Sábado, 24 de Janeiro de 2026
25°C 27°C
Salvador, BA
Publicidade

Quais os impactos na fronteira norte em caso do aumento da chegada de venezuelanos ao Brasil?

Os serviços públicos oferecidos em Roraima poderão ser mais demandados, o que elevaria o risco de tensões sociais, incluindo a intensificação de práticas xenofóbicas e preconceituosas, que vinham sendo atenuadas com a implementação da Operação Acolhida.

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: fontesegura.forumseguranca.org.br | Edição nº 247
21/09/2024 às 12h06
Quais os impactos na fronteira norte em caso do aumento da chegada de venezuelanos ao Brasil?

Após as eleições e o aumento das tensões entre governo e oposição na Venezuela, marcado pela intensificação da repressão e perseguição aos opositores, surge a possibilidade de essa realidade provocar nova diáspora venezuelana ao exterior, sendo os países da América do Sul os destinos mais frequentes. Isso teria impacto direto na fronteira entre Brasil e Venezuela, especialmente na Operação Acolhida, principal resposta humanitária brasileira nos últimos anos. Em agosto, logo após as eleições, houve aumento superior a 25% no número de entradas em comparação ao mês anterior, com volume de chegadas superior ao restante do ano de 2024. No entanto, ainda é prematuro afirmar se esse fluxo elevado persistirá, configurando nova tendência, já que agosto é tradicionalmente um período de maior migração venezuelana ao Brasil, devido ao término das férias escolares, o que leva parte dos migrantes a realizar a travessia após o fim do período letivo.

Além disso, há declínio visível no número de retornos à Venezuela pela fronteira, o que sugere que os migrantes não veem o retorno como opção viável a curto prazo. Aqueles que já estão estabelecidos no Brasil também parecem não demonstrar intenção de voltar, conforme apontado em pesquisas anteriores do Projeto Moverse, que revelaram que mais de 90% dos entrevistados nos abrigos não desejavam regressar. O cenário atual reforça a falta de esperança na melhoria das condições na Venezuela e até um certo receio em relação ao futuro.

Essa percepção é corroborada por entrevistas recentes de venezuelanos que chegam ao Brasil. Os depoimentos indicam uma repressão estatal intensificada contra os setores opositores e o agravamento das condições sociais, o que pode levar a aumento nas saídas do país. Embora o cenário econômico permaneça consistentemente frágil, ainda é preciso avaliar se a repressão se expandirá, provocando a fuga de muitos em razão do fundado temor de perseguição. Caso isso ocorra, essas pessoas poderiam ser reconhecidas como refugiadas nos termos da Convenção de 1951 e seu Protocolo de 1967, o que exigiria que as autoridades brasileiras adotassem medidas para garantir proteção adequada, especialmente devido ao risco associado à proximidade da fronteira. No caso venezuelano, a repressão aos altos escalões da oposição, como demonstrado pela ida de Edmundo González à Espanha como asilado, é evidente. Contudo, ainda não há informações claras sobre o grau de perseguição direcionada aos setores de menor escalão, como pessoas que participaram de campanhas ou atuaram como fiscais oposicionistas nas eleições. Os relatos indicam um clima de medo, em que temas políticos são evitados, mas ainda não está claro como o governo tratará esses indivíduos envolvidos com a oposição nas eleições.

No Brasil, caso o aumento das chegadas observado no contexto pós-eleitoral se mantenha, haverá pressão crescente sobre as estruturas de gestão da mobilidade, como os sistemas de documentação e, sobretudo, os serviços de abrigamento. A capacidade de resposta do país será testada não apenas pelo fluxo maior de migrantes, mas também pela redução dos números do programa de interiorização, que está enfrentando dificuldades. O principal destino dos interiorizados, a região Sul, foi severamente impactado pelas recentes enchentes no Rio Grande do Sul, que afetaram a cadeia produtiva, o transporte e os investimentos nos setores público e privado.

