Quarta, 07 de Outubro de 2026
24°C 26°C
Salvador, BA
Publicidade

RODRIGO CONSTANTINO E A BAHIA: QUANDO A OPINIÃO VIRA DESPREZO

Criticar o voto de um povo é legítimo. Transformar milhões de pessoas em preguiçosas, ignorantes ou “vergonha para o Brasil” é outra coisa.

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: por CARLOS NASCIMENTO
07/10/2026 às 09h51
RODRIGO CONSTANTINO E A BAHIA: QUANDO A OPINIÃO VIRA DESPREZO

EDITORIAL | PÁGINA DE POLÍCIA

Existe uma diferença entre discordar de um povo e desprezá-lo.

Existe uma diferença entre criticar uma escolha eleitoral e atacar a dignidade de milhões de pessoas.

E existe, sobretudo, uma diferença entre exercer o direito à opinião e usar a opinião como instrumento para generalizar, humilhar e criar estereótipos.

É nesse limite que entram as declarações de Rodrigo Constantino Alexandre dos Santos sobre a Bahia e os baianos.

Constantino tem todo o direito de ser de direita. Tem direito de ser conservador, de criticar a esquerda, de não gostar do PT, de discordar do governador da Bahia, dos senadores, dos deputados ou de qualquer outro político.

Tem também o direito de considerar que o eleitor baiano fez uma escolha equivocada nas urnas.

Tudo isso faz parte da democracia.

O problema começa quando a crítica ao voto deixa de ser uma crítica política e passa a atingir a população como um todo.

E foi exatamente aí que, em nossa avaliação, Constantino ultrapassou uma linha que não deveria ser ultrapassada.

CONFIRA VÍDEO DE RODRIGO CONSTANTINO:

UMA COISA É CRITICAR O VOTO. OUTRA É ATACAR O ELEITOR

Após o resultado das eleições, Rodrigo Constantino chamou a Bahia de “câncer do Brasil”, afirmou que “Salvador é um lixo” e disse aos baianos que, “com todas as boas exceções”, eles seriam, “em geral”, uma vergonha para o Brasil.

Não estamos discutindo aqui se Constantino gosta ou não da Bahia.

Ele não é obrigado a gostar.

Não estamos discutindo se ele concorda ou não com o eleitor baiano.

Também não é obrigado a concordar.

A questão é outra:

Até onde vai o direito de alguém de transformar sua indignação política em julgamento sobre um povo inteiro?

O eleitor baiano não é uma extensão do candidato em quem votou.

O trabalhador baiano não é responsável pelas decisões de um governador.

O comerciante de Salvador não pode ser responsabilizado pelo resultado de uma eleição.

O policial, o professor, o médico, o agricultor, o empresário, o estudante, o servidor público e o trabalhador informal não podem ser colocados dentro de uma mesma caixa simplesmente porque nasceram ou vivem na Bahia.

O PROBLEMA DAS “EVIDÊNCIAS ANEDÓTICAS”

Para justificar suas afirmações sobre o comportamento dos baianos, Constantino recorreu a experiências pessoais e a relatos envolvendo familiares seus que, segundo ele, são baianos.

Falou sobre vendedores ambulantes, situações em praias e pessoas que teria observado em bares durante uma manhã de segunda-feira.

Ele próprio reconheceu que se tratava de “evidências anedóticas”.

E aqui está uma das maiores fragilidades de seu argumento.

Experiências pessoais são experiências pessoais.

Podem revelar alguma coisa sobre determinadas pessoas.

Não revelam, por si só, o caráter de milhões.

Encontrar um vendedor que não estava trabalhando não permite concluir que os baianos não gostam de trabalhar.

Encontrar pessoas em um bar numa segunda-feira de manhã não permite concluir que uma população inteira seja preguiçosa.

Ter uma experiência ruim com alguém não transforma aquela pessoa em representante de todo um estado.

Parece óbvio.

Mas é justamente o óbvio que precisa ser lembrado.

E SE FOSSE COM OUTRO ESTADO?

Imagine que alguém encontrasse um paulista desonesto e decidisse concluir que todos os paulistas são desonestos.

Ou encontrasse um carioca preguiçoso e afirmasse que o Rio de Janeiro é um estado de preguiçosos.

Ou tivesse uma experiência ruim com um paranaense e passasse a chamar todos os paranaenses de incompetentes.

Seria imediatamente reconhecido como preconceito.

Então por que a lógica deveria ser diferente quando o alvo é a Bahia?

A resposta não pode depender de quem está sendo atacado.

Preconceito não deixa de ser preconceito porque vem acompanhado de uma opinião política.

O BAIXO NÍVEL DO DEBATE POLÍTICO

Há uma coisa que deveria ser básica no debate público:

Quem considera que o outro está errado deve apresentar argumentos.

Se Constantino acredita que os baianos votaram mal, que demonstre.

