Quarta, 11 de Março de 2026
26°C 27°C
Salvador, BA
Publicidade

DIVERSIDADE DE GÊNERO NAS INSTITUIÇÕES POLICIAIS:

UM OLHAR A PARTIR DO RAIO-X DAS FORÇAS DE SEGURANÇA PÚBLICA DO BRASIL

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: fontesegura.forumseguranca.org.br/ | EDIÇÃO N.221
30/03/2024 às 21h05 Atualizada em 30/03/2024 às 21h22
DIVERSIDADE DE GÊNERO NAS INSTITUIÇÕES POLICIAIS:

Lançado em fevereiro de 2024, pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), o Raio-X das forças de segurança pública do Brasil lançou luz sobre a presença feminina nas instituições policiais, tema que tem sido muito discutido ultimamente, principalmente quando processos seletivos de polícias militares são suspensos judicialmente por restringirem a presença de mulheres, como aconteceu recentemente nos concursos das PMs do Distrito Federal, do Amazonas e de Minas Gerais.

MULHERES NAS CARREIRAS MILITARES: Rompimento de barreiras, abertura de caminhos e construção de novas realidades”,

Na edição nº 218 do Fonte Segura, em texto intitulado “Mulheres nas Carreiras Militares: Rompimento de barreiras, abertura de caminhos e construção de novas realidades”, Cristiane Lima destacou as dificuldades que elas continuam enfrentando, apesar do preceito constitucional de igualdade entre homens e mulheres, da decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre o concurso da PM/DF e das 14 Ações Diretas de Inconstitucionalidade ajuizadas pela Procuradoria-Geral da República (PGR), no STF, contra legislações estaduais que estabelecem percentuais para o ingresso de mulheres, por concurso público, nas Polícias Militares e no Corpo de Bombeiros. Os Estados, alvos das ADIs 7479 a 7492 são, respectivamente: Tocantins, Sergipe, Santa Catarina, Roraima, Rio de Janeiro, Piauí, Paraíba, Pará, Mato Grosso, Minas Gerais, Maranhão, Goiás, Ceará e Amazonas.

Um dos pontos trazidos pelo Raio-X e que vai na contramão de medidas de ampliação da diversidade de gênero foi de que a Lei Orgânica das Polícias Militares e dos Corpos de Bombeiros Militares (LOPM), recentemente aprovada pelo Congresso Nacional, teve vetado pelo Presidente da República o artigo que previa a cota mínima de 20% de ingresso para mulheres, veto justificado pela redação do texto da lei que induz a conversão da cota de 20% em limite máximo, e não mínimo, limitando assim a entrada de mulheres na corporação, pois deixava para o legislador de cada ente federado a incumbência e a faculdade de fixar percentual maior. A interpretação ao veto do artigo da LOPM que dispunha sobre as cotas de gênero e a não participação das mulheres nos processos seletivos pelo critério da ampla concorrência foi um ganho em termos da ampliação da diversidade nas polícias e corpo de bombeiros militares.

No Raio-X das forças de segurança pública, a diversidade de gênero é abordada no item 1.6 (Pág. 42), dando continuidade e ampliando a análise que já havia se iniciado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, na publicação de Bueno, Pacheco e Carvalho (2023) intitulada: “Quando o piso vira teto: a fixação de cotas para admissão de mulheres nas Polícias e Corpos de Bombeiros Militares do país”.

A fixação de cotas para mulheres nos concursos realizados por essas corporações e o percentual reduzido de mulheres nos efetivos se deve, segundo Bueno, Pacheco e Carvalho (2023, p. 9), sob a justificativa de que as funções, especialmente de policiais militares, exigem força mais intensa. Tal visão é bastante equivocada e distorcida, dado que “a maior parte das atividades desempenhadas pelos policiais não exige força física. Ao contrário, essas atividades exigem habilidades que são adquiridas a partir de treinamentos específicos, como uso da força letal, entradas em domicílios e investigação criminal”. Concordo com a posição dos autores, de que este temor não se justifica e de que há uma clara preferência masculina na busca por carreiras de cunho militar.

