Sábado, 25 de Abril de 2026
26°C 27°C
Salvador, BA
Publicidade

ENSINO POLICIAL, COMPLEXIDADE E METODOLOGIAS ATIVAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NAS ACADEMIAS

O policial deve ser um analista e intérprete de fenômenos criminais, sempre com base em evidências científicas.

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: Edição Nº 198 - fontesegura.forumseguranca.org.br
23/10/2023 às 13h00
ENSINO POLICIAL, COMPLEXIDADE E METODOLOGIAS ATIVAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NAS ACADEMIAS

As academias de polícia são, por excelência, locus privilegiados para a construção e compartilhamento de saberes e fazeres da atividade policial. Elas funcionam como catalisadoras de saberes experienciais e práticas educativas de gerações de profissionais que possuem formação técnica e vivências. Nelas, são tecidas e ajustadas as tramas que constituem a vestimenta de jovens policiais, em início de suas carreiras, bem como daqueles mais experientes que a elas retornam para se aprimorarem. É um espaço educacional simbólico, prático e de encontro de gerações.

As teias de significados atribuídos pelos docentes e discentes impactam os processos formativos e a educação continuada nas academias. A cultura educativa policial possui especificidades e se sustenta ao mesmo tempo numa dinâmica complexa. Etimologicamente, complexus é o que é tecido junto. Há complexidade quando elementos diferentes são inseparáveis constitutivos do todo. Para se formar um policial para além da techné, que se localiza na dimensão do conhecimento prático, é necessário compreender as epistemes presentes nos campos das ciências sociais, econômicas, políticas, históricas, psicológicas, entre outras. Apresenta-se, assim, a urdidura de um tecido interdependente, interativo e interretroativo. A natureza da atividade e da educação policial exigem um pensamento complexo e metodologias ativas de ensino-aprendizagem.

As metodologias ativas no processo de ensino-aprendizagem são técnicas pedagógicas utilizadas nas academias de polícia em virtude do tipo de serviço prestado pelos egressos. A metodologia ativa parte de uma problematização da realidade; exige a participação em equipe; utiliza tecnologias da informação e da comunicação e um educador que, por sua experiência e conhecimento, é um mediador e facilitador do processo de ensino-aprendizagem. Tradicionalmente, componentes curriculares como técnica policial e defesa pessoal policial utilizam as metodologias ativas. Essa dinâmica pode ser aplicada para outros tipos de saberes necessários à atividade policial.

Para além de serem operadores de segurança pública, os policiais necessitam de competências em outras dimensões. O policial deve ser um analista e intérprete de fenômenos criminais, sempre com base em evidências científicas. Esses conhecimentos possibilitam ampliar as ações preventivas e a repressão qualificada no exercício do mandato policial em prol da segurança pública.

Um componente curricular que contribui para a formação e aprimoramento do pensamento científico do policial é a Metodologia da Pesquisa. Tradicionalmente, ele é ministrado de forma expositiva ou por meio de aula expositiva dialogada, essa com a participação mais ativa dos educandos. Entretanto, essa dinâmica ocorre na sala de aula, de maneira formal.

Uma experiência pedagógica recente, realizada por seis meses na Academia de Polícia Militar do Prado Mineiro, em Belo Horizonte, Minas Gerais, em duas turmas compostas por 60 cadetes do Curso de Formação de Oficiais, confirma empiricamente a efetividade dos métodos e técnicas ancoradas nas metodologias ativas de ensino-aprendizagem. Ela foi desenvolvida por meio de observação participante com relatos em diário de campo.

No primeiro dia de aula, o professor apresentou o plano de ensino de Metodologia de Pesquisa. O plano é um documento didático, pedagógico e administrativo que contém a ementa, objetivos, conteúdo programático, metodologia de ensino e bibliografia que contempla o projeto pedagógico do curso. Nesse mesmo encontro, foram disponibilizados todos os materiais didáticos para consulta dos estudantes.

Nos encontros subsequentes foram apresentados desafios relacionados à elaboração progressiva da estrutura de um projeto de pesquisa, a saber: uma introdução composta por contextualização, delimitação do tema, objeto de pesquisa, problema, hipótese, objetivos e justificativa; referencial teórico; metodologia de pesquisa; cronograma e referências.

Foram utilizados princípios da Andragogia (do grego: andros – adultos e gogos – educar), a educação de adultos. O adulto necessita de diferentes estímulos e participa ativamente dos percursos e estratégias educacionais que o levarão a aprender.

