Sábado, 24 de Janeiro de 2026
25°C 27°C
Salvador, BA
Publicidade

'Cale-se ou aposente-se': agentes da Polícia Civil revelam ameaça de aposentadoria forçada a quem denunciasse assédio

Outras três policiais civis contaram sofrer aposentadoria compulsória após terem denunciado assédio e perseguição.

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: itatiaia.com.br
27/07/2023 às 12h37
'Cale-se ou aposente-se': agentes da Polícia Civil revelam ameaça de aposentadoria forçada a quem denunciasse assédio

Três mulheres que integram o quadro Polícia Civil de Minas Gerais denunciam aposentadoria compulsória em casos de denúncia de assédio, como a que foi feita por Rafaela Drummond, escrivã que morreu após relatar sofrer assédio moral e sexual de superiores. A revelação das policiais aconteceu durante uma audiência pública, na sexta-feira (7), na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG).

Segundo as mulheres, existe uma política de “cale-se ou aposente-se” na Polícia Civil. Ou seja, as mulheres que decidiam denunciar abusos dentro da instituição sofriam pressão e acabavam sendo obrigadas a se aposentar por invalidez. Para isso, as mulheres afirmam que a perícia da Polícia Civil usava laudos médicos falsos, a fim de alegar que elas não poderiam continuar no serviço.

A policial Tatiane Leal Oliveira é uma das vítimas que denuncia o esquema de abusos da Polícia Civil. Ela entrou na instituição em 2014 e conta ter sofrido assédio e perseguição de um superior. Pouco depois, ela foi obrigada a se aposentar com salário proporcional.

“Quando a gente narrava que estava passando por perseguições, inclusive com assédio moral e sexual, colegas, ao invés de nos ajudarem ou nos afastarem, faziam isso [aposentadoria compulsória]. Eles falam que dão apoio psicológico, mas ninguém teve apoio de nada, isso é uma mentira. Quando a gente chega na perícia, a gente acreditava que houvesse o mínimo de ética e imparcialidade, mas não havia. Quando narrávamos que a gente estava ali sofrendo assédio, na verdade, logo em seguida eles nos aposentaram para calar a boca”, relata.

Tatiane afirmou à Itatiaia que decidiu participar da audiência para representar outros colegas, que passaram pela mesma situação que ela. Conforme a policial, o assédio acontece de forma institucionalizada, ou seja, ele vem em forma de cargas de trabalho exageradas, escalas difíceis de serem cumpridas, transferências indesejadas, perseguições e avaliações ruins de desempenho.

“Tem pessoas que foram aposentadas compulsoriamente e que não conseguem receber nem o salário mínimo. Como que uma pessoa dessa consegue pagar remédio? Consegue poder pagar uma terapia? Acabaram com a nossa saúde mental e nos descartaram como lixo. Semana passada um dos colegas tentou suicídio, e se morre pouco importa para polícia, porque ele está aposentado mesmo. Então essa foi a forma que eles utilizaram para calar a nossa boca e para dizer que na polícia não tem assédio, mas tem e temos muitos colegas que estão sofrendo”.

Aborto, licença e laudos médicos incorretos

Tatiane relata que passou a sofrer assédio moral dentro da Polícia Civil em 2019, quando trabalhava na delegacia de Vespasiano e denunciou uma ilegalidade praticada pela chefe. Segundo ela, ao invés de resolverem a situação ilegal, foi ela quem passou a ser vítima de perseguição.

Ela conta que era assediada por um policial superintendente de perícia técnico-científica, e que o homem continua na mesma posição ainda hoje. Depois que Tatiane fez a denúncia da ilegalidade, este policial abriu uma sindicância administrativa contra ela e conseguiu removê-la da delegacia. Em 2020, no auge da pandemia, Tatiane foi transferida para Betim, mas nervosa com a situação, e grávida, acabou passando mal.

“Eu estava grávida e com a notícia eu fiquei extremamente nervosa, comecei a ter cólica, sangramento e fui pro médico. Ele me disse que eu não precisava nem de fazer curetagem porque o resto ia sair durante alguns dias. Sofri um aborto”.

