Sábado, 25 de Abril de 2026
26°C 27°C
Salvador, BA
Publicidade

O TAMANHO DA ENCRENCA E A LISTA DE COMPRAS

Além das constantes promessas de aumento salarial para os policiais, as mais diversas correntes políticas, tanto de direita como de esquerda, só se lembram da segurança pública e, portanto, da polícia, nos períodos eleitorais ou em momentos de crise.

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: EdiçNº 203 - fontesegura.forumseguranca.org.br
25/10/2023 às 17h35
O TAMANHO DA ENCRENCA E A LISTA DE COMPRAS

O tema da segurança, desde a redemocratização, sempre foi um dos que mais pesaram nas eleições brasileiras. Todo candidato a cargo executivo foi cobrado sobre o que faria, se eleito, para combater o principal problema da época. No final do século XX e início do XXI, pelo menos no Rio de Janeiro e em São Paulo, uma das principais pautas era apresentar propostas sobre como debelar a “onda” de sequestros, um crime que atingia uma parcela muito pequena da população.

Em cima disso, a imaginação da maioria dos candidatos e seus assessores voava livremente. Propostas de todos os tipos eram inculcadas nos eleitores, algumas das quais bem estapafúrdias. Aliás, uma delas dizia respeito a diminuir os impostos sobre carros blindados. Ou seja, ia atingir menos de 0,1% da população, numa época que cada vez mais criminosos entravam para o ramo, a maioria completamente despreparada para esse tipo de crime. Na verdade, estavam sequestrando até os donos de padaria e muitos locais de cativeiro eram totalmente improvisados. Guardavam as vítimas “debaixo da cama da tia”, como diziam alguns membros da delegacia antissequestro de SP. Mas uma proposta absurda como essa, que ajudaria muito mais as empresas de blindagem do que as possíveis vítimas, revela muito sobre a relação política/polícia corrente ainda hoje no Brasil.

Além das constantes promessas de aumento salarial para os policiais, as mais diversas correntes políticas, tanto de direita como de esquerda, só se lembram da segurança pública e, portanto, da polícia, nos períodos eleitorais ou em momentos de crise. E, como decorrência disso, dificilmente os planos apresentados aos eleitores têm coerência ou relação com a realidade. São baseados mais nas pesquisas de opinião pública do que na realidade factual. Eles não estão baseados nos problemas reais, mas sim na percepção. Portanto ninguém busca verificar quais os principais problemas nem o “tamanho da encrenca”; o foco são os dados produzidos pelas instituições de pesquisa eleitoral.

Portanto, chegando ao poder, o político eleito pode até tentar implementar uma determinada política de segurança, mas ela não está necessariamente vinculada à realidade, àquilo que realmente prejudica a população. É claro que qualquer um eleito pelo povo tem de dar uma resposta a seu eleitorado. Se fala em diminuir os impostos sobre a blindagem deve, efetivamente, trabalhar para isso. O problema é não enfrentar realmente o problema por absoluto desconhecimento do mesmo.

O segundo problema após as eleições é que aqueles que devem trabalhar para melhorar a segurança vão tocando as coisas de forma impulsiva, respondendo mais às manchetes e aos costumes do que à realidade. As polícias porque têm seu próprio achômetro, dependendo do grupo que as comanda. Já os governantes porque não têm ideia dos problemas reais; raramente têm assessoria qualificada, e tocam de acordo com a música. Principalmente a dos meios de comunicação, que identificam os problemas também de forma pontual, uma manchete puxando a outra.

Foi na área de inteligência de estado que se criou o costume de trabalhar em cima da “Lista de Compras”. Trata-se da noção de que existem muitos fatos, situações, pessoas, instituições, sobre as quais seria bom ter informações corretas, mas o aparelho de inteligência nunca é grande o suficiente para cobrir toda a realidade. Mesmo nos estados totalitários, nos quais a polícia política é muito grande, nunca foi possível acompanhar tudo, portanto tem de existir uma seleção dos alvos que devem ser acompanhados e/ou analisados.

Para remediar isso é que existe a “Lista de Compras”, que identifica os alvos prioritários para os respectivos governos. Onde isso não ocorre acaba-se numa situação como a do Brasil onde, alguns anos atrás, a ABIN tinha um painel, cognominado Mosaico, que acompanhava as mudanças diárias em cerca de 700 coisas diferentes. E para acompanhar essas mudanças era empregado um efetivo absurdo, deixando pouca gente para as outras tarefas, muitas vezes mais importantes do que saber se a colheita da região sudeste foi maior ou menor que no ano passado. Afinal é para isso que existe o Ministério da Agricultura.

