Quarta, 11 de Março de 2026
26°C 27°C
Salvador, BA
Publicidade

A PERÍCIA É POP: COMO ÍCARO, NOS DERAM ASAS, MAS O QUE VIMOS FOI UM MUNDO PEQUENO

A oportunidade de se discutir falhas tanto periciais como investigativas deve ser aproveitada. Equívocos sempre nos ensinam mais que elogios e glória!

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: Edição Nº 198 - fontesegura.forumseguranca.org.br
23/10/2023 às 12h28
A PERÍCIA É POP: COMO ÍCARO, NOS DERAM ASAS, MAS O QUE VIMOS FOI UM MUNDO PEQUENO

A manchete de uma matéria jornalística em um site nos chama a atenção para números expressivos: “Isabella: O Caso Nardoni’ é visto por 5,7 milhões em quatro dias e fica em 1º lugar na Netflix”.

Na semana passada, fomos levados a reviver um caso emblemático na história criminológica brasileira: o caso Isabela Nardoni. Para a perícia, foi também um marco. O ano, 2008. Uma criança de cinco anos morta por queda a partir da janela de um apartamento de classe média em São Paulo, pai e madrasta como réus. Comoção nacional, perícia como protagonista, julgamento acompanhado por pessoas que fizeram do drama associado uma extensão de sua sede pessoal de justiça.

 

O dumentário na forma de um filme reacendeu muitas controvérsias. Dentre elas, críticas que foram direcionadas não apenas à perícia, mas ao processo de investigação como um todo. A discussão em nada altera a condenação dos réus, que seguem cumprindo suas penas (a madrasta já em regime aberto).

Além do documentário, a Folha de São Paulo organizou ainda três lives, com dois dos repórteres que acompanharam o caso desde o início, um deles autor de um livro. Depois desse momento, o que se pode extrair de lições?

Um dos primeiros pontos diz respeito a entender como é diferente lidar com um caso midiático, como tudo em torno desses casos torna-se amplificado, e o viés associado é inevitável.

Em um artigo dessa coluna publicado no início de 2022, falando sobre os ditos “pecados capitais da perícia”, nos referíamos a um deles em especial: a soberba! Inegavelmente esse pecado também se faz presente nesse caso. Admitir nossas falhas é difícil, mesmo decorridos tantos anos. Mas existem falhas realmente como apontaram o documentário e as lives em discussões levadas a cabo?

A resposta: Sim, falhas existiram, compreensíveis em um contexto atrelado à época dos fatos, bem como a questões organizacionais, a vieses diversos hoje mais acessíveis de entendimento.

A história moderna da perícia no Brasil está atrelada a grandes casos, que foram mobilizando cada vez mais pessoas, não apenas os envolvidos diretamente na busca da produção da prova técnica, mas até mesmo um publico leigo, sedento por entender como os modernos sherlock holmes trabalhavam. Dentre os casos que construíram o atual status dado à perícia brasileira, cito o Caso Josef Mengele, em 1985, no qual a identificação de uma ossada encontrada no Brasil mostrou que o médico nazista vivera por aqui durante muitos anos; depois, em 1996, o Caso PC Farias, o ex-tesoureiro do ex-presidente Collor, morto com uma namorada em sua casa de praia próxima a Maceió, evento até hoje controverso; deste saltamos para 2002 e o caso da morte dos pais de Suzane von Richthofen, até finalmente chegarmos a 2008, com o Caso Isabeli Nardoni.

O fenômeno relacionado a essa popularização da perícia não se restringiu ao Brasil. Ele ocorreu e foi estudado em todo o mundo. Ganhou até mesmo um nome: “efeito CSI” em referência ao mais popular seriado de TV que tratava de perícia.

E assim, o perito se tornou para alguns um Deus, ou pelo menos um Semideus. Ganhou asas, alçou voo rumo ao sol, repetindo o mito de Ícaro. Hora de voltar à terra firme, antes que a cera dessas asas se derreta por completo.

