Quarta, 11 de Março de 2026
26°C 27°C
Salvador, BA
Publicidade

Desvio de metralhadoras em Barueri é só mais um exemplo do precário controle de arsenais estatais no Brasil.

A eficiência na prevenção e repressão de desvios é fortemente dependente da qualidade do sistema de gestão dos arsenais.

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: fontesegura.org.br/ | Edição nº 207 | fontesegura.forumseguranca.org.br/
05/11/2023 às 16h28
Desvio de metralhadoras em Barueri é só mais um exemplo do precário controle de arsenais estatais no Brasil.

No Brasil, várias polícias não dispõem de sistemas eletrônicos para gerir suas armas e munições

O desvio de 21 metralhadoras .50 e 7.62×51 mm é o mais grave caso deste tipo nas Forças Armadas brasileiras em décadas. Para se ter uma ideia, 2010, que havia sido o ano com mais armas desviadas do Exército, teve 18 armas levadas, somando unidades de todo país. A quantidade não é a única fonte de preocupação, já que as armas levadas são muito potentes, capazes de disparar 600 tiros por minuto, podem atingir alvos com eficiência a dois quilômetros, perfurando com facilidade blindagens e ameaçando aeronaves.

De tão importante, o controle de arsenais é uma área de estudos própria em currículos de forças de segurança. PSSM[1] (sigla em inglês para Physical Security and Stockpile Management, que designa segurança física e controle de arsenais) é crucial porque, quando falha, prejudica a capacidade de um Estado de se defender, mas também gera danos à estabilidade e segurança internas. Essa disciplina trata em primeiro lugar da capacidade de detectar e reagir a uma invasão não autorizada ao estoque. Algo que o Exército, no caso de Barueri, demorou 33 dias apenas para identificar, e mais uma semana para confirmar que se tratava de um desvio; ou seja, o desvio foi identificado 40 dias depois de acontecer. Em segundo lugar, essa área também cuida de evitar incêndios e explosões, já que munições e explosivos usados por Forças Armadas e Forças de segurança são elementos instáveis e de grande risco.

A falha nesse cuidado dos estoques traz graves consequências tanto para os materiais perdidos, como também eleva o risco para a sociedade. Em 1995, uma grande explosão em um paiol de munição da Marinha, na Ilha do Boqueirão, foi sentida em localidades situadas a vários quilômetros do local da explosão, lançando ao mar vários militares e ferindo outros tantos. Em 2023, uma explosão em um paiol da Polícia Civil de Pernambuco (que armazenava armas e munições apreendidas) lançou estilhaços em várias casas vizinhas, gerando dano e pânico na população. A própria Polícia Civil ficará a cargo de investigar se o incêndio foi criminoso (para ocultar desvios).

Um dos primeiros princípios de PSSM é o controle de excedentes. Uma munição deteriorada (por exposição à umidade ou perda de validade) deve ser destruída. Uma arma de recuperação difícil ou que foi substituída por um modelo mais novo também deve ter o mesmo destino. Itens nessa zona cinzenta, que não estão aptos e que não são manuseados com frequência, são alvos preferenciais e fáceis para o desvio. É este precisamente o caso das metralhadoras de Barueri. Se o Exército considerava as armas de difícil recuperação, poderia tê-las destruído com facilidade, já que no mesmo complexo está o depósito de Suprimentos do Exército (22º D-SUP), que em São Paulo responde por todas as destruições de armas, seja as inservíveis da própria Força, seja as apreendidas no crime. Ao não fazer ou retardar a decisão de destruição, a corporação facilitou o desvio ocorrido.

Outro elemento é a segurança física e de infraestruturas. Há boas práticas para construção de armarias e depósitos de munição[2], prevendo poucas e diminutas janelas gradeadas, para reduzir potenciais pontos de desvios de material. Alarmes e câmeras de segurança dentro e no acesso dos locais são imprescindíveis, além de controles digitais de entrada, que permitam o acesso apenas a pessoas autorizadas. Esses dispositivos de segurança eletrônicos, por óbvio, assim como acontece em qualquer agência bancária, não podem depender apenas da energia elétrica da rede; deve haver geradores que possam ser acionados no caso de derrubadas (intencionais ou não) da energia. No Arsenal de Guerra, em Barueri, mecanismos rudimentares e inadequados foram facilmente burlados, com substituição de cadeados e lacres físicos e desligamento da chave de energia, interrompendo a gravação das câmeras.