Atualmente, o percentual de mulheres nas instituições militares da segurança pública ainda é muito baixo, sendo este um problema que reflete, em grande medida, a prática do uso do dispositivo de cotas como teto para o ingresso de mulheres nas PM e CBM do Brasil, pois hoje somente 12,8% do efetivo das PM estaduais são compostos por mulheres, percentual que deverá crescer na medida em que as ADIs forem sendo julgadas pelo STF e os processos seletivos passem a ocorrer por ampla concorrência.

A representação feminina nas PMs varia muito nas Unidades da Federação, sendo a seguinte, por ordem decrescente de percentuais (%):

  • Amapá: 27,9;
  • Roraima: 21,2;
  • Rio Grande do Sul: 20,9;
  • Alagoas: 16,7;
  • Bahia: 15,8;
  • Espírito Santo: 15,0;
  • Acre: 14,9; São Paulo: 14,6;
  • Tocantins: 14,6;
  • Paraná: 14,5;
  • Pernambuco: 14,5;
  • Amazonas: 14,0;
  • Distrito Federal: 12,0;
  • Pará: 11,9;
  • Mato Grosso do Sul: 11,9;
  • Sergipe: 11,8; Goiás: 11,7;
  • Rondônia: 11,2;
  • Minas Gerais: 10,8;
  • Santa Catarina: 10,4;
  • Rio de Janeiro: 10,3;
  • Maranhão: 10,1;
  • Piauí: 9,4;
  • Paraíba: 9,2;
  • Mato Grosso: 9,1;
  • Ceará: 6,1; e
  • Rio Grande do Norte: 6,1.

Dos percentuais acima percebe-se que mais da metade, ou seja, 14 Estados mais o Distrito Federal têm percentual menor que a média nacional de 12,8 de representação feminina em suas PMs, sendo que os Estados do Ceará e Rio Grande do Norte possuem o menor percentual, com apenas 6,1% de mulheres em suas instituições. Nos maiores percentuais apenas três Estados passam dos 20%, ou seja, o Rio Grande do Sul, Roraima e Amapá. Houve uma oscilação de mais de 20% da representação de um Estado para outro.

Ao analisarmos a representação feminina das polícias civis, nas quais os processos seletivos se dão por ampla concorrência, estes percentuais, comparativamente com o das PMs, mostram-se ainda mais discrepantes, sendo que a ordem decrescente de percentuais (%) de mulheres nas Polícias Civis, por Unidade da Federação, é:

  • Rio Grande do Sul: 43,1;
  • Amapá: 35,7; 
  • Goiás: 33,8;
  • Amazonas: 32,1;
  • Santa Catarina: 31,6;
  • Acre: 31,2;
  • Mato Grosso: 30,8;
  • Distrito Federal: 29,9;
  • Minas Gerais: 29,6;
  • Espírito Santo: 28,7;
  • Ceará: 28,2;
  • Pernambuco: 28,1;
  • Mato Grosso do Sul: 27,3;
  • Rondônia: 26,7;
  • Pará: 25,5; Paraná: 24,9;
  • Bahia: 24,5;
  • Paraíba: 23,7;
  • Sergipe: 23,5;
  • Tocantins: 23,4;
  • Maranhão: 23,1;
  • Rio de Janeiro: 23,1;
  • Alagoas: 23,0;
  • Roraima: 22,6;
  • Rio Grande do Norte: 21,3,
  • Piauí: 21,2; e
  • São Paulo: 21,1.

Dos percentuais de mulheres nas PCs por Estado, acima descritos, também se percebe uma oscilação em torno de 20% da representação feminina da maior para a menor, porém com percentuais muito distintos para essas duas forças policiais. Outro ponto em comum nas duas instituições policiais é que na PC também 14 Estados estão abaixo dos 27%, que é a média de representação feminina por Estado, nesta instituição. O único Estado onde os percentuais de mulheres tanto na PM quanto na PC são próximos é em Roraima, com 21,2% e 22,6%, respectivamente.