Mostre os indicadores.

Compare os governos.

Apresente dados econômicos.

Analise a segurança pública.

Discuta educação.

Questione a saúde pública.

Critique os candidatos.

Mostre onde estão os erros das políticas adotadas.

Isso é debate.

Isso é política.

Isso é democracia.

Chamar milhões de pessoas de preguiçosas, acomodadas ou “vergonha para o Brasil” não acrescenta absolutamente nada ao debate.

Pelo contrário.

Empobrece a discussão.

A BAHIA NÃO É PROPRIEDADE DE NENHUM PARTIDO

Também é importante deixar claro que defender os baianos não significa defender o governo da Bahia.

A Bahia tem problemas.

Muitos.

Salvador tem problemas.

A segurança pública tem problemas.

A saúde tem problemas.

A educação tem problemas.

A infraestrutura tem problemas.

A política baiana tem problemas.

E todos eles precisam ser discutidos, cobrados e fiscalizados.

O Página de Polícia, inclusive, não tem compromisso com governo, partido ou grupo político.

Nosso compromisso deve ser com a informação, com o interesse público e com o direito do cidadão de cobrar seus representantes.

Mas uma coisa não tem absolutamente nada a ver com a outra.

Criticar o governo não autoriza atacar o povo.

A Bahia não pertence ao PT.

Também não pertence ao governador.

Não pertence à esquerda.

E não pertence à direita.

A Bahia pertence aos baianos.

E dentro dela existem pessoas de todos os espectros políticos.

O ELEITOR BAIANO NÃO PRECISA DE AUTORIZAÇÃO

O eleitor baiano pode votar na direita.

Pode votar na esquerda.

Pode votar no centro.

Pode mudar de opinião.

Pode errar.

Pode acertar.

Pode se arrepender.

Pode votar novamente no mesmo candidato.

Isso é democracia.

E não precisa pedir autorização a Rodrigo Constantino, a nenhum jornalista, comentarista, escritor, economista, influenciador ou político.

O voto é individual.

A consciência é individual.

A responsabilidade eleitoral também.

Transformar milhões de pessoas em uma única massa homogênea porque elas escolheram determinado candidato é uma maneira extremamente pobre de compreender uma sociedade.

A DOENÇA DE CONSTANTINO E UMA REFLEXÃO NECESSÁRIA

Existe ainda um aspecto particularmente delicado nessa história.

Rodrigo Constantino passou por uma experiência pessoal extremamente séria.

Em dezembro de 2024, revelou publicamente que enfrentava um câncer, inicialmente descrito por ele como um tumor maligno que teria origem na língua e atingia a região da garganta.

Naquele momento, falou sobre fé, família, resiliência e sobre as lições que aquela batalha poderia trazer.

E aqui precisamos fazer uma distinção importante.

A doença de uma pessoa jamais deve ser usada para atacá-la.

Câncer não escolhe ideologia.

Não escolhe partido.

Não escolhe classe social.

Não escolhe lado político.

Uma pessoa enfrentando uma doença grave merece respeito, independentemente de suas opiniões.

Mas experiências como essa costumam provocar reflexões profundas.

Muitas pessoas que atravessam uma situação dessa natureza passam a enxergar a vida de outra maneira.

Reavaliam prioridades.

Percebem a fragilidade da existência.

Tornam-se mais sensíveis.

Mais tolerantes.

Mais conscientes de que, no fim, somos todos humanos.

Ao observar algumas das declarações recentes de Constantino, entretanto, fica uma sensação diferente.

A experiência da doença não parece ter produzido, pelo menos em sua retórica pública, a dose de humanidade que muitos poderiam esperar.

Sua linguagem continua agressiva.

Sua crítica continua ácida.

E, em determinados momentos, parece não haver uma separação clara entre o adversário político e o cidadão comum.

É uma pena.

Não porque Constantino tenha obrigação de mudar suas convicções.

Mas porque ninguém precisa abandonar suas ideias para respeitar quem pensa diferente.

É POSSÍVEL SER DE DIREITA SEM ODIAR QUEM É DE ESQUERDA

É possível ser conservador sem desprezar progressistas.

É possível ser de direita sem considerar o eleitor de esquerda um idiota.

É possível ser antagônico ao PT sem tratar petistas como uma espécie inferior.

É possível criticar o governo da Bahia sem atacar os baianos.

É possível defender suas convicções sem transformar o adversário político em inimigo pessoal.

A política deveria ser um espaço de disputa de ideias.

Não uma guerra de desumanização.

Quando chegamos ao ponto em que o adversário deixa de ser visto como cidadão e passa a ser tratado como alguém inferior, o debate político já perdeu completamente o sentido.

A POLÍCIA CIVIL E A RESPONSABILIZAÇÃO

A Polícia Civil da Bahia instaurou procedimento para apurar as circunstâncias e eventuais responsabilidades relacionadas às declarações de Rodrigo Constantino, classificadas como manifestações de possível caráter discriminatório contra a população baiana.

