Sábado, 25 de Abril de 2026
26°C 27°C
Salvador, BA
Publicidade

VOTO DE SILÊNCIO: OS NÃO DITOS QUE REFORÇAM A CULTURA DO ESTUPRO E O RACISMO

No último dia 12, a 5ª Turma do STJ, por 3 votos a 2, decidiu pela não configuração do estupro de vulnerável, em caso, do qual resultou gravidez, envolvendo vítima que, à época, era uma menina com 12 anos e o réu, um homem, de 20 anos.

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: fontesegura.forumseguranca.org.br/ | EDIÇÃO N.224
31/03/2024 às 19h48
VOTO DE SILÊNCIO: OS NÃO DITOS QUE REFORÇAM A CULTURA DO ESTUPRO E O RACISMO

O STJ não vê configuração de estupro de vulnerável num caso, do qual resultou gravidez, que envolve vítima que tinha 12 anos à época e o réu, um homem de 20 anos.

Audre Lorde, poeta lésbica negra, convicta do poder da linguagem, nos faz um convite corajoso para que, ao vertermos o silêncio em palavras, gradativamente possamos alcançar a transformação da linguagem em ação. Aqui, para uma reflexão sobre a recente relativização do estupro de vulnerável, na qual o STJ também firma posição a respeito dos temas sobre os quais silencia, no bojo desse convite de Lorde, podemos trabalhar com duas chaves de análise: (i) mesmo dentro do feminismo, as mulheres negras tiveram (e ainda têm) que lutar pelo reconhecimento da sua negritude, como um marcador que aprofunda a sua vulnerabilização e (ii) o Judiciário, enquanto locus de resolução de conflitos, tem papel essencial para interromper o ciclo de violência, principalmente porque as mulheres que conseguem chegar a um processo judicial de estupro estão clamando por serem ouvidas.

Estupro não é deslize, não comporta relativização, não é culpa da vítima, tampouco encontra qualquer tipo de justificativa. É crime, sendo que, em 2022, 56,8% das vítimas de estupro (aí incluso estupro de vulnerável) eram negras. No recorte das vítimas de até 13 anos, 56,2% eram negras (Anuário Brasileiro de Segurança Pública, ano 17, 2023). Precisamos então falar sobre as meninas negras, sobre o quanto são invisibilizadas e, sem grandes formalidades, alijadas de seus direitos.

É importante que não se confunda a observância do princípio da congruência das decisões judiciais com o silenciamento do Judiciário acerca da estrutura que envolve a violência sexual. A congruência assegura contorno ao julgamento, sendo que a decisão correlata precisa, sob pena de nulidade, ficar limitada ao pedido formulado pela parte autora. Entretanto, isso não significa que, ao sentenciar, o julgador está lidando com uma situação em abstrato – longe disso. É justamente no exercício da jurisdição que se aplica o direito no caso concreto.

No último dia 12, a 5ª Turma do STJ, por 3 votos a 2, decidiu pela não configuração do estupro de vulnerável, em caso, do qual resultou gravidez, envolvendo vítima que, à época, era uma menina com 12 anos e o réu, um homem, de 20 anos. O voto do relator, ministro Reynaldo Soares da Fonseca, sublinhou que o bem-estar da criança gerada deveria ser uma prioridade absoluta. Embora condenado em 1ª instância, o réu foi absolvido pelo TJ/MG, com o fundamento técnico do “erro de proibição” – ou seja, o réu desconheceria a ilicitude do fato.

Trata-se de um processo em segredo de justiça. Estamos lidando com os aspectos que estão em domínio público. Chama a atenção que o fio condutor da absolvição do autor, pelo Judiciário, em duas instâncias, sequer tenha considerado como tema central o fato de que, como anteriormente referido, meninas negras no Brasil são as maiores vítimas de estupro. Inclusive, o recorte racial sequer apareceu nessa discussão judicial. Outro ponto que ficou completamente silenciado é a previsão normativa de abortamento legal em caso de estupro, conforme previsão do artigo 128, inciso II do Código Penal.

Quais mensagens o Judiciário passa adiante quando assim decide?

Fica justificado o comportamento do estuprador e se admite que uma menina possa manter um relacionamento afetivo/sexual que não é lido como uma violência. Fica também naturalizada a exploração de crianças e adolescentes.

