Sábado, 25 de Abril de 2026
26°C 27°C
Salvador, BA
Publicidade

ACADEMIA E POLÍCIA:

ACADEMIA E POLÍCIA: DESAFIOS E POTENCIALIDADES DESSA INTERLOCUÇÃO.

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: Edição nº 212 | fontesegura.org.br/
26/01/2024 às 18h17 Atualizada em 26/01/2024 às 18h29
ACADEMIA E POLÍCIA:

O incentivo para que os profissionais da segurança pública assumam mais espaço no cenário acadêmico parece fazer sentido. Sem dúvida, constitui uma potencialidade, por ser uma forma de qualificar e valorizar seu trabalho e, também, de levar ao conhecimento público questões complexas e exclusivas do universo da segurança pública;

Nas últimas décadas, acompanhando o cenário nacional quanto ao acesso da população aos cursos de nível superior, as instituições do campo da segurança pública de todo o país têm recebido, a cada ciclo de ingresso, profissionais mais bem qualificados. Em que pese que em alguns estados da federação ainda não haja a obrigatoriedade da comprovação de nível superior pelo/a candidato/a no ato da matrícula dos cursos de formação, acompanhando o conjunto de transformações sociais – o que inclui a busca pela estabilidade do emprego – o perfil desse público tem mudado.

Sob tal dinâmica, um dilema perceptível no corpo das instituições mantém-se pouco problematizado. Trata-se da demanda por interlocução entre o campo da segurança pública – aqui, destacando as polícias –, e o campo acadêmico pela via da exteriorização das experiências que caracterizam a atividade policial pela via, ainda tímida, da produção intelectual dos profissionais a ela associados. O que se consolida em monografias e artigos de opinião e/ou científicos, principalmente.

A mudança no perfil dos policiais produziu significativos desafios. Tomo aqui como ponto de partida o lugar de onde produzo o presente texto – policial militar, negra, atuante no interior de Minas ao mesmo tempo que pesquisadora, em continuado diálogo com a academia e canais fomentadores da produção do conhecimento. Essa é a razão pela qual percebi a necessidade de explanar o quão conflituosa se apresenta a relação entre os policiais e suas respectivas instituições, diante do anseio daqueles pela qualificação para além dos espaços de trabalho.

Assinalo aqui dois desafios impostos às estruturas institucionais. O primeiro diz respeito à resistência das corporações em compreender a potencialidade inerente ao interesse dos seus profissionais pela participação em cursos aparentemente desvinculados da natureza policial. Diante desse cenário, impõe-se ao interessado a habilidade de lidar com a falta de apoio institucional para o desenvolvimento dos seus estudos. Em que pese seja consenso em matéria de gerenciamento que em qualquer empresa – seja ela pública ou privada –, a presença de profissionais qualificados fortalece e legitima tais instituições à medida que a difusão do conhecimento adquirido pelo profissional dos seus quadros ocorre tanto no ambiente laboral interno quanto no externo, durante a prestação de serviços ou entrega de produtos. No caso das polícias, profissionais com múltiplas competências constituem influência direta no melhoramento da relação entre polícia e comunidade.

O segundo refere-se ao conflito de identidade do sujeito simbolicamente demandado – tanto pela academia, quanto pela polícia – a assumir posição unilateral, diante da condição de ocupação concomitante de ambos os espaços. Ora vê-se confrontado pela polícia para que assuma linguagem alinhada à política institucional, mesmo tendo ela a característica transitória, a depender das chefias/comandos. Ora vê-se confrontado pela academia, que evoca a teoria para justificar ruídos decorrentes da própria limitação de compreensão do recorte que se propuseram analisar. Por esse viés, inexistiria a possibilidade de complementaridade, o que demarcaria o princípio da intersetorialidade como recurso à compreensão dos processos e da implementação das políticas públicas.

Nesse contexto, que envolve preconceito bilateral combinado à ausência de diálogo, encontram-se, de um lado, pesquisadores-policiais ocupando espaços nas universidades. De outro, policiais-pesquisadores quebrando paradigmas ao incorporar às relações que envolvem o cotidiano de trabalho a perspectiva teórico-crítica.

Essa dupla condição fluiria bem se não houvesse por parte de ambos os setores – educação e segurança pública –  resistência para acolher sujeitos duplamente experimentados e, portanto, dispostos a atuar – e capazes de fazê-lo – como mediadores ativos no esforço de aproximar mundos que parecem tão distantes na teoria, mas que, na prática, são desafiados, cada vez mais, a admitir sujeitos comuns – policiais/pesquisadores.

Como sabido, a maioria dos estudos destaca o comportamento policial externado ao público por meio dos procedimentos adotados nas intervenções, o que inclui índices de letalidade policial e excessos no uso da força, mas deixa de considerar questões fundamentais por não conseguir ter acesso ao que ocorre intramuros das instituições. Especialmente no que tange às condições de trabalho e à complexidade da natureza das atividades requeridas pelas polícias.

