Sábado, 25 de Abril de 2026
26°C 27°C
Salvador, BA
Publicidade

MILITARES E ELEGIBILIDADE EM DEMOCRACIAS

A elegibilidade de militares, sobretudo da ativa, está associada historicamente a regimes autoritários e a violações das liberdades democráticas.

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: fontesegura.forumseguranca.org.br/ | EDIÇÃO N.233
02/08/2024 às 08h39 Atualizada em 02/08/2024 às 09h58
MILITARES E ELEGIBILIDADE EM DEMOCRACIAS

A crise das democracias liberais na última década tem acompanhado um elemento histórico muito presente no desenvolvimento das sociedades modernas: o engajamento de militares na política e sua associação ao autoritarismo.

Tal adesão de profissionais das armas na disputa pela direção de governos, por cadeiras em parlamentos e em torno do conteúdo de políticas públicas é acompanhada de importante preocupação sobre sua compatibilidade com o regime democrático. Afinal, qual seria o limite entre direitos políticos de militares e a democracia?

Visando contribuir com a reflexão pública, inclusive com o debate parlamentar sobre a reforma da legislação pertinente, produzimos um breve estudo de como regimes democráticos, tais como o dos EUA, de nações da Europa e de países do Cone Sul tratam atualmente a possibilidade de militares da ativa se engajarem na atividade partidária e se candidatarem a cargos eletivos, dando ênfase para a trajetória histórica dessa participação nas constituições brasileiras.

O estudo [1] verificou que EUA, França, Alemanha, Bélgica, Espanha, Portugal e Reino Unido contam com a vedação de candidaturas de militares da ativa. A Itália, onde também há vedação, é o único país da Europa pesquisado que admite algumas exceções para militares da ativa se candidatarem. No Cone Sul, Argentina, Uruguai e Chile igualmente proíbem militares da ativa de se candidatarem a cargos eletivos, sem exceções. Em todos esses países, é admitida a candidatura de militares da reserva condicionada a diferentes restrições que visam coibir o uso da profissão para fins eleitorais, assim como preservar a instituição de associações partidárias.

Esse quadro aponta para uma certa aprendizagem institucional em relação ao tema, segundo a experiência histórica desses países. Na Europa, tanto o fascismo quanto o nazismo contaram com lideranças militares que emergiram do processo eleitoral para assumir a direção política do Estado e de governos, culminando na Segunda Guerra Mundial. No Cone Sul, as ditaduras de segurança nacional, já no contexto da Guerra Fria, foram também lideradas por militares que, apesar de terem ascendido por golpes de Estado, foram precedidas por ampla participação de militares da ativa no processo eleitoral. Portanto, observa-se uma experiência histórica desses países que reforça a associação entre participação política de militares e autoritarismo.

No caso brasileiro, o estudo das Constituições revela que a elegibilidade dos militares passou por avanços e recuos que refletiam os efeitos dessa participação no regime político. Enquanto na Constituição imperial era admitida a elegibilidade apenas de oficiais, a passagem para a República deu início a um período de ampliação dessa participação política, o que contribuiu para o fechamento do regime político e o retorno de amplas restrições.

Em seguida, uma abertura política novamente retira restrições, amplia a participação e resulta em novo fechamento do regime que, porém, não promove amplas restrições da participação política de militares na política, produzindo apenas um maior controle da organização militar sobre a elegibilidade de militares da ativa. E, com a Constituição de 1988, foi mantida praticamente a mesma regra constitucional do regime autoritário de 1964.

A partir desse estudo, é possível concluir que, ao longo de quase toda a história brasileira, os militares – às vezes todos, às vezes apenas os dos postos hierárquicos inferiores – tiveram sua capacidade eleitoral restringida. No entanto, após 1964, a elegibilidade de militares da ativa foi estabilizada pelo regime autoritário e mantida pelo atual regime democrático.

Esse quadro, como demonstra o aprendizado institucional dos países da Europas e do Cone Sul, contribui para a desestabilização do regime democrático, pois a elegibilidade de militares, sobretudo da ativa, historicamente está associada a regimes autoritários e a violações das liberdades democráticas. Daí ser pertinente, visando evitar essa tendência, promover reformas normativas que se alinhem ao aprendizado institucional da maioria das democracias pelo mundo.

