Sexta, 24 de Julho de 2026
23°C 25°C
Salvador, BA
Publicidade

FBSP - Fórum Brasileiro de Segurança Pública: 18 ANOS

A ideia da criação do Fórum Brasileiro de Segurança Pública surgiu há 20 anos, como fruto de uma conversa entre colegas profissionais com ideias semelhantes, e evoluiu até se tornar a voz mais importante do Brasil para a reforma da polícia e da segurança pública.

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: fontesegura.forumseguranca.org.br/ | EDIÇÃO N.224
31/03/2024 às 19h29 Atualizada em 31/03/2024 às 19h33
FBSP - Fórum Brasileiro de Segurança Pública: 18 ANOS

Ao longo destas quase duas décadas, contribuímos para formar a consciência de que a falta de dados confiáveis torna impossível a formulação de políticas de segurança pública que deem resposta aos problemas mais graves da sociedade.

A ideia da criação do Fórum Brasileiro de Segurança Pública surgiu há 20 anos, como fruto de uma conversa entre colegas profissionais com ideias semelhantes, e evoluiu até se tornar a voz mais importante do Brasil para a reforma da polícia e da segurança pública, reconhecido nacional e internacionalmente como fonte confiável para dados e análises qualificadas de políticas de segurança pública. Seu surgimento decorreu do acaso, da existência de redes informais e do compromisso de profissionais com o avanço de agendas frequentemente vistas como subversivas e politicamente perigosas.

Em uma reunião da SUR/Conectas Direitos Humanos em São Paulo, em outubro de 2004, tive uma conversa com José Marcelo Zacchi, que havia trabalhado com Luiz Eduardo Soares na Secretaria Nacional de Segurança Pública (SENASP), no primeiro ano do governo Lula. Lamentamos o abandono do programa de Luiz Eduardo após sua saída do governo e o subsequente sentimento de decepção de muitos profissionais e acadêmicos que haviam participado da formulação do plano. Sentimos que seria apropriado reunir esses atores, bem como outros que haviam dado contribuições positivas para o avanço das políticas de segurança pública nos oito anos anteriores. Não por coincidência, muitas dessas pessoas haviam sido apoiadas pela “Initiative on Institutional Change for Democratic Policing”, do Escritório da Fundação Ford no Brasil. Ana Toni, representante do Escritório no país, estava presente na reunião e concordou em sediar uma reunião de um dia na Fundação Ford, em dezembro de 2004.

A reunião foi convocada como uma “conversa” não estruturada, projetada para avaliar os avanços e retrocessos na segurança pública desde 2000 e para estimar até que ponto o grupo estava interessado em seguir uma agenda coletiva. Desde o início, a ideia era reunir pessoas e entidades que historicamente não se comunicavam ou, o que é pior, desrespeitavam-se publicamente. Os participantes incluíam acadêmicos, atores de organizações não-governamentais e policiais do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Nossas expectativas não eram ambiciosas: estávamos preparados para sugerir a criação de um observatório virtual ou, minimamente, um website de segurança pública. Para nossa grande surpresa, houve quase um consenso de que um projeto comum deveria ser traçado. Uma sugestão de um participante para estabelecer organização semelhante à Police Foundation, de Washington (criada com o apoio da Fundação Ford no início da década de 1970), foi recebida com grande entusiasmo

Nos meses seguintes, realizamos reuniões bimestrais. A cada encontro, foram tomadas decisões-chave para o estabelecimento de um fórum de diálogo em segurança pública e a expansão desse organismo, de modo a incluir mais participantes, cuja seleção seria baseada nos critérios de diversidade regional, amplitude institucional (por exemplo, todas as instituições policiais do Brasil: militares, civis, federais), envolvimento da sociedade civil na segurança pública, diversidade de gênero e, mais importante, compromisso com os ideais de políticas democráticas de segurança pública. Os participantes do fórum agora vinham dos estados do Pará, Pernambuco, Mato Grosso e Ceará, além dos quatro estados originais. Assim, desde o início, nos preocupamos em construir um processo inclusivo e orgânico, com decisões-chave a ser tomadas de forma coletiva. A Fundação Ford apoiou estudos de planejamento e viabilidade e a proposta final para criação de uma organização permanente. Com financiamento inicial das fundações Ford, Tinker e Open Society, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública foi oficialmente estabelecido em março de 2006. É importante ressaltar, naquela fase da criação do FBSP, as contribuições de duas pessoas que nos deixaram: Paulo Sette Câmara, ex-secretário de Segurança Pública do Estado do Pará, e Paulo de Mesquita Neto, especialista e defensor dos direitos humanos, de São Paulo. Suas contribuições deixaram uma marca indelével no DNA da entidade.

O sucesso do Fórum não veio desacompanhado de desafios e conflitos. Lançar luz sobre a verdade sempre será problemático para os tomadores de decisão que desejam preservar seus espaços políticos sem serem desafiados por outros atores. A acusação de que os “especialistas” não entendem o verdadeiro trabalho da polícia é um ataque não tão sutil às atividades do FBSP. A politização da segurança pública significará, frequentemente, que políticas eficazes e respeitosas não ganham votos. Os esforços das polícias que acreditam genuinamente na reforma são limitados pela cultura tradicional e repressiva e, ademais, pelas práticas hierárquicas de suas respectivas instituições. Associados à entidade que são membros de instituições policiais enfrentam barreiras consistentes quando se unem a esforços de mudança de suas instituições. Sua coragem é inspiradora.

