Sexta, 23 de Outubro de 2026
25°C 27°C
Salvador, BA
Publicidade

OS MILITARES E A FRAGILIDADE NO CONTROLE SOBRE O MERCADO DE ARMAS

Criminosos realmente se aproveitaram das facilidades no acesso às armas e da fragilidade do Exército para adquirir armas no mercado interno.

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: fontesegura.forumseguranca.org.br/ | EDIÇÃO N.221
30/03/2024 às 21h35 Atualizada em 30/03/2024 às 21h52
OS MILITARES E A FRAGILIDADE NO CONTROLE SOBRE O MERCADO DE ARMAS

A alteração na política de controle de armas de fogo durante o governo Bolsonaro resultou na entrada em circulação de mais de um milhão e meio de armas entre 2019 e 2022. Concomitantemente, não houve investimentos significativos na melhoria dos sistemas de controle e fiscalização do mercado. Enquanto o número de CACs crescia rapidamente, a estrutura do Exército permanecia estagnada e os recursos alocados para esse propósito diminuíam. Essa equação inevitavelmente enfraqueceu o controle sobre o mercado, como evidenciado por dois incidentes recentes.

No primeiro incidente, um incêndio na residência de um coronel reformado do Exército, em Campinas/SP, resultou na evacuação de todos os moradores do prédio devido às explosões ocorridas no local. O coronel possuía um arsenal armazenado em um pequeno quartinho próximo à cozinha. Durante o combate ao incêndio, os bombeiros precisaram usar um escudo balístico da polícia militar para se proteger das munições que detonavam devido ao calor intenso. Informações preliminares sugerem que o incêndio possa ter começado no local onde as armas e munições estavam guardadas.

Apesar da descoberta de mais de cem armas, bem como uma grande quantidade de pólvora, munições e até granadas no local, o Exército alegou que o coronel tinha autorização para possuir apenas oitenta armas de fogo e três mil munições. O problema reside no fato de que, embora os militares sejam responsáveis pelo registro e fiscalização dos locais onde as armas são guardadas, a última visita à residência do coronel ocorreu em 2018, há mais de cinco anos. Este não é um caso isolado. De acordo com dados de um estudo da Globonews, em 2022, apenas 3% dos arsenais foram fiscalizados pelos militares.

Portanto, para determinar se o local era adequado para armazenar uma grande quantidade de armas e munições, se atendia aos requisitos necessários, e até para estabelecer a quantidade real de armas presentes, será necessário aguardar a perícia da Polícia Civil. O Exército não pode oferecer respostas a essas questões, simplesmente porque não cumpriu seu papel de fiscalização. Felizmente, não houve vítimas fatais, embora dezenas de pessoas tenham sido tratadas por intoxicação.

O incêndio por si só já seria um forte indício da fragilidade do Exército em cumprir seu papel de fiscalização dos arsenais dos CACs. No entanto, na segunda-feira, 05 de março, a divulgação de um relatório elaborado pelo Tribunal de Contas da União revelou que o problema relacionado ao controle desse mercado pelos militares era muito maior e mais grave do que se pensava. Segundo dados do relatório, entre 2019 e 2022, o Exército permitiu que milhares de criminosos adquirissem armas de fogo ou renovassem seus registros. Além disso, indivíduos falecidos foram autorizados a adquirir munições.

Dados contidos no relatório demonstram que, durante o período mencionado, o Exército concedeu registro de armas a 5.235 indivíduos que estavam sob processos de execução penal, ou seja, estavam cumprindo penas impostas por processos criminais, o que deveria impedir legalmente a autorização para registro ou renovação de registro de armas de fogo. Além disso, 2.690 pessoas conseguiram registrar ou renovar os registros de suas armas mesmo estando foragidas, com mandados de prisão em aberto. O descontrole na venda de munições seguiu o mesmo padrão, com 16.669 munições vendidas a 94 pessoas que já faleceram.

Os números apresentados revelam que, além dos problemas na fiscalização dos arsenais dos CACs, os militares falharam até mesmo em realizar o básico, que seria evitar que criminosos se registrassem como CACs e obtivessem armas e munições no mercado legal. Apesar da narrativa de que criminosos não adquirem armas legalmente, o relatório do TCU e várias outras investigações policiais apontam exatamente o contrário. Criminosos realmente se aproveitaram das facilidades no acesso às armas e da fragilidade do Exército para adquirir armas no mercado interno, como fuzis, que anteriormente só conseguiam através do tráfico internacional ou desviando de arsenais públicos.