Referências [1] As fontes utilizadas foram: Pesquisa comparada (Europa) feita pelo Senado francês, Estudo comparado da Red de Seguridad y Defensa de América Latina – RESDAL, Departamento de Defesa do Estados Unidos – US Departament of Defense.

PEDRO KELSON - Mestre em Administração e Gestão Integrada das Organizações pela PUC-SP, sob o tema Democracia e Capital Social. Cofundador do Pacto pela Democracia. Coordenador da agenda de Democracia do Washington Brazil Office. Consultor na Conectas Direitos Humanos e no Instituto Brasil-Israel (IBI).

RODRIGO LENTZ - Doutor em ciência política pela Universidade de Brasília (UnB), mestre em ciência política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e graduação na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos). Foi consultor da Organização das Nações Unidas (PNUD) e coordenador da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça. Atualmente é pesquisador sênior no Instituto Tricontinental, Conselheiro da Comissão de Anistia do Ministério de Direitos Humanos e Cidadania. Membro da executiva da Coalizão Brasil Memória.

fontesegura.forumseguranca.org.br/  | EDIÇÃO N.233

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
Episódio 5 Há 4 dias

CONVERSA DE SEGURANÇA

Podcast Conversa de Segurança – Episódio 5

PERÍCIA EM EVIDÊNCIA Há 4 dias

IA vai substituir o CSI?

A Inteligência Artificial é uma ferramenta que apresenta limitações técnicas. Uma vez que seus sistemas operam com base em probabilidades e padrões estatísticos, pode dar origem a informações incorretas com aparência de verdade.  por  Thyone Almeida de Rosa

PROFISSÃO POLÍCIA Há 4 dias

ENTRE CÂMERAS E PROTOCOLOS: Os limites da política institucional das polícias na era da transparência

Abordagem recente da PM na zona leste da capital paulista, que terminou com a morte de uma mulher, reforça debate sobre as formas de lidar com a exposição proporcionada por câmeras de celulares e redes sociais. por Juliana Lemes da Cruz

Múltiplas Vozes Há 4 dias

Orçamento Público e Militarização da Segurança: Prioridades Estatais e Expansão do Aparato Repressivo nos Estados Brasileiros

As matrizes militarizadas se caracterizam pela centralidade do policiamento ostensivo, pelo fortalecimento institucional das corporações armadas e pela adoção de estratégias repressivas como principal mecanismo de enfrentamento da violência urbana. por Giselle Florentino e Fransérgio Goulart

Múltiplas Vozes Há 2 semanas

O POLICIAL COMO PROFISSIONAL DA COMUNICAÇÃO: Voz e Escuta Ativa no Processo de Gestão de Conflitos

A escuta ativa, qualificada e humanizada, sustenta a leitura da cena de ação, a avaliação dos riscos e a tomada de decisão justa, ética e proporcional, evitando julgamentos baseados em estereótipos sociais, preconceitos e reprodução de estigmas. Por STEPHANIE MAYRA DE MORAES e FRANCIS ALBERT COTTA

FONTE SEGURA
FONTE SEGURA
Espaço dos articulistas do FONTE SEGURA/Fórum Brasileiro de Segurança Pública, dedicado a análises baseadas em dados e transparência para qualificar o debate sobre segurança pública. O projeto conecta fatos e estruturas, promove cooperação federativa e alcança leitores em diversos países.
Ver notícias
Salvador, BA
26°
Tempo nublado
Mín. 26° Máx. 27°
27° Sensação
6.07 km/h Vento
71% Umidade
100% (10.63mm) Chance chuva
05h40 Nascer do sol
17h22 Pôr do sol
Domingo
27° 27°
Segunda
28° 26°
Terça
27° 26°
Quarta
28° 26°
Quinta
27° 26°
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Economia
Dólar
R$ 4,98 +0,00%
Euro
R$ 5,84 +0,00%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 410,005,40 +0,06%
Ibovespa
190,745,02 pts -0.33%
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Enquete
Nenhuma enquete cadastrada
Publicidade
Anúncio