A realidade é bem mais dura que o glamour de uma atividade que carece ainda de atingir sua excelência país afora. Como já destacado em outros textos dessa coluna: verdadeiros abismos separam avaliações de qualidade quando se comparam atividades periciais realizadas nos grandes centros e nos mais afastados recônditos deste país continental.

A oportunidade de se discutir falhas tanto periciais como investigativas deve ser aproveitada. Equívocos sempre nos ensinam mais que elogios e glória!

CÁSSIO THYONE ALMEIDA DE ROSA - Graduado em Geologia pela UNB, com especialização em Geologia Econômica. Perito Criminal Aposentado (PCDF). Professor da Academia de Polícia Civil do Distrito Federal, da Academia Nacional de Polícia da Polícia Federal e do Centro de Formação de Praças da Polícia Militar do Distrito Federal. Ex-Presidente e atual membro do Conselho de Administração do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Edição Nº 198 - fontesegura.forumseguranca.org.br

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
ClarissaHá 2 anos AlagoinhasExcelente abordagem. No afã de dar respostas urgentes que muitas injustiças acabam sendo cometidas, através de erros insuperáveis.
Mostrar mais comentários
MÚLTIPLAS VOZES  Há 1 semana

ESPERTEZA E OPORTUNISMO: A hipervisibilidade do Smart Sampa enquanto uma estratégia estética de segurança na cidade de São Paulo

A adoção do Smart Sampa, como de outros aparatos de vigilância massiva, é sustentada por uma retórica punitivista que ganha expressão a partir de 2018 - quando Bolsonaro chega ao poder. Por Alcides Eduardo dos Reis Peron

MÚLTIPLAS VOZES  Há 1 semana

POLICIAMENTO EM METAVERSOS: por que a formação policial precisa mudar agora

Metacrimes exigem policiais capazes de atuar em fenômenos que transcendem as fronteiras entre mundos físico e digital. Por Carla Fernanda da Cruz e Francis Albert Cotta

PERÍCIA EM EVIDÊNCIA Há 1 semana

UMA PERÍCIA PARA CHAMAR DE SUA: O Caso Master e as controvérsias envolvendo a perícia. 

O que se observa é que neste caso a perícia serviu como uma ferramenta sujeita ao interesse dependente de quem atuou como autoridade requisitante. Por Cássio Thyone Almeida de Rosa

A COR DA QUESTÃO Há 1 semana

Togas no país das maravilhas.

Criança não namora, não se casa, não constitui união estável. Meninas não são esposas. Nisso não pode haver dúvida. Não há aqui qualquer sutileza ou entrelinha a ser considerada. Por Juliana Brandão

MÚLTIPLAS VOZES Há 1 semana

Indicador nacional é passo fundamental para o avanço da investigação criminal no Brasil

Em um país que convive há décadas com a dor de famílias sem respostas e com a sensação de que o crime compensa, ter um indicador nacional de elucidação é mais do que uma conquista técnica. Por Carolina Ricardo

FONTE SEGURA
FONTE SEGURA
Espaço dos articulistas do FONTE SEGURA/Fórum Brasileiro de Segurança Pública, dedicado a análises baseadas em dados e transparência para qualificar o debate sobre segurança pública. O projeto conecta fatos e estruturas, promove cooperação federativa e alcança leitores em diversos países.
Ver notícias
Salvador, BA
25°
Parcialmente nublado
Mín. 26° Máx. 27°
26° Sensação
3.73 km/h Vento
78% Umidade
98% (2.76mm) Chance chuva
05h37 Nascer do sol
17h51 Pôr do sol
Quinta
27° 26°
Sexta
28° 26°
Sábado
28° 24°
Domingo
28° 24°
Segunda
28° 25°
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Economia
Dólar
R$ 5,15 -0,23%
Euro
R$ 5,98 -0,25%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 380,132,60 -0,66%
Ibovespa
183,447,00 pts 1.4%
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Enquete
Nenhuma enquete cadastrada
Publicidade
Anúncio