Em conclusão, o aumento das chegadas de venezuelanos ao Brasil pode intensificar significativamente os desafios na fronteira norte, especialmente em Roraima, onde a Operação Acolhida desempenha um papel crucial no acolhimento humanitário. Se essa tendência se consolidar como um reflexo direto da intensificação da repressão política na Venezuela, o Brasil precisará adaptar suas estratégias para lidar com uma chegada mais numerosa e demandante de proteção. Além das questões imediatas de documentação e abrigamento, as tensões sociais e as limitações do programa de interiorização também devem ser levadas em conta. A sobrecarga dos serviços públicos e o possível aumento de tensões sociais demandarão respostas ágeis e coordenadas, reforçando a importância de uma abordagem integrada que considere tanto a dimensão humanitária quanto os impactos de curto e médio prazo para a região.

Se essa tendência persistir, a permanência de refugiados e migrantes em Roraima seria maior, uma vez que haveria mais chegadas e menores possibilidades de interiorização, o que pressionaria as estruturas da Operação Acolhida. Nesse contexto, poderá ocorrer a adoção de medidas especiais, como observado durante o fechamento das fronteiras, durante a pandemia. Esse cenário de permanência maior demandará mais dos serviços públicos oferecidos em Roraima, elevando o risco de tensões sociais, incluindo a intensificação de práticas xenofóbicas e preconceituosas, que vinham sendo atenuadas com a implementação da Operação Acolhida.

JOÃO CARLOS JAROCHINSKI SILVA - Professor do Curso de Relações Internacionais da Universidade Federal de Roraima. Membro do Programa de Pós-Graduação Sociedade e Fronteiras.

fontesegura.forumseguranca.org.br | Edição nº 247

Clique na imagem e acesse a Coluna Fonte Segura/PÁGINA DE POLÍCIA.

- Espaço destinado para publicações de artigos dos articulistas do Fonte Segura/Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
MÚLTIPLAS VOZES Há 4 semanas

Algoritmos decidem, mas quem se responsabiliza? Os riscos da adoção desregulada de tecnologias digitais na Justiça criminal brasileira

A incorporação de reconhecimento facial, câmeras corporais e inteligência artificial no sistema de Justiça avança mais rápido do que as salvaguardas necessárias para proteger direitos fundamentais. por Pablo Nunes e Thallita Lima

MÚLTIPLAS VOZES Há 4 semanas

Por que a fórmula para superar a violência e a prisão não funciona no Brasil

É necessário ouvir quem vive nas vielas, nos becos e nos morros, quem sofre com a prisão e com a falta do mínimo existencial. por João Marcos Buch

MÚLTIPLAS VOZES Há 4 semanas

A PEC da Segurança Pública e o PL Antifacção: Congresso Nacional ‘batendo cabeça’

O arranjo institucional que está emergindo no Congresso Nacional não viabiliza soluções para o principal desafio do setor, qual seja, a desarticulação e a precária cooperação entre os órgãos e entre os entes federados. por Luis Flavio Sapori e Rafael Alcadipani

PERÍCIA EM EVIDÊNCIA Há 4 semanas

Casos de feminicídio chocam e nos envergonham. Como a Perícia enfrenta esse tema?

Como sociedade, continuamos a demonstrar nosso despreparo para lidar com o ódio que leva à morte milhares de mulheres no Brasil. por Cássio Thyone Almeida de Rosa

MÚLTIPLAS VOZES Há 1 mês

Segurança pública e cibercriminalidade:

uma proposta taxonômica às fraudes digitais. por Lígia Marques Furlanetto, Eduardo Pitrez de Aguiar Corrêa e Daiane Londero

FONTE SEGURA
FONTE SEGURA
Espaço dos articulistas do FONTE SEGURA/Fórum Brasileiro de Segurança Pública, dedicado a análises baseadas em dados e transparência para qualificar o debate sobre segurança pública. O projeto conecta fatos e estruturas, promove cooperação federativa e alcança leitores em diversos países.
Ver notícias
Salvador, BA
29°
Tempo nublado
Mín. 25° Máx. 27°
34° Sensação
2.95 km/h Vento
75% Umidade
100% (0.82mm) Chance chuva
05h23 Nascer do sol
18h07 Pôr do sol
Domingo
27° 25°
Segunda
27° 26°
Terça
27° 25°
Quarta
26° 25°
Quinta
27° 25°
Publicidade
Publicidade


 


 

Publicidade
Economia
Dólar
R$ 5,29 +0,00%
Euro
R$ 6,23 +0,00%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 500,575,80 -0,30%
Ibovespa
178,858,55 pts 1.86%
Publicidade
Publicidade
Enquete
Nenhuma enquete cadastrada
Publicidade
Anúncio