Sábado, 24 de Janeiro de 2026
25°C 27°C
Salvador, BA
Publicidade

TRABALHO POLICIAL MILITAR, POLÍTICAS DE SEGURANÇA E ADOECIMENTO MENTAL

O medo é a tecnologia de socialização no curso de formação dos profissionais e nas atividades para manter a atenção durante todo o dia, mesmo durante a folga.

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: GILVAN GOMES DA SILVA
07/05/2022 às 17h29
TRABALHO POLICIAL MILITAR, POLÍTICAS DE SEGURANÇA E ADOECIMENTO MENTAL

Em abril repercutiu a notícia sobre a alta taxa de suicídio entre policiais militares do Estado de São Paulo. Todavia, não é um fato novo e exclusivo da PMESP. Se no ano de 2021 houve uma média de um registro a cada 11 dias, no período de 2014 a 2020 mais de 4.729 policiais foram afastados por problemas psicológicos. A PMAL teve um aumento de 35% de casos em seis anos. A taxa em 2018 na PMAL foi de 57 por 100.000; em Alagoas a taxa geral é de 4,5 e a taxa nacional no ano foi de 5,8.

Em São Paulo há programas implementados desde 2001. As outras polícias militares também desenvolvem ações de intervenções com palestras, distribuição de cartilhas, capacitação de profissionais para identificar possíveis comportamentos de pessoas com ideação suicida e apresentar o acolhimento pelos Centros de Assistências Sociais e pelas Capelanias. Entre as informações apresentadas nas cartilhas há a identificação dos aspectos sociais como poucos vínculos sociais, eventos estressantes (situação de violência, conflitos pessoais, perdas) e aspectos psicológicos (desesperança) como fatores que influenciam o adoecimento e fomentam a ideação suicida. Também há sugestão de ações aos familiares, aos colegas de trabalho e aos comandantes.

 

Todavia, o que os programas das instituições não problematizam é a relação Trabalho Policial Militar como um fator intrínseco ao suicídio. Tal afirmação só é possível ao relacionar a formação, a atividade laboral, o resultado do trabalho com os fatores de risco e as medidas interventivas para a diminuição da taxa de suicídio nas polícias militares.

A formação policial militar inicia-se com a semana zero. Um rito que tem como objetivo iniciar a desconstrução da identidade civil para a construção da identidade policial e militar. Assim as relações de lazer, religiosas, de estudo, entre outras que eram comuns, serão realizadas preferencialmente entre os próprios policiais. Perde-se a intensidade dos vínculos construídos anteriormente e aumenta a possibilidade de solidão, dois fatores de risco que influenciam a ideação suicida. As características institucionais totais das polícias militares tornam-nos uma não-comunidade e, quanto maior a identificação com o trabalho, maior o afastamento, a morte do “paisano” em troca da construção do possível herói.

Há o ditado policial que diz que cada ocorrência é uma ocorrência e que onde se aprende mesmo é no serviço de rua. A separação entre formação formal e informal como instrumento de orientação da ação policial também constrói insegurança pela falta de protocolos e pelas consequências das ações. Essa insegurança também é presente pela falta de regulamentação do que é necessário como Equipamentos de Proteção Individual e Coletivo, já que cada instituição adota de forma diferente.

Aliás, o medo é a tecnologia de socialização no curso de formação e nas atividades diárias para manter a atenção durante todo o dia, mesmo durante a folga. A construção do medo está nas histórias de ocorrências perigosas como aprendizado informal e nas homenagens aos policiais que tombaram em serviço. Desta forma, mesmo que não presencie as ocorrências de risco, a sensação de risco à vida estará como possibilidade iminente e constante. Além deste fator de manutenção do estresse, o trabalho policial mantém o convívio com sofrimentos das pessoas atendidas. Notícias de homicídios, estupro, assaltos, lesão corporal, abandonos, entre várias outras ações tipificadas como crime são noticiadas como produto de trabalho. São situações de violências a que policiais militares são submetidos.

Esse conjunto de exposições das situações que geram emoções alinhadas ao fomento de ideação suicida são potencializadas pelas políticas de segurança pública de combate. Estimular o combate é catalisar todas as situações que estão relacionadas ao fomento de ideação suicida. O combate tem em suas entrelinhas a figura do herói que vence as batalhas e salva a sociedade. Entretanto, na segurança pública há dois desdobramentos: alinhado com o fator isolamento, há o fator sensação de falta de reconhecimento pelo trabalho por diversos fatores. A construção da imagem do herói também impede o sofrimento público, pois o herói e guerreiro deve sofrer em silêncio e suporta todas as adversidades, inclusive sofrimentos físicos mentais.