Tendo como base uma metodologia ativa, os cadetes saíram da sala de aula e se deslocaram para a biblioteca da academia, cada qual a portar seu computador, tablet, telefone celular e caderno. Nesse ambiente, os bibliotecários se colocavam à disposição para auxiliar nas buscas em bases bibliográficas, que eram realizadas de acordo com o desafio proposto para o encontro. Os cadetes foram agrupados em trios para que desenvolvessem competências relacionadas ao trabalho colaborativo, com foco na tarefa e nas entregas a serem feitas.                      

O amplo e irrestrito acesso aos meios de consulta em sistemas informatizados, a forma colaborativa, focada em tarefas e realizada em equipe, reproduziram o ambiente profissional com o qual o policial irá se deparar após a conclusão do curso. Os desafios propostos pelo educador e por ele acompanhados exigiram dos educandos a busca de determinados saberes. Um processo no qual estavam presentes as três dimensões do conhecimento: cognitiva, operativa e atitudinal.

Diante das entregas a serem realizadas, os cadetes perceberam os motivos para aprender e como instrumentalizar os conteúdos. O comportamento autônomo, independente e responsável possibilitou o acesso a ferramentas tecnológicas, sem restrição e controle por parte do professor. Os resultados positivos apresentados (projetos avaliados com notas de excelência) sugerem que mesmo diante de componentes curriculares tradicionalmente teóricos é possível desenvolver metodologias ativas de ensino-aprendizagem.

FRANCIS ALBERT COTTA - Pedagogo, especialista em Metodologia de Ensino, Mestre em Educação, com pós-doutorado em Educação (UFMG). Oficial da PMMG a atuar como educador e gestor educacional na Academia de Polícia Militar do Prado Mineiro.

Edição Nº 198 - fontesegura.forumseguranca.org.br

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
Episódio 5 Há 4 dias

CONVERSA DE SEGURANÇA

Podcast Conversa de Segurança – Episódio 5

PERÍCIA EM EVIDÊNCIA Há 4 dias

IA vai substituir o CSI?

A Inteligência Artificial é uma ferramenta que apresenta limitações técnicas. Uma vez que seus sistemas operam com base em probabilidades e padrões estatísticos, pode dar origem a informações incorretas com aparência de verdade.  por  Thyone Almeida de Rosa

PROFISSÃO POLÍCIA Há 4 dias

ENTRE CÂMERAS E PROTOCOLOS: Os limites da política institucional das polícias na era da transparência

Abordagem recente da PM na zona leste da capital paulista, que terminou com a morte de uma mulher, reforça debate sobre as formas de lidar com a exposição proporcionada por câmeras de celulares e redes sociais. por Juliana Lemes da Cruz

Múltiplas Vozes Há 4 dias

Orçamento Público e Militarização da Segurança: Prioridades Estatais e Expansão do Aparato Repressivo nos Estados Brasileiros

As matrizes militarizadas se caracterizam pela centralidade do policiamento ostensivo, pelo fortalecimento institucional das corporações armadas e pela adoção de estratégias repressivas como principal mecanismo de enfrentamento da violência urbana. por Giselle Florentino e Fransérgio Goulart

Múltiplas Vozes Há 2 semanas

O POLICIAL COMO PROFISSIONAL DA COMUNICAÇÃO: Voz e Escuta Ativa no Processo de Gestão de Conflitos

A escuta ativa, qualificada e humanizada, sustenta a leitura da cena de ação, a avaliação dos riscos e a tomada de decisão justa, ética e proporcional, evitando julgamentos baseados em estereótipos sociais, preconceitos e reprodução de estigmas. Por STEPHANIE MAYRA DE MORAES e FRANCIS ALBERT COTTA

FONTE SEGURA
FONTE SEGURA
Espaço dos articulistas do FONTE SEGURA/Fórum Brasileiro de Segurança Pública, dedicado a análises baseadas em dados e transparência para qualificar o debate sobre segurança pública. O projeto conecta fatos e estruturas, promove cooperação federativa e alcança leitores em diversos países.
Ver notícias
Salvador, BA
29°
Tempo nublado
Mín. 26° Máx. 27°
33° Sensação
5.36 km/h Vento
71% Umidade
100% (10.63mm) Chance chuva
05h40 Nascer do sol
17h22 Pôr do sol
Domingo
27° 27°
Segunda
28° 26°
Terça
27° 26°
Quarta
28° 26°
Quinta
27° 26°
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Economia
Dólar
R$ 4,98 +0,00%
Euro
R$ 5,84 +0,00%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 410,005,72 +0,06%
Ibovespa
190,745,02 pts -0.33%
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Enquete
Nenhuma enquete cadastrada
Publicidade
Anúncio