Quarta, 11 de Março de 2026
26°C 27°C
Salvador, BA
Publicidade

CRIMES CONTRA MULHERES EM UMA ÁREA AMAZÔNICA: O CASO DE PORTO VELHO-RO

Os crimes bárbaros contra mulheres são uma forma de os homens demonstrarem a certeza de sua impunidade, apoiados indiretamente por setores da sociedade que estão assustados com as possibilidades de mudança dessa ordem desigual que nos circunscreve

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: fontesegura.forumseguranca.org.br/ | EDIÇÃO N.222
31/03/2024 às 16h36
CRIMES CONTRA MULHERES EM UMA ÁREA AMAZÔNICA: O CASO DE PORTO VELHO-RO

Por Bruno Henrique Lins Andrade* e Maria Ivonete Barbosa Tamboril

Rondônia é um dos estados mais violentos para mulheres e sua capital, Porto Velho, é um dos lugares onde as políticas públicas de enfrentamento à violência contra mulheres estão necessitando de urgente aperfeiçoamento. Com mais de 500 mil habitantes e pouco mais de 100 anos de instalação, o município contabilizou o assassinato de 18 mulheres em 2021.

O que explica essa posição do estado e sua capital nos crimes contra mulheres? É possível indicar certezas e sustentar algumas hipóteses.

Em nossa investigação, que contemplou 46 pesquisas publicadas em dez anos, encontramos diversas dificuldades na rede de atendimento às mulheres em situação de violência em Porto Velho. Esses entraves variam desde a falta de capacitação profissional para recebimento das mulheres nos dispositivos de proteção até a exclusão de determinadas especificidades regionais, como é o caso das mulheres indígenas e rurais, na formulação das políticas públicas.

Os estudos que levantamos e analisamos também demonstram o número elevado de casos de violência doméstica e familiar contra mulheres, em que as tipificações física e psicológica, representadas sobretudo pelos crimes de ameaça e lesão corporal, são mais comuns. Aliás, diante do alto quantitativo, foi necessário que o juizado especializado da capital reorganizasse a judicialização dos casos para poder agilizar o andamento dos processos naquela instância. Desta forma, em 2023 foi inaugurada pelo Tribunal de Justiça de Rondônia a Coordenadoria da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar, buscando articular a rede de enfrentamento e definir estratégias de combate ao assunto em tela.

Não obstante as ações do referido tribunal demonstrarem comprometimento com a causa das mulheres e serem reconhecidas nacionalmente, o índice de violência contra elas continua elevado na região, gerando indagações. Talvez, como foi indicado pela socióloga já falecida Heleieth Saffioti, a movimentação das mulheres em direção à busca pela igualdade de poder entre gêneros esteja mesmo instigando o uso mais impiedoso da violência por parte dos homens, pois a ideologia de gênero que reserva às mulheres o lugar submisso/subalterno não está mais sendo suficiente para perpetuar a dominação-exploração feminina.

Ainda, como bem explica a antropóloga Rita Segato, a modernidade, legitimada como discurso e transposta em práticas violentas nos mais diversos cantos do mundo, tem colaborado para piorar a situação das mulheres nos lugares aos quais foi imposta. Porto Velho, que desde sua origem tem sido palco para grandes projetos de modernização da Amazônia, pode ser considerado um exemplo desta tese. Estas pontuações ajudam a compreender que, para intervir nesse assunto complexo, é necessário não somente buscar as motivações pessoais, mas também analisar o contexto mais amplo em que se desenvolvem.

Das pesquisas que encontramos, boa parte delas busca esse olhar amplificado sobre o tema em questão. Algumas, entretanto, focam em um olhar clínico individualizante, na busca de razões inconscientes para o envolvimento com a violência. Ainda que não sejamos excludentes dessa perspectiva, acreditamos ser imprescindível destacar, dada nossa área de estudos, que os processos subjetivos são construídos em meio e a partir de relações concretas, as quais são sustentadas por um entrelaçamento de diversas teias: econômica, política, social, cultural etc.

Essa trama, como sugerimos acima, é apontada em muitos dos estudos que encontramos em nossa pesquisa. Inclusive, a maior parte deles foi realizada na Universidade Federal de Rondônia (UNIR), a qual se apresentou como um local promissor na busca de respostas que possam melhorar a situação das mulheres na região porto-velhense. Entre iniciação científica, graduação e pós-graduação, essa instituição nos apresentou muitos olhares contributivos para uma leitura mais agregadora de diferentes áreas do conhecimento.