Mas a que se deve esse desperdício? À falta de uma lista de compras, uma relação, feita pelos governantes de quais são suas prioridades. O que eles precisam saber para governar melhor. Porém a lista nunca existiu de fato no país, muitas vezes tornando quase que tudo produzido pela Abin inútil e praticamente nem mesmo consultado.

Em segurança ocorre o mesmo. É evidente que qualquer tipo de crime tem de ser combatido pelas polícias, assim determina a lei. Mas ela é um parâmetro geral; quem deve definir as prioridades é o governo, evidentemente que com auxílio do Legislativo, Judiciário e Ministério Público. Mas quem bate o martelo tem de ser mesmo o Executivo. Um governador, ou seu secretário de segurança, deve decidir se a prioridade é combater o tráfico ou o crime contra o patrimônio. Se escolher a segunda opção, que crimes específicos. Por exemplo, a prioridade é o roubo e furto de celulares no centro paulista ou o roubo a banco? Onde a polícia deve concentrar seus esforços? Claro que para isso tem de ouvir a opinião dos cidadãos em geral, que sabem o que mais os incomoda, e também daqueles que trabalham na repressão ao crime, e têm ideia mais concreta do que pode ou não ser feito. Na verdade, mesmo estabelecer prioridades “meia boca” é melhor do que não ter nenhuma.

Como já escrevi outras vezes, polícia é cobertor curto, se cobre a cabeça descobrem-se os pés. Nunca dá para fazer de tudo. Se não existirem prioridades, as instituições, ou pedaços delas, farão o mais fácil ou simplesmente repetirão o que sempre foi feito. E isso pode implicar distorções como perder mais tempo num inquérito sobre um cachorro que incomoda os vizinhos com seus latidos do que com uma série de furtos de celulares. O que é bom para os incomodados com os latidos, mas ruim para a população vítima dos furtos.

GUARACY MINGARDI - Analista criminal e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Edição Nº 203 - fontesegura.forumseguranca.org.br

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
Episódio 5 Há 4 dias

CONVERSA DE SEGURANÇA

Podcast Conversa de Segurança – Episódio 5

PERÍCIA EM EVIDÊNCIA Há 4 dias

IA vai substituir o CSI?

A Inteligência Artificial é uma ferramenta que apresenta limitações técnicas. Uma vez que seus sistemas operam com base em probabilidades e padrões estatísticos, pode dar origem a informações incorretas com aparência de verdade.  por  Thyone Almeida de Rosa

PROFISSÃO POLÍCIA Há 4 dias

ENTRE CÂMERAS E PROTOCOLOS: Os limites da política institucional das polícias na era da transparência

Abordagem recente da PM na zona leste da capital paulista, que terminou com a morte de uma mulher, reforça debate sobre as formas de lidar com a exposição proporcionada por câmeras de celulares e redes sociais. por Juliana Lemes da Cruz

Múltiplas Vozes Há 4 dias

Orçamento Público e Militarização da Segurança: Prioridades Estatais e Expansão do Aparato Repressivo nos Estados Brasileiros

As matrizes militarizadas se caracterizam pela centralidade do policiamento ostensivo, pelo fortalecimento institucional das corporações armadas e pela adoção de estratégias repressivas como principal mecanismo de enfrentamento da violência urbana. por Giselle Florentino e Fransérgio Goulart

Múltiplas Vozes Há 2 semanas

O POLICIAL COMO PROFISSIONAL DA COMUNICAÇÃO: Voz e Escuta Ativa no Processo de Gestão de Conflitos

A escuta ativa, qualificada e humanizada, sustenta a leitura da cena de ação, a avaliação dos riscos e a tomada de decisão justa, ética e proporcional, evitando julgamentos baseados em estereótipos sociais, preconceitos e reprodução de estigmas. Por STEPHANIE MAYRA DE MORAES e FRANCIS ALBERT COTTA

FONTE SEGURA
FONTE SEGURA
Espaço dos articulistas do FONTE SEGURA/Fórum Brasileiro de Segurança Pública, dedicado a análises baseadas em dados e transparência para qualificar o debate sobre segurança pública. O projeto conecta fatos e estruturas, promove cooperação federativa e alcança leitores em diversos países.
Ver notícias
Salvador, BA
29°
Tempo nublado
Mín. 26° Máx. 27°
33° Sensação
5.36 km/h Vento
71% Umidade
100% (10.63mm) Chance chuva
05h40 Nascer do sol
17h22 Pôr do sol
Domingo
27° 27°
Segunda
28° 26°
Terça
27° 26°
Quarta
28° 26°
Quinta
27° 26°
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Economia
Dólar
R$ 4,98 +0,00%
Euro
R$ 5,84 +0,00%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 410,005,72 +0,06%
Ibovespa
190,745,02 pts -0.33%
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Enquete
Nenhuma enquete cadastrada
Publicidade
Anúncio