A última década viu o estabelecimento de vários programas estaduais e políticas de segurança pública que mostram que, por um lado, é possível mudar os paradigmas tradicionais da segurança pública. Por outro lado, as mudanças que permitem transformações mais profundas e permanentes serão possíveis apenas por meio de alterações estruturais na segurança pública em nível federal. O Fórum tem sido um defensor exemplar de tais mudanças estruturais, ainda não realizadas, e continua a advogar por essa transformação fundamental.

Apesar desses desafios, é importante destacar o que o Fórum, sob a corajosa liderança de Renato Sérgio de Lima e Samira Bueno, e sustentado pelo apoio incansável da equipe, proporcionou ao país. Primeiro, conferiu legitimidade ao campo da segurança pública e policiamento junto à comunidade acadêmica das ciências sociais aplicadas. Em segundo lugar, e não menos importante, promoveu a relevância dos dados, das políticas baseadas em evidências e da qualidade da pesquisa. Uma boa gestão – eficiente, respeitosa e transparente – depende de informações de qualidade e de avaliações baseadas nessas informações. Acredito que demos origem à consciência de que a ausência de dados confiáveis torna impossível a instituição de políticas de segurança pública que respondam aos problemas mais graves da sociedade.

ELIZABETH LEEDS - Presidente de Honra do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

fontesegura.forumseguranca.org.br/  | EDIÇÃO N.224

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
MÚLTIPLAS VOZES Há 7 dias

Em segurança pública, o seguro não morreu de velho – morreu sem ser testado

Transformar a segurança pública brasileira não passa por mais um plano grandioso anunciado com certeza absoluta. Passa por algo mais difícil e mais humilde: aceitar que não sabemos tudo e construir, juntos, as condições para descobrir.  por Marcelo Zago Gomes Ferreira*

MÚLTIPLAS VOZES Há 7 dias

O DINHEIRO DOS TROUXAS

Existe uma discussão no Congresso para impedir o funcionamento das bets. Por que não levar a coisa mais longe, discutindo seriamente a reabertura de cassinos e bingos e talvez até legalizar o jogo do bicho, tirando-o das mãos dos criminosos?  por Guaracy Mingardi

MÚLTIPLAS VOZES Há 7 dias

O OLHAR DOS EDUCADORES SOBRE A PRESENÇA DA POLÍCIA NAS ESCOLAS: TENSÕES E POSSIBILIDADES DA PATRULHA ESCOLAR COMUNITÁRIA NO PARANÁ

Quando há presença da polícia na escola, deve estar fundamentada em princípios ético-políticos, necessitando haver uma formação especializada nas dimensões pedagógico-educacional-comunitárias, garantindo compromisso com os direitos humanos e respeitando-se a autonomia pedagógica. por Eliéser Antonio Durante Filho* e Maria de Fatima Quintal de Freitas*

MÚLTIPLAS VOZES Há 7 dias

O ALGORITMO DO ÓDIO: A COOPTAÇÃO DIGITAL E O EXTREMISMO VIOLENTO NAS ESCOLAS

A circulação de conteúdos violentos e ideologias extremistas na internet representa um grave risco para a segurança dos jovens e para a convivência social. por Zaryff Said de Lima e Cesar Mauricio de Abreu Mello

FRONTEIRAS AMAZÔNICA Há 7 dias

GEOMETRIAS DE PODER E TERRITORIALIDADES DO NARCOTRÁFICO NA AMAZÔNIA BRASILEIRA

As conexões entre narcotráfico e crimes ambientais fortaleceram a territorialização do crime organizado, expondo populações indígenas, quilombolas, camponesas e ribeirinhas à invasão de seus territórios e à violência. por Aiala Colares Oliveira Couto

FONTE SEGURA
FONTE SEGURA
Espaço dos articulistas do FONTE SEGURA/Fórum Brasileiro de Segurança Pública, dedicado a análises baseadas em dados e transparência para qualificar o debate sobre segurança pública. O projeto conecta fatos e estruturas, promove cooperação federativa e alcança leitores em diversos países.
Ver notícias
Salvador, BA
24°
Tempo limpo
Mín. 23° Máx. 25°
24° Sensação
1.9 km/h Vento
71% Umidade
0% (0mm) Chance chuva
05h55 Nascer do sol
17h24 Pôr do sol
Sábado
25° 24°
Domingo
25° 24°
Segunda
25° 24°
Terça
25° 24°
Quarta
25° 24°
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Economia
Dólar
R$ 5,08 -0,05%
Euro
R$ 5,78 -0,02%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 350,083,40 -0,10%
Ibovespa
176,723,63 pts -0.46%
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Enquete
Nenhuma enquete cadastrada
Publicidade
Anúncio