Quarta, 11 de Março de 2026
26°C 27°C
Salvador, BA
Publicidade

OPERAÇÃO ESCUDO E A URGÊNCIA DE UMA DOUTRINA ANTIRRACISTA NA SEGURANÇA PÚBLICA

A segurança pública tratada com a seriedade e assumida com a complexidade que lhe é inerente, é um direito fundamental. Uma Secretaria de Estado que chancela uma política que autoriza o uso da força letal na lógica do combate ao inimigo está ativamente atuando para precarizar a condição de vida da população negra.

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: Edição n.217 | fontesegura.forumseguranca.org.br/
11/02/2024 às 12h05
OPERAÇÃO ESCUDO E A URGÊNCIA DE UMA DOUTRINA ANTIRRACISTA NA SEGURANÇA PÚBLICA

A política de segurança pública dos Estados há de ser expressão de uma atuação que observa as diretrizes nacionais da Política Nacional de Segurança Pública e Defesa Social (PNSPDS, instituída pela Lei 13.675/18) que elege, entre outros princípios, a proteção aos direitos humanos e aos direitos fundamentais e a promoção da dignidade da pessoa humana como balizas de atuação do Poder Público. Além disso, tem entre seus objetivos o estímulo às ações de prevenção à violência e à criminalidade, dando prioridade, afora outros grupos vulneráveis, à letalidade da população jovem negra.

Muito se diz que a lei não traz palavras inúteis. Se tomarmos essa máxima como uma advertência, não mais será possível ignorar que o racismo tem tido livre trânsito nas entranhas institucionais, ali se fortalecendo, além de encontrar solo fértil para germinar posturas e comportamentos que em nada se alinham com a projeção de uma sociedade que almeja a igualdade.

Nessa linha, a Operação Escudo – que neste início de 2024 retoma uma ação iniciada em julho de 2023 e já ali foi frontalmente questionada, não só pela sociedade civil, como também por órgãos do sistema de justiça, com denúncias de tortura, mortes e violência decorrentes de atuação policial –, vem se constituindo como exemplo que materializa o racismo institucional no recorte da segurança pública no âmbito do Estado de São Paulo.

Uma Secretaria de Estado que chancela uma política como a Operação Escudo, autorizadora do uso da força letal na lógica do combate ao inimigo, está ativamente atuando para precarizar a condição de vida da população negra. Trata-se aí de racismo institucional, pois pelo desenho organizacional traçado pelo próprio Estado são gerados impactos que atingem negativamente um grupo determinado. Aparentemente neutra, narrada como uma resposta a uma agressão, a Operação Escudo escamoteia que tanto o cidadão alvo da atuação de policiamento ostensivo, quanto o policial que o executa se alternam em um combate fratricida, no qual o direito às vidas negras se esvai.

Entre a nada sutil “fundada suspeita” que pré-seleciona, entre jovens negros, potenciais culpados, e a obediência à ordem hierárquica que, na ponta, será executada pela baixa patente cujo pertencimento racial sabemos qual é, hierarquizam-se, sem pudor, as vidas que justificam proteção e as que podem simplesmente ser descartadas.

Uma engrenagem como essa não opera isoladamente. Reforça esse argumento o fato de que, no PPA 2020-2023 (Lei estadual 17262/20), instrumento de planejamento governamental para um quadriênio, apontando para as mudanças de médio e longo prazo com as quais o governo estadual se compromete a alcançar, não há, entre as suas diretrizes, objetivos ou metas, qualquer menção direcionada expressamente ao enfrentamento do racismo.

Especificamente, quanto à segurança pública, listada entre os nove objetivos estratégicos da Administração Pública Estadual, o comando normativo se resumiu a prever o uso de ferramentas no combate à criminalidade (artigo 4º, inciso III). Em outras palavras, aí se abriga uma visão de segurança pública cujo centro são as atividades repressivas e que, ao silenciar sobre o racismo, deliberadamente decide que a igualdade racial e o combate à discriminação não merecem atenção enquanto política de Estado.

A segurança pública tratada com a seriedade e assumida com a complexidade que lhe é inerente, é um direito fundamental. Desse modo, regula o direito à vida vivida, o cotidiano de ir e vir, o direito a ser quem se é, a fruição de escolher qual caminho seguir, sem que uma bala interrompa essa trajetória. Isso vale para os cidadãos e, do mesmo modo, para os policiais.