No próprio relatório do TCU, foram apresentadas sugestões para melhorias na fiscalização e controle do mercado de armas de fogo, todas relevantes e que devem ser implantadas, mas a medida mais importante foi tomada pelo governo federal, que é a retirada dos militares desse papel. Com a determinação da transferência dessas atribuições para a Polícia Federal, um processo em andamento com previsão de conclusão para o início de 2025, há expectativas de melhorias tanto na fiscalização quanto no controle do mercado. No entanto, é crucial que o governo invista na melhoria da estrutura e do pessoal dedicado a essa função, caso contrário, corre-se o risco de apenas transferir o problema de um lugar para outro.

ROBERTO UCHÔA - Policial federal e conselheiro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

fontesegura.forumseguranca.org.br/   |  EDIÇÃO N.221

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
MÚLTIPLAS VOZES Há 6 dias

Quem protege também precisa ser cuidado

Pesquisa identifica sinais relevantes de sofrimento psíquico e reforça a necessidade de prevenção e cuidado institucional permanente. por Luana Maria Lima Alves, Silvia dos Santos de Almeida e Alethea Maria Carolina Sales Bernardo

MÚLTIPLAS VOZES Há 6 dias

Menos registros, mais perguntas sobre a violência sexual contra crianças e adolescentes

A queda inédita nos registros de estupro de vulnerável em 2025 suscita a questão: estamos diante de uma redução efetiva da violência ou de uma mudança na capacidade de identificá-la e denunciá-la?. por Luciana Temer*

MÚLTIPLAS VOZES Há 6 dias

Material de abuso sexual infantil: novas dinâmicas da violência no ambiente digital

A violência sexual contra crianças e adolescentes ganha novas dimensões no ambiente digital. Os microdados revelam a predominância de meninas entre as vítimas e a expressiva presença de adolescentes entre os autores. por Cauê Martins*

MÚLTIPLAS VOZES Há 1 semana

Ladrões do Centro paulistano

Pesquisa exploratória sobre determinados crimes no centro da capital paulista identificou alguns padrões de comportamento de ladrões, traficantes e receptadores de bens roubados na área. por Guaracy Minga

Desaparecidas Há 2 semanas

O aumento dos desaparecimentos e a urgência de respostas institucionais mais adequadas

O desaparecimento de pessoas continua sendo fenômeno de difícil compreensão, atravessado por diferentes causas e trajetórias. Enquanto os registros crescem, persistem lacunas na produção de informações, na articulação entre instituições e em uma legislação que ainda não contempla adequadamente essa diversidade. por Deise Nunes*

FONTE SEGURA
FONTE SEGURA
Espaço dos articulistas do FONTE SEGURA/Fórum Brasileiro de Segurança Pública, dedicado a análises baseadas em dados e transparência para qualificar o debate sobre segurança pública. O projeto conecta fatos e estruturas, promove cooperação federativa e alcança leitores em diversos países.
Ver notícias
Salvador, BA
29°
Parcialmente nublado
Mín. 25° Máx. 27°
34° Sensação
22.39 km/h Vento
77% Umidade
100% (2.55mm) Chance chuva
05h04 Nascer do sol
17h32 Pôr do sol
Sábado
27° 24°
Domingo
28° 24°
Segunda
28° 24°
Terça
27° 26°
Quarta
27° 26°
Publicidade

? LOCALIZAR UNIDADE POLICIAL NA BAHIA

Publicidade

? LOCALIZAR UNIDADE POLICIAL EM PERNAMBUCO

Publicidade

? LOCALIZAR UNIDADE POLICIAL EM SERGIPE

```
Economia
Dólar
R$ 5,04 -0,13%
Euro
R$ 5,65 -0,27%
Peso Argentino
R$ 0,00 -3,23%
Bitcoin
R$ 435,316,00 -0,01%
Ibovespa
203,878,94 pts -0.12%
Publicidade
Publicidade
Enquete
Nenhuma enquete cadastrada
Publicidade
Anúncio