O incentivo para que os profissionais da segurança pública assumam mais espaço, também no cenário acadêmico, parece fazer sentido. Sem dúvidas, constitui uma potencialidade, à medida que é uma forma de qualificar e valorizar seu trabalho e também de levar ao conhecimento público questões complexas e exclusivas do universo da segurança pública, incomparáveis às questões experienciadas em outros setores.

No campo da segurança, a rotina é o incomum e constitui um dos motivos pelos quais os profissionais podem se ver limitados quanto à produção de registros sobre o trabalho. Afinal, a leitura, o estudo e a escrita exigem certo nível de disciplina ou destacada capacidade de aproveitamento dos períodos vagos, além de dedicação e identificação pessoal com a produção do conhecimento. É uma tarefa penosa diante da costumeira exaustão física e mental dos policiais de ponta de linha.

Sem falar que estudar processos resulta em análises que provocam reflexões, questionamentos e críticas, pouco ou nada bem-vindas em ambientes corporativos. O desafio é incentivar a ressignificação do ato de “colocar o dedo na ferida aberta que, por vezes, não cicatriza”, redirecionando o olhar para o caminho que se abre para o fortalecimento das instituições a partir do reconhecimento de que a mudança de posturas e formatos de atuação não significa a descaracterização das corporações ou uma derrota consentida. Pelo contrário, admitir que algo precisa mudar para que os resultados sejam melhores é mais do que ter visão prospectiva do cenário; evidencia a responsabilidade do gestor para com a coisa pública, seus pares, os recursos humanos sob sua autoridade e a população demandante dos serviços os quais estão sob suas competências.

JULIANA LEMES DA CRUZ - Doutora em Política Social - UFF, Cabo na PMMG e Conselheira do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Edição nº 212 | fontesegura.org.br/

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
Episódio 5 Há 4 dias

CONVERSA DE SEGURANÇA

Podcast Conversa de Segurança – Episódio 5

PERÍCIA EM EVIDÊNCIA Há 4 dias

IA vai substituir o CSI?

A Inteligência Artificial é uma ferramenta que apresenta limitações técnicas. Uma vez que seus sistemas operam com base em probabilidades e padrões estatísticos, pode dar origem a informações incorretas com aparência de verdade.  por  Thyone Almeida de Rosa

PROFISSÃO POLÍCIA Há 4 dias

ENTRE CÂMERAS E PROTOCOLOS: Os limites da política institucional das polícias na era da transparência

Abordagem recente da PM na zona leste da capital paulista, que terminou com a morte de uma mulher, reforça debate sobre as formas de lidar com a exposição proporcionada por câmeras de celulares e redes sociais. por Juliana Lemes da Cruz

Múltiplas Vozes Há 4 dias

Orçamento Público e Militarização da Segurança: Prioridades Estatais e Expansão do Aparato Repressivo nos Estados Brasileiros

As matrizes militarizadas se caracterizam pela centralidade do policiamento ostensivo, pelo fortalecimento institucional das corporações armadas e pela adoção de estratégias repressivas como principal mecanismo de enfrentamento da violência urbana. por Giselle Florentino e Fransérgio Goulart

Múltiplas Vozes Há 2 semanas

O POLICIAL COMO PROFISSIONAL DA COMUNICAÇÃO: Voz e Escuta Ativa no Processo de Gestão de Conflitos

A escuta ativa, qualificada e humanizada, sustenta a leitura da cena de ação, a avaliação dos riscos e a tomada de decisão justa, ética e proporcional, evitando julgamentos baseados em estereótipos sociais, preconceitos e reprodução de estigmas. Por STEPHANIE MAYRA DE MORAES e FRANCIS ALBERT COTTA

FONTE SEGURA
FONTE SEGURA
Espaço dos articulistas do FONTE SEGURA/Fórum Brasileiro de Segurança Pública, dedicado a análises baseadas em dados e transparência para qualificar o debate sobre segurança pública. O projeto conecta fatos e estruturas, promove cooperação federativa e alcança leitores em diversos países.
Ver notícias
Salvador, BA
28°
Tempo nublado
Mín. 26° Máx. 27°
31° Sensação
6.03 km/h Vento
69% Umidade
100% (10.63mm) Chance chuva
05h40 Nascer do sol
17h22 Pôr do sol
Domingo
27° 27°
Segunda
28° 26°
Terça
27° 26°
Quarta
28° 26°
Quinta
27° 26°
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Economia
Dólar
R$ 4,98 +0,00%
Euro
R$ 5,84 +0,00%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 409,505,47 -0,06%
Ibovespa
190,745,02 pts -0.33%
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Enquete
Nenhuma enquete cadastrada
Publicidade
Anúncio