Tomando por base a presença de mulheres nas forças policiais do Rio Grande do Sul, por exemplo, onde há ampla concorrência nos processos seletivos por parte das duas instituições, os dados do Raio-X apontaram que é o Estado brasileiro com mais mulheres na Polícia Civil (43,10%) e o terceiro em presença feminina na Brigada Militar, com 20,90%, ambas com índices superiores à média nacional de 27% nas PCs e de 12,8% nas PMs. Estes números, segundo reportagem da Zero Hora intitulada: “RS é o Estado com mais mulheres na Polícia Civil e terceiro em ocupação feminina na Polícia Militar”, de acordo com a Chefia de Polícia da PC e do Comando da BM estes números resultam de fatores como a abertura das instituições ao trabalho feminino e ao consequente interesse das mulheres em ocupar estes espaços nas funções públicas, destacando, respectivamente, que “a diversidade aumenta o sentido de representatividade da sociedade e que a PC tem ocupação feminina em sete das treze diretorias” e que “as mulheres têm maior poder de empatia e contribuem para trazer uma imagem mais amigável para a Brigada Militar”.

Estas ações nos mostram que houve avanços e que barreiras continuam sendo rompidas, como a suspensão dos concursos das PMs que não respeitam a paridade de gênero, por exemplo, sendo que os dados constantes na publicação do Raio-X das forças de segurança, pelo FBSP, apontam para estes avanços, destacando que muitos desafios ainda deverão ser enfrentados para que haja efetivamente a igualdade de gênero constitucionalmente prevista. 

MARLENE INÊS SPANIOL - Doutora em Ciências Sociais pela PUCRS, Integrante do GPESC e Presidente do Conselho de Administração do FBSP, Professora do PPGSeg-UFRGS e Oficial RR da Brigada Militar/RS.

fontesegura.forumseguranca.org.br/   |  EDIÇÃO N.221

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
MÚLTIPLAS VOZES  Há 1 semana

ESPERTEZA E OPORTUNISMO: A hipervisibilidade do Smart Sampa enquanto uma estratégia estética de segurança na cidade de São Paulo

A adoção do Smart Sampa, como de outros aparatos de vigilância massiva, é sustentada por uma retórica punitivista que ganha expressão a partir de 2018 - quando Bolsonaro chega ao poder. Por Alcides Eduardo dos Reis Peron

MÚLTIPLAS VOZES  Há 1 semana

POLICIAMENTO EM METAVERSOS: por que a formação policial precisa mudar agora

Metacrimes exigem policiais capazes de atuar em fenômenos que transcendem as fronteiras entre mundos físico e digital. Por Carla Fernanda da Cruz e Francis Albert Cotta

PERÍCIA EM EVIDÊNCIA Há 1 semana

UMA PERÍCIA PARA CHAMAR DE SUA: O Caso Master e as controvérsias envolvendo a perícia. 

O que se observa é que neste caso a perícia serviu como uma ferramenta sujeita ao interesse dependente de quem atuou como autoridade requisitante. Por Cássio Thyone Almeida de Rosa

A COR DA QUESTÃO Há 1 semana

Togas no país das maravilhas.

Criança não namora, não se casa, não constitui união estável. Meninas não são esposas. Nisso não pode haver dúvida. Não há aqui qualquer sutileza ou entrelinha a ser considerada. Por Juliana Brandão

MÚLTIPLAS VOZES Há 1 semana

Indicador nacional é passo fundamental para o avanço da investigação criminal no Brasil

Em um país que convive há décadas com a dor de famílias sem respostas e com a sensação de que o crime compensa, ter um indicador nacional de elucidação é mais do que uma conquista técnica. Por Carolina Ricardo

FONTE SEGURA
FONTE SEGURA
Espaço dos articulistas do FONTE SEGURA/Fórum Brasileiro de Segurança Pública, dedicado a análises baseadas em dados e transparência para qualificar o debate sobre segurança pública. O projeto conecta fatos e estruturas, promove cooperação federativa e alcança leitores em diversos países.
Ver notícias
Salvador, BA
26°
Tempo limpo
Mín. 26° Máx. 27°
28° Sensação
3.78 km/h Vento
81% Umidade
98% (2.76mm) Chance chuva
05h37 Nascer do sol
17h51 Pôr do sol
Quinta
27° 26°
Sexta
28° 26°
Sábado
28° 24°
Domingo
28° 24°
Segunda
28° 25°
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Economia
Dólar
R$ 5,15 -0,23%
Euro
R$ 5,98 -0,25%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 380,700,82 -0,51%
Ibovespa
183,447,00 pts 1.4%
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Enquete
Nenhuma enquete cadastrada
Publicidade
Anúncio