É com Lélia Gonzalez que aprendemos que o lugar no qual nos situamos determina nossa interpretação sobre as intersecções entre racismo e sexismo. Não parece um mero detalhe que o Tribunal Superior que relativizou, em 2024, o estupro de vulnerável, apresente, numa composição com 33 cadeiras, ocupação de apenas 5 delas por mulheres, sendo nenhuma destas negra.

Nesse caso, admitindo que na sociedade brasileira a socialização tem se forjado no racismo e no sexismo, se naturaliza, como se derivada de uma decorrência incontornável, a violência contra meninas que, inclusive, chancela, com apoio da norma em vigor, a cultura do estupro contra vulneráveis.

E o Judiciário não parece estar disposto a ser parte da solução. Muito pelo contrário. Quando se posiciona, aceitando uma “união estável” formada por uma criança com um adulto, sobrepondo-a à defesa da vulnerabilidade prevista em lei, tem oferecido elementos que só aprofundam o problema.

Em tempo – estão abertas as inscrições para o Selo FBSP 2023-2024, de práticas inovadoras no enfrentamento da violência contra meninas e mulheres. Para essa edição, inclusive, é possível concorrer com iniciativas que trabalhem em eixos específicos – entre outros, a violência contra meninas e mulheres negras. Confira o edital em https://casoteca.forumseguranca.org.br/. Participe!

JULIANA BRANDÃO - Doutora em Direitos Humanos pela USP e pesquisadora sênior do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

fontesegura.forumseguranca.org.br/  | EDIÇÃO N.224

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
Episódio 5 Há 4 dias

CONVERSA DE SEGURANÇA

Podcast Conversa de Segurança – Episódio 5

PERÍCIA EM EVIDÊNCIA Há 4 dias

IA vai substituir o CSI?

A Inteligência Artificial é uma ferramenta que apresenta limitações técnicas. Uma vez que seus sistemas operam com base em probabilidades e padrões estatísticos, pode dar origem a informações incorretas com aparência de verdade.  por  Thyone Almeida de Rosa

PROFISSÃO POLÍCIA Há 4 dias

ENTRE CÂMERAS E PROTOCOLOS: Os limites da política institucional das polícias na era da transparência

Abordagem recente da PM na zona leste da capital paulista, que terminou com a morte de uma mulher, reforça debate sobre as formas de lidar com a exposição proporcionada por câmeras de celulares e redes sociais. por Juliana Lemes da Cruz

Múltiplas Vozes Há 4 dias

Orçamento Público e Militarização da Segurança: Prioridades Estatais e Expansão do Aparato Repressivo nos Estados Brasileiros

As matrizes militarizadas se caracterizam pela centralidade do policiamento ostensivo, pelo fortalecimento institucional das corporações armadas e pela adoção de estratégias repressivas como principal mecanismo de enfrentamento da violência urbana. por Giselle Florentino e Fransérgio Goulart

Múltiplas Vozes Há 2 semanas

O POLICIAL COMO PROFISSIONAL DA COMUNICAÇÃO: Voz e Escuta Ativa no Processo de Gestão de Conflitos

A escuta ativa, qualificada e humanizada, sustenta a leitura da cena de ação, a avaliação dos riscos e a tomada de decisão justa, ética e proporcional, evitando julgamentos baseados em estereótipos sociais, preconceitos e reprodução de estigmas. Por STEPHANIE MAYRA DE MORAES e FRANCIS ALBERT COTTA

FONTE SEGURA
FONTE SEGURA
Espaço dos articulistas do FONTE SEGURA/Fórum Brasileiro de Segurança Pública, dedicado a análises baseadas em dados e transparência para qualificar o debate sobre segurança pública. O projeto conecta fatos e estruturas, promove cooperação federativa e alcança leitores em diversos países.
Ver notícias
Salvador, BA
26°
Tempo nublado
Mín. 26° Máx. 27°
27° Sensação
6.07 km/h Vento
71% Umidade
100% (10.63mm) Chance chuva
05h40 Nascer do sol
17h22 Pôr do sol
Domingo
27° 27°
Segunda
28° 26°
Terça
27° 26°
Quarta
28° 26°
Quinta
27° 26°
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Economia
Dólar
R$ 4,98 +0,00%
Euro
R$ 5,84 +0,00%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 410,005,40 +0,06%
Ibovespa
190,745,02 pts -0.33%
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Enquete
Nenhuma enquete cadastrada
Publicidade
Anúncio