental e da qualidade de vida dos agentes não se restrinja à presença desses profissionais, acreditamos que eles desempenham um papel fundamental nesse processo.

Encontramos grandes disparidades no efetivo desses profissionais a depender da instituição e da unidade federativa. Identificamos ainda o que já vinha sendo apontado em nossas pesquisas anteriores que é a carência de profissionais médicos psiquiatras. Diversas instituições não possuem tal profissional ou possuem poucos profissionais para atender um grande efetivo. A presença de psicólogos e assistentes sociais é mais comum, embora por vezes a quantidade desses profissionais também seja insuficiente para atender toda a demanda necessária.

Dados são essenciais para a formulação de políticas públicas eficazes. Se hoje já temos alguma figura sobre o suicídio policial no Brasil, ela ainda está incompleta. Embora tenhamos notado um aprimoramento nas informações reportadas em comparação com anos anteriores, ainda existem desafios a serem superados para entendermos a extensão das mortes violentas autoprovocadas nas instituições de segurança pública brasileiras. Muitas instituições ainda não coletam ou coletam de forma incompleta dados sobre as mortes de seus agentes, e o desafio é ainda maior no caso de profissionais inativos. É preciso conhecer para prevenir, e no Brasil seguimos caminhando nessa jornada.

[1] INSTITUTO DE PESQUISA, PREVENÇÃO E ESTUDOS EM SUICÍDIO. Boletim IPPES 2024: notificações de mortes violentas intencionais autoprovocadas e tentativas de suicídio entre profissionais de segurança pública no Brasil. Rio de Janeiro, 2024. DOI: 10.6084/m9.figshare.27048499. Disponível em: https://ippesbrasil.com.br/laboratorio-de-estudos/publicacoes/

[2] Acre, Amapá, Alagoas e Roraima de acordo com a pesquisa Raio-x das instituições de segurança pública brasileiras (2024). [3]Soares, Gláucio; Miranda, Dayse; Borges, Doriam (2006) As Vítimas Ocultas da Violência na Cidade do Rio de Janeiro.

FERNANDA NOVAES CRUZ - Socióloga, pesquisadora do Núcleo de Estudos da Violência da USP e do Instituto de Pesquisa Prevenção em Estudos em Suicídio.

DAYSE MIRANDA - Socióloga, doutora em Ciência Política pela USP e presidente do Instituto de Pesquisa Prevenção em Estudos em Suicídio.

fontesegura.forumseguranca.org.br/ | EDIÇÃO Nº. 250.

Clique na IMAGEM e acesse a Coluna Fonte Segura/PÁGINA DE POLÍCIA, espaço destinado para publicações de artigos dos articulistas do Fonte Segura/Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

 

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
Episódio 5 Há 4 dias

CONVERSA DE SEGURANÇA

Podcast Conversa de Segurança – Episódio 5

PERÍCIA EM EVIDÊNCIA Há 4 dias

IA vai substituir o CSI?

A Inteligência Artificial é uma ferramenta que apresenta limitações técnicas. Uma vez que seus sistemas operam com base em probabilidades e padrões estatísticos, pode dar origem a informações incorretas com aparência de verdade.  por  Thyone Almeida de Rosa

PROFISSÃO POLÍCIA Há 4 dias

ENTRE CÂMERAS E PROTOCOLOS: Os limites da política institucional das polícias na era da transparência

Abordagem recente da PM na zona leste da capital paulista, que terminou com a morte de uma mulher, reforça debate sobre as formas de lidar com a exposição proporcionada por câmeras de celulares e redes sociais. por Juliana Lemes da Cruz

Múltiplas Vozes Há 4 dias

Orçamento Público e Militarização da Segurança: Prioridades Estatais e Expansão do Aparato Repressivo nos Estados Brasileiros

As matrizes militarizadas se caracterizam pela centralidade do policiamento ostensivo, pelo fortalecimento institucional das corporações armadas e pela adoção de estratégias repressivas como principal mecanismo de enfrentamento da violência urbana. por Giselle Florentino e Fransérgio Goulart

Múltiplas Vozes Há 2 semanas

O POLICIAL COMO PROFISSIONAL DA COMUNICAÇÃO: Voz e Escuta Ativa no Processo de Gestão de Conflitos

A escuta ativa, qualificada e humanizada, sustenta a leitura da cena de ação, a avaliação dos riscos e a tomada de decisão justa, ética e proporcional, evitando julgamentos baseados em estereótipos sociais, preconceitos e reprodução de estigmas. Por STEPHANIE MAYRA DE MORAES e FRANCIS ALBERT COTTA

FONTE SEGURA
FONTE SEGURA
Espaço dos articulistas do FONTE SEGURA/Fórum Brasileiro de Segurança Pública, dedicado a análises baseadas em dados e transparência para qualificar o debate sobre segurança pública. O projeto conecta fatos e estruturas, promove cooperação federativa e alcança leitores em diversos países.
Ver notícias
Salvador, BA
25°
Tempo nublado
Mín. 26° Máx. 27°
25° Sensação
5.26 km/h Vento
71% Umidade
100% (10.63mm) Chance chuva
05h40 Nascer do sol
17h22 Pôr do sol
Domingo
27° 27°
Segunda
28° 26°
Terça
27° 26°
Quarta
28° 26°
Quinta
27° 26°
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Economia
Dólar
R$ 4,98 +0,00%
Euro
R$ 5,84 +0,00%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 409,821,41 +0,02%
Ibovespa
190,745,02 pts -0.33%
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Enquete
Nenhuma enquete cadastrada
Publicidade
Anúncio