A eficiência na prevenção e repressão de desvios é também fortemente dependente da qualidade do sistema de gestão dos arsenais. No Brasil, várias polícias não dispõem de sistemas eletrônicos para gerir suas armas e munições. Após a descoberta de que a juíza Patricia Acioli havia sido executada, em 2011, com munições da Polícia Militar do Rio de Janeiro (7º BPM) por policiais militares, foi revelado que o controle de distribuição de munições da unidade era feito com giz  em uma lousa! Isso mesmo, para desviar um punhado de munição bastava apagar com a mão e reescrever um novo número na lousa. Um bom sistema precisa prever controles em tempo real para cada vez que o item se move e troca de mão ou local. Para facilitar esse trabalho, várias agências e polícias vêm usando códigos de barra, ou chips com radiofrequência que agilizam a contagem/inventário e leitura de informações para preenchimento dos sistemas.

Até o momento, quatro metralhadoras .50 ainda estão no crime. Uma única arma dessas na mão de um operador capacitado traz graves ameaças para a segurança do país. É fundamental que elas sejam recuperadas rapidamente, antes que comecem a ser disparadas. No entanto, é essencial que este caso ajude a fomentar uma revisão dos procedimentos de segurança e gestão de armas de fogo e munições tanto das Forças Armadas quanto de nossas polícias.

[1] Uma boa referência introdutória do tema produzida pelo Small Arms Survey pode ser acessado em (SAS, 2011):

[2] Um exemplo de guia do Departamento de Defesa estadunidense pode ser acessado aqui

BRUNO LANGEANI - Gerente de projetos do Instituto Sou da Paz, mestre em políticas públicas pela Universidade de York (UK) e associado pleno do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Autor do livro “Arma de fogo no Brasil, gatilho da Violência” (editora Telha).

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
MÚLTIPLAS VOZES  Há 1 semana

ESPERTEZA E OPORTUNISMO: A hipervisibilidade do Smart Sampa enquanto uma estratégia estética de segurança na cidade de São Paulo

A adoção do Smart Sampa, como de outros aparatos de vigilância massiva, é sustentada por uma retórica punitivista que ganha expressão a partir de 2018 - quando Bolsonaro chega ao poder. Por Alcides Eduardo dos Reis Peron

MÚLTIPLAS VOZES  Há 1 semana

POLICIAMENTO EM METAVERSOS: por que a formação policial precisa mudar agora

Metacrimes exigem policiais capazes de atuar em fenômenos que transcendem as fronteiras entre mundos físico e digital. Por Carla Fernanda da Cruz e Francis Albert Cotta

PERÍCIA EM EVIDÊNCIA Há 1 semana

UMA PERÍCIA PARA CHAMAR DE SUA: O Caso Master e as controvérsias envolvendo a perícia. 

O que se observa é que neste caso a perícia serviu como uma ferramenta sujeita ao interesse dependente de quem atuou como autoridade requisitante. Por Cássio Thyone Almeida de Rosa

A COR DA QUESTÃO Há 1 semana

Togas no país das maravilhas.

Criança não namora, não se casa, não constitui união estável. Meninas não são esposas. Nisso não pode haver dúvida. Não há aqui qualquer sutileza ou entrelinha a ser considerada. Por Juliana Brandão

MÚLTIPLAS VOZES Há 1 semana

Indicador nacional é passo fundamental para o avanço da investigação criminal no Brasil

Em um país que convive há décadas com a dor de famílias sem respostas e com a sensação de que o crime compensa, ter um indicador nacional de elucidação é mais do que uma conquista técnica. Por Carolina Ricardo

FONTE SEGURA
FONTE SEGURA
Espaço dos articulistas do FONTE SEGURA/Fórum Brasileiro de Segurança Pública, dedicado a análises baseadas em dados e transparência para qualificar o debate sobre segurança pública. O projeto conecta fatos e estruturas, promove cooperação federativa e alcança leitores em diversos países.
Ver notícias
Salvador, BA
25°
Tempo limpo
Mín. 26° Máx. 27°
26° Sensação
4.07 km/h Vento
79% Umidade
98% (2.76mm) Chance chuva
05h37 Nascer do sol
17h51 Pôr do sol
Quinta
27° 26°
Sexta
28° 26°
Sábado
28° 24°
Domingo
28° 24°
Segunda
28° 25°
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Economia
Dólar
R$ 5,15 -0,23%
Euro
R$ 5,98 -0,25%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 381,901,88 -0,20%
Ibovespa
183,447,00 pts 1.4%
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Enquete
Nenhuma enquete cadastrada
Publicidade
Anúncio