A aposta na pura repressão, elegendo-a como central na política, atesta a sua superficialidade e total inadequação. Com informações truncadas e não transparentes, a Operação Escudo contabilizou 28 vítimas na sua edição de 2023 e segue a cada dia de sua existência aumentando o número de mortes a ela relacionada.

Não é novidade que o campo da segurança pública é por vezes tomado por soluções imediatistas que pretendem trazer soluções rápidas e definitivas. A reedição de uma linha de ação pública sabidamente ineficaz e violenta é prova disto. O enfrentamento do racismo como uma ferramenta hábil para uma intervenção efetiva na segurança pública precisa ocupar a agenda. Precisamos de uma inversão de prioridades que permita questionar as mentalidades vigentes.

A própria noção de segurança pública precisa então abarcar a doutrina antirracista como linha orientadora de políticas públicas nessa área. Isso pode gerar efeitos nas condutas dos agentes de segurança pública que são convocados a intervir diante das ocorrências criminais. Pensar esses agentes como focos que se não eliminam, ao menos neutralizam o racismo, pode gerar um ciclo virtuoso junto às demais políticas públicas.

JULIANA BRANDÃO - Doutora em Direitos Humanos pela USP e pesquisadora sênior do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Edição n.217 | fontesegura.forumseguranca.org.br/

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
MÚLTIPLAS VOZES  Há 1 semana

ESPERTEZA E OPORTUNISMO: A hipervisibilidade do Smart Sampa enquanto uma estratégia estética de segurança na cidade de São Paulo

A adoção do Smart Sampa, como de outros aparatos de vigilância massiva, é sustentada por uma retórica punitivista que ganha expressão a partir de 2018 - quando Bolsonaro chega ao poder. Por Alcides Eduardo dos Reis Peron

MÚLTIPLAS VOZES  Há 1 semana

POLICIAMENTO EM METAVERSOS: por que a formação policial precisa mudar agora

Metacrimes exigem policiais capazes de atuar em fenômenos que transcendem as fronteiras entre mundos físico e digital. Por Carla Fernanda da Cruz e Francis Albert Cotta

PERÍCIA EM EVIDÊNCIA Há 1 semana

UMA PERÍCIA PARA CHAMAR DE SUA: O Caso Master e as controvérsias envolvendo a perícia. 

O que se observa é que neste caso a perícia serviu como uma ferramenta sujeita ao interesse dependente de quem atuou como autoridade requisitante. Por Cássio Thyone Almeida de Rosa

A COR DA QUESTÃO Há 1 semana

Togas no país das maravilhas.

Criança não namora, não se casa, não constitui união estável. Meninas não são esposas. Nisso não pode haver dúvida. Não há aqui qualquer sutileza ou entrelinha a ser considerada. Por Juliana Brandão

MÚLTIPLAS VOZES Há 1 semana

Indicador nacional é passo fundamental para o avanço da investigação criminal no Brasil

Em um país que convive há décadas com a dor de famílias sem respostas e com a sensação de que o crime compensa, ter um indicador nacional de elucidação é mais do que uma conquista técnica. Por Carolina Ricardo

FONTE SEGURA
FONTE SEGURA
Espaço dos articulistas do FONTE SEGURA/Fórum Brasileiro de Segurança Pública, dedicado a análises baseadas em dados e transparência para qualificar o debate sobre segurança pública. O projeto conecta fatos e estruturas, promove cooperação federativa e alcança leitores em diversos países.
Ver notícias
Salvador, BA
26°
Tempo limpo
Mín. 26° Máx. 27°
28° Sensação
3.78 km/h Vento
81% Umidade
98% (2.76mm) Chance chuva
05h37 Nascer do sol
17h51 Pôr do sol
Quinta
27° 26°
Sexta
28° 26°
Sábado
28° 24°
Domingo
28° 24°
Segunda
28° 25°
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Economia
Dólar
R$ 5,15 -0,23%
Euro
R$ 5,98 -0,25%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 380,700,82 -0,51%
Ibovespa
183,447,00 pts 1.4%
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Enquete
Nenhuma enquete cadastrada
Publicidade
Anúncio