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DADOS DO ATLAS DA VIOLÊNCIA DE 2026 EVIDENCIAM AS DINÂMICAS DA VIOLÊNCIA CONTRA AS MULHERES NO BRASIL

São destaques da publicação os altos índices de letalidade de mulheres negras, a persistência da residência como principal lócus da violência, assim como os índices de reincidência e os tipos de violência que mais afetam as mulheres em cada ciclo da vida. Por Beatriz Schroeder e Deise Nunes

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: fontesegura.forumseguranca.org.br/EDIÇÃO N.325
08/06/2026 às 09h52
DADOS DO ATLAS DA VIOLÊNCIA DE 2026 EVIDENCIAM AS DINÂMICAS DA VIOLÊNCIA CONTRA AS MULHERES NO BRASIL

Beatriz Schroeder

Pesquisadora do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Deise Nunes

Pesquisadora do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Em sua 10ª edição, o Atlas da Violência revela que, embora o Brasil tenha registrado 3.642 casos de homicídios de mulheres em 2024 — uma queda de 6,7% em relação ao ano anterior —, a redução da letalidade feminina é menos acentuada do que a da população em geral. Enquanto a taxa nacional de homicídios recuou 33,4% entre 2014 e 2024, a de mulheres caiu 27,7% nesse mesmo período, indicando que persistem dinâmicas que mantêm as mulheres em maior vulnerabilidade.

Essa disparidade assume contornos ainda mais graves quando observamos os homicídios estimados, de forma a visibilizar as subnotificações de mortes com causa indeterminada. Em 2024, a taxa estimada para as mulheres foi de 4,4 por 100 mil, um ponto acima do dado oficial de 3,4 por 100 mil, atingindo o maior descompasso da série histórica nos últimos 10 anos.

 

Fonte: IBGE – Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADc) e MS/SVSA/CGIAE – Sistema de Informações sobre Mortalidade – SIM. Elaboração: Diest/Ipea e FBSP. Nota: O número de homicídios de mulheres foi obtido pela soma das seguintes CIDs 10: X85-Y09 e Y35 – Y36, ou seja, óbitos causados por agressão, intervenção legal e operações de guerra. Número de homicídios estimados conforme metodologia de Cerqueira e Lins (2024).

A raça como eixo da violência letal

A análise interseccional revela que a violência de gênero no Brasil tem cor: mulheres negras, entendidas como pretas e pardas. Em 2024, foram registradas 2.457 mulheres negras vítimas de homicídio, o que representa 67,47% do total de homicídios femininos nesse ano. Trata-se de uma taxa de 4,0 mulheres negras mortas a cada 100 mil mulheres frente à taxa de 2,4 entre mulheres não negras, o que corresponde a uma queda de 9,1% em relação à taxa de 2023 (4,4), sendo esta a menor taxa registrada nos últimos 11 anos (2014 a 2024).

Entre 2014 e 2024,  houve uma queda considerável na taxa de homicídios entre mulheres negras, de 5,6 para 4,0, o que representa uma redução de 28,6%. Quando analisamos a variação de 2023 para 2024, observa-se uma queda de 9,1% na taxa – a menor taxa registrada nos últimos 11 anos (2014 a 2024). Entretanto, é necessário fazer algumas ressalvas. Ainda que tenha sido observada uma diminuição considerável na taxa de mulheres negras assassinadas na última década, o grupo permanece sendo o mais vulnerável à violência letal: considerando esses 11 anos, os registros apontam que 30.556 mulheres negras foram vítimas de homicídio no Brasil, o que corresponde a 65,93% do total de casos.

Quando comparamos a taxa de homicídios de mulheres negras com a de mulheres não negras, observa-se uma tendência de queda gradual e consistente ao longo do decênio, verificamos que embora a redução ocorra em ambos os grupos, a desigualdade se mantém: em 2024, a taxa de vitimização por homicídio de mulheres negras (4,0) foi 66,7% superior à taxa verificada entre mulheres não negras (2,4).

Esses dados evidenciam uma violência que recai de maneira desproporcional sobre corpos negros, revelando sua historicidade e a persistência de padrões de opressão que seguem hierarquizando o valor da vida feminina.

 

Fonte: IBGE – Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADc) e MS/SVSA/CGIAE – Sistema de Informações sobre Mortalidade – SIM. Elaboração: Diest/Ipea e FBSP. Nota: O número de homicídios foi obtido pela soma das seguintes CIDs 10: X85-Y09 e Y35 – Y36, ou seja, óbitos causados por agressão, intervenção legal e operações de guerra. O número de negras é a soma de pretas e pardas, não negras foi obtido pela soma de brancas, amarelas e indígenas.

O lar como trincheira e o ciclo da reincidência

Um dos achados mais importantes desta edição do Atlas da Violência é a estabilidade histórica das mortes ocorridas dentro das residências. Enquanto os homicídios em via pública apresentaram queda acentuada (37,1% entre 2014 e 2024), a letalidade doméstica resiste, representando 35,2% de todas as mortes femininas em 2024. Desta forma, o domicílio, longe de ser um espaço de refúgio, permanece como o local de maior perigo.

Os dados de violência não letal reforçam esse diagnóstico: em 2024, foram notificados 293.842 casos contra mulheres no sistema de saúde, sendo que 64% ocorreram no contexto doméstico. Novamente, a sobre-representação racial aparece, com 58,6% das vítimas de violência doméstica sendo negras. A reincidência é outro fator crítico: 66,2% das mulheres atendidas já haviam sofrido agressões anteriores da mesma natureza. Esse padrão cíclico, sustentado pelo controle e isolamento impostos pelo agressor, é o que frequentemente precede o desfecho letal do feminicídio.

Dinâmicas de violência por etapas da vida

As formas de violência assumem contornos específicos e predominantes de acordo com cada fase da vida da mulher, revelando vulnerabilidades que se transformam ao longo do tempo. No grupo de 0 a 9 anos, a negligência é a forma predominante de violência, atingindo 51,9% das notificações. Para as meninas de 10 a 14 anos, o cenário não é menos alarmante: 45,5% de todas as violências reportadas foram casos de violência sexual, o que denuncia uma crise profunda de abusos intrafamiliares e situações de vulnerabilidade associadas à dependência.

A partir dos 15 anos e até os 69 anos, a violência física impera como a manifestação mais comum contra as mulheres, sendo frequentemente associada a contextos de relações íntimas e acompanhada por uma alta proporção de violência múltipla. À medida que a mulher envelhece e atinge os 70 anos ou mais, a proporção de agressões físicas cai, mas os casos de negligência voltam a crescer de forma acentuada, refletindo as mudanças na posição social e na dependência de cuidados.

Os indicadores do último decênio (2014 e 2024) analisados no Atlas da Violência 2026 reiteram que os desafios do enfrentamento à violência de gênero não são novos, mas estruturais. A alta de casos dentro das residências e nas taxas de reincidência demonstram que as dificuldades de intervenção na esfera privada permanecem como obstáculos históricos para o Estado na interrupção do ciclo de violência, tal como o enfrentamento ao racismo como medida fundamental para a proteção equânime para todas as mulheres.

fontesegura.forumseguranca.org.br/EDIÇÃO N.325

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