Porém, os estudos que fizeram parte de nossa revisão ainda dialogam pouco entre si, demonstrando uma fragilidade existente na articulação de conhecimentos locais. Além disso, identificamos uma lacuna quanto à perspectiva dos homens que cometem violência contra mulheres. Para combater estes casos, entendemos ser fundamental incluir a concepção deles sobre o assunto, além de implicá-los na mudança, como é feito no Projeto Abraço, realizado no juizado especializado em violência doméstica e familiar contra as mulheres de Porto Velho.

Envolver os homens e analisar seu papel neste contexto é essencial. A partir de nossa pesquisa, e citando Rita Segato outra vez, é possível concluir dizendo: no momento que estamos vivenciando, os crimes bárbaros contra mulheres são uma forma de os homens demonstrarem a certeza de sua impunidade, apoiados indiretamente por setores da sociedade que estão assustados com as possibilidades de mudança dessa ordem desigual que nos circunscreve.

Portanto, ainda há muito a fazer para que as condições de vida das mulheres façam jus às congratulações de 8 de março.

* Artigo completo disponível na Revista Brasileira de Segurança Pública, v. 18, n. 1 (2024)

BRUNO HENRIQUE LINS ANDRADE* - Psicólogo e mestre em Psicologia pela Universidade Federal de Rondônia. Analista educacional atuante na Equipe Multidisciplinar da Gerência de Formação Pedagógica da Secretaria de Estado da Educação de Rondônia.

MARIA IVONETE BARBOSA TAMBORIL - Doutora em Psicologia. Professora titular da Universidade Federal de Rondônia. Membra do Grupo Amazônico de Estudos e Pesquisas em Psicologia e Educação (GAEPPE) onde coordena a linha de pesquisa a “Condição feminina na Amazônia”. Atua na área de políticas públicas com ênfase nos processos educativos e de gênero no contexto amazônico.

fontesegura.forumseguranca.org.br/ | EDIÇÃO N.222

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
MÚLTIPLAS VOZES  Há 1 semana

ESPERTEZA E OPORTUNISMO: A hipervisibilidade do Smart Sampa enquanto uma estratégia estética de segurança na cidade de São Paulo

A adoção do Smart Sampa, como de outros aparatos de vigilância massiva, é sustentada por uma retórica punitivista que ganha expressão a partir de 2018 - quando Bolsonaro chega ao poder. Por Alcides Eduardo dos Reis Peron

MÚLTIPLAS VOZES  Há 1 semana

POLICIAMENTO EM METAVERSOS: por que a formação policial precisa mudar agora

Metacrimes exigem policiais capazes de atuar em fenômenos que transcendem as fronteiras entre mundos físico e digital. Por Carla Fernanda da Cruz e Francis Albert Cotta

PERÍCIA EM EVIDÊNCIA Há 1 semana

UMA PERÍCIA PARA CHAMAR DE SUA: O Caso Master e as controvérsias envolvendo a perícia. 

O que se observa é que neste caso a perícia serviu como uma ferramenta sujeita ao interesse dependente de quem atuou como autoridade requisitante. Por Cássio Thyone Almeida de Rosa

A COR DA QUESTÃO Há 1 semana

Togas no país das maravilhas.

Criança não namora, não se casa, não constitui união estável. Meninas não são esposas. Nisso não pode haver dúvida. Não há aqui qualquer sutileza ou entrelinha a ser considerada. Por Juliana Brandão

MÚLTIPLAS VOZES Há 1 semana

Indicador nacional é passo fundamental para o avanço da investigação criminal no Brasil

Em um país que convive há décadas com a dor de famílias sem respostas e com a sensação de que o crime compensa, ter um indicador nacional de elucidação é mais do que uma conquista técnica. Por Carolina Ricardo

FONTE SEGURA
FONTE SEGURA
Espaço dos articulistas do FONTE SEGURA/Fórum Brasileiro de Segurança Pública, dedicado a análises baseadas em dados e transparência para qualificar o debate sobre segurança pública. O projeto conecta fatos e estruturas, promove cooperação federativa e alcança leitores em diversos países.
Ver notícias
Salvador, BA
26°
Tempo limpo
Mín. 26° Máx. 27°
28° Sensação
3.78 km/h Vento
81% Umidade
98% (2.76mm) Chance chuva
05h37 Nascer do sol
17h51 Pôr do sol
Quinta
27° 26°
Sexta
28° 26°
Sábado
28° 24°
Domingo
28° 24°
Segunda
28° 25°
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Economia
Dólar
R$ 5,15 -0,23%
Euro
R$ 5,98 -0,25%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 380,700,82 -0,51%
Ibovespa
183,447,00 pts 1.4%
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Enquete
Nenhuma enquete cadastrada
Publicidade
Anúncio