Todavia, as intervenções institucionais não tentam diminuir o isolamento policial militar a partir do processo de construção das identidades do trabalho (policial e militar); não diminuem a insegurança das ações policiais pela falta de alinhamento da formação profissional com as ações cotidianas e pela não regulamentação de procedimentos como POP; não há protocolos de acolhimento preventivo para policiais que participaram de ocorrências violentas; assim como não há acompanhamentos periódicos padronizados entre as polícias militares com programas de manutenção da saúde física; e não há espaço na gestão, seja na própria instituição quanto no governo que problematize a política de segurança pública de combate, que permita apresentação de alternativas de ações que envolvam outros segmentos de conhecimento e atuação de outros profissionais.

Desta forma, as ações até aqui apresentadas são importantes como um dado de reconhecimento institucional do suicídio policial como objeto de intervenção. Mas são voltadas somente para questões individuais e necessitam de várias medidas alinhadas entre a instituição policial militar e os governos, pois a construção da política de segurança reverbera na saúde dos profissionais e na qualidade de atendimento da sociedade.

GILVAN GOMES DA SILVA - Formado em Antropologia e em Sociologia, com mestrado e doutorado em Sociologia pela Universidade Nacional de Brasília. Membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

fontesegura.forumseguranca.org.br

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
Colunismo de intriga Há 2 semanas

2026 será o ano dos ataques aos parentes dos inimigos da direita

Um influencer fascista pregou essa semana nas redes sociais que é preciso agir logo e pegar a filha de Alexandre de Moraes. Esse sujeito só é diferente dos jornalões por ser mais autêntico, sincero e explícito. por MOISÉS MENDES

Constituição Cidadã Há 4 semanas

Entre a Constituição Cidadã e a Insegurança Jurídica

É triste para os operadores do direito (magistrados, membros do Ministério Público e advogados) ver o país vivenciar essa insegurança jurídica, chamada de ativismo judicial. por Ives Gandra da Silva Martins

A NOSSA AMAZÔNIA Há 4 semanas

PATAGÔNIA, A NOSSA AMAZÔNIA

A Amazônia, cujo maior território se encontra no Brasil, (e inclui também Peru, Colômbia, Venezuela, Bolívia, Equador, Guiana, Suriname e Guiana Francesa), a maior floresta tropical mundial, resguardo da biodiversidade e do controle do clima do orbe terrestre, podemos dizer que é a nossa Patagônia, assim como esse vasto território no sul do continente, repartido entre a Argentina e o Chile, seria a Amazônia destes dois países.por CARLOS PRONZATO

Brasil sequestrado. Há 1 mês

Síndrome de Estocolmo

Tudo bem se amamos odiar o presidiário, seus filhos e tudo o que o fascismo representa. Mas precisamos voltar a discutir temas urgentes. O Brasil precisa se livrar de seus sequestradores. por Carlos Zacarias de Sena Júnior

IGHB Há 1 mês

IGHB, ESSA LUZ NÃO VAI SE APAGAR

Mas, apesar de qualquer polêmica política, o governo tem o dever de distribuir os impostos que correspondem à cultura, de forma democrática. Em virtude desta angustiante situação, em setembro, o IGHB lançou a campanha “Não deixe esta luz se apagar”

COLUNISTAS.
COLUNISTAS.
Aqui você encontra profissionais que fazem a diferença trocando experiências e falando de tudo um pouco. Nossos Colunistas são especialmente convidados para dividir com você suas vivências cotidianas em um bate-papo recheado de utilidade e variedade. Os artigos, fotos, vídeos, tabelas e outros materiais iconográficos publicados nesse espaço “opinião” não refletem necessariamente o pensamento do Página de Polícia, sendo de total responsabilidade do(s) autor(es) as informações, juízos de valor.
Ver notícias
Salvador, BA
28°
Tempo nublado
Mín. 25° Máx. 27°
31° Sensação
3.87 km/h Vento
74% Umidade
100% (0.82mm) Chance chuva
05h23 Nascer do sol
18h07 Pôr do sol
Domingo
27° 25°
Segunda
27° 26°
Terça
27° 25°
Quarta
26° 25°
Quinta
27° 25°
Publicidade
Publicidade


 


 

Publicidade
Economia
Dólar
R$ 5,29 +0,00%
Euro
R$ 6,23 +0,00%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 499,786,29 -0,46%
Ibovespa
178,858,55 pts 1.86%
Publicidade
Publicidade
Enquete
Nenhuma enquete cadastrada
Publicidade
Anúncio