Enquanto estava de licença pelo aborto, uma notícia causou uma reviravolta em sua vida: Tatiane tinha uma gravidez gemelar e um dos bebês sobreviveu. Devido à pandemia, o Governo de Minas havia determinado que mulheres grávidas e lactantes trabalhassem de casa, mas o direito foi negado à Tatiane, que precisou recorrer a laudos médicos para não se expor à Covid-19.

“O meu assediador negou e falou que bastasse que eu utilizasse máscara e EPI, mesmo sendo uma gravidez de alto risco. Graças a Deus eu tive médicos que pelo menos tinham um pouco de consciência e tirei licença. Vivi uma época com luto, e, ao mesmo tempo, a alegria porque eu tinha um bebê, um sentimento perturbador. Durante toda a minha gestação eu fui afastada pelos meus médicos, só que no auge do Covid, grávida, eu tinha que ir presencialmente na perícia médica. Acho que eu era a única pessoa que aparecia lá. E a corregedoria também começou a me chamar para poder ir presencialmente. Então, minha vida era um inferno, eu não tinha descanso, eu não tinha paz”.

Em 2022, Tatiane voltou a trabalhar, dessa vez em Betim, onde ela conta que foi bem recebida pela chefe. Por isso, a policial alega que a equipe também passou a ser perseguida. Ela decidiu pedir para voltar para a delegacia de Vespasiano, que era onde ela e a família moravam, mas a transferência foi negada pelo superintendente.

“Eles negaram a minha remoção e abriram o inquérito policial contra mim. Eu comecei de novo aquele pânico, aquele inferno, fui no meu médico e ele me afastou por sessenta dias. Quando eu fui prorrogar a licença, eles [a Polícia Civil] determinaram que eu tinha doenças incapacitantes para o trabalho, me aposentaram e agora eu recebo uma aposentadoria proporcional. Todo assédio que passei geraram essas doenças que eu tenho atualmente”.

Tatiane alega, ainda, que a perícia da Polícia Civil a diagnosticou com doenças que ela não tem, para poderem justificar a aposentadoria compulsória. Ela conta que a instituição declarou que ela sofre com transtorno dissociativo, uma doença que faz com que a pessoa perca a própria personalidade.

Apesar de declarar que não deseja voltar a trabalhar na Polícia Civil, Tatiane reivindica uma aposentadoria integral, e não proporcional. Ela ainda conta que nunca pediu para ser aposentada e que os documentos ficaram prontos antes mesmo de ela passar pela perícia. Em um período de dois dias ela ficou sabendo da aposentadoria e foi afastada.

“Tudo que sofri na polícia foi decorrente de assédio, e eu tenho direito a minha aposentadoria integral. Eu não voltar porque isso não vai mudar, porque dentro da polícia, a gestão superior é toda assediadora e eu não quero voltar para isso, porque eu estou no meu limite. E quando a gente ultrapassa o limite da gente, acontece o que aconteceu com a Rafaela”.

A Polícia Civil de Minas Gerais, sobre as denúncias não deu retorno.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
ACERTANDO NO ALVO.
ACERTANDO NO ALVO.
Artigos sobre os mais variados assuntos do momento.
Ver notícias
Salvador, BA
23°
Parcialmente nublado
Mín. 25° Máx. 27°
23° Sensação
2.27 km/h Vento
78% Umidade
100% (0.82mm) Chance chuva
05h23 Nascer do sol
18h07 Pôr do sol
Domingo
27° 25°
Segunda
27° 26°
Terça
27° 25°
Quarta
26° 25°
Quinta
27° 25°
Publicidade
Publicidade


 


 

Publicidade
Economia
Dólar
R$ 5,29 +0,00%
Euro
R$ 6,23 +0,00%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 501,844,42 -0,05%
Ibovespa
178,858,55 pts 1.86%
Publicidade
Publicidade
Enquete
Nenhuma enquete cadastrada
Publicidade
Anúncio