É importante deixar que as autoridades façam seu trabalho.

Se houve crime, cabe às instituições apurar.

Se não houve, também cabe às instituições esclarecer.

Isso é Estado de Direito.

E ninguém deve ser condenado antecipadamente.

Mas também é legítimo que a sociedade discuta publicamente aquilo que uma pessoa pública diz.

Constantino vive da opinião pública.

Construiu sua carreira justamente falando, escrevendo, analisando e criticando.

Por consequência, também precisa aceitar ser criticado.

Isso não é censura.

É contraditório.

Em entrevista à imprensa local, Jerônimo Rodrigues repudiou os ataques e disse que adotaria as medidas judiciais para responsabilizar o economista. “Essas coisas não cabe... *

Confira  fala do governador:

CONSTANTINO NÃO É DONO DA VERDADE

Rodrigo Constantino pode não gostar da Bahia.

Pode não gostar de Salvador.

Pode não gostar do voto dos baianos.

Pode preferir o Paraná, Santa Catarina ou qualquer outro estado.

Pode defender a política que quiser.

Pode criticar quem quiser.

Mas não é dono da verdade.

E muito menos é dono da régua que mede a dignidade de um povo.

Os baianos também têm o direito de olhar para suas declarações e responder:

Nós não precisamos concordar com você.

E muito menos precisamos aceitar que milhões de trabalhadores sejam transformados em estereótipos porque alguém encontrou determinadas pessoas em um bar numa segunda-feira de manhã ou porque um vendedor de água de coco não apareceu para trabalhar.

Isso não é retrato da Bahia.

São histórias particulares.

A BAHIA NÃO PRECISA DA APROVAÇÃO DE CONSTANTINO

A Bahia não é perfeita.

Nenhum estado brasileiro é.

Mas nenhum povo precisa ser perfeito para merecer respeito.

O baiano não precisa provar que trabalha.

Não precisa apresentar contracheque.

Não precisa mostrar carteira assinada.

Não precisa justificar seu voto.

Não precisa explicar por que gosta de determinado partido.

E não precisa aceitar que sua cultura, sua identidade e sua dignidade sejam transformadas em motivo de escárnio.

Rodrigo Constantino tem direito à opinião.

Os baianos têm direito à indignação.

Se ele considera a Bahia um “câncer”, os baianos também podem responder com a mesma liberdade que ele reivindica para si:

A Bahia não é obrigada a gostar de Rodrigo Constantino.

Mas existe uma diferença.

Mesmo discordando dele, não precisamos desumanizá-lo.

E talvez seja justamente aí que esteja a maior lição de toda essa história.

UMA ÚLTIMA REFLEXÃO

A vida é curta.

Muito curta.

E ninguém sabe quanto tempo terá pela frente.

Talvez por isso seja tão importante escolher com cuidado as palavras que usamos para falar sobre outras pessoas.

É possível ser firme.

É possível ser contundente.

É possível discordar profundamente.

É possível criticar governos, partidos, candidatos e eleitores.

Mas existe uma linha que não deveria ser ultrapassada:

a linha que separa a crítica do desprezo pelo ser humano.

A Bahia pode ser criticada.

Os governos podem ser cobrados.

Os políticos podem ser questionados.

Os eleitores podem ser convencidos de que fizeram uma escolha errada.

Tudo isso faz parte da democracia.

Mas uma eleição não transforma um povo inteiro em vergonha.

E nenhum comentarista, por mais conhecido que seja, tem autoridade para determinar o valor ou a dignidade de milhões de pessoas.

A Bahia é muito maior do que uma eleição.

E os baianos são muito mais do que o voto que depositaram em uma urna.

PÁGINA DE POLÍCIA

Opinião editorial. O conteúdo expressa a posição editorial do veículo e está aberto ao contraditório, ao debate e à manifestação de opiniões divergentes.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
CARLOS NASCIMENTO
CARLOS NASCIMENTO
Funcionário público aposentado Editor da Revista Página de Polícia e responsável pelos Sites: paginadepolicia.com.br, tokdemia.com.br, oservidor.com e Colunista do blog politicafc.com.br.
Ver notícias
Salvador, BA
28°
Tempo nublado
Mín. 24° Máx. 26°
30° Sensação
20.23 km/h Vento
65% Umidade
20% (0.12mm) Chance chuva
05h13 Nascer do sol
17h30 Pôr do sol
Quinta
26° 25°
Sexta
26° 25°
Sábado
26° 24°
Domingo
26° 24°
Segunda
26° 25°
Publicidade

? LOCALIZAR UNIDADE POLICIAL NA BAHIA

Publicidade

? LOCALIZAR UNIDADE POLICIAL EM PERNAMBUCO

Publicidade

? LOCALIZAR UNIDADE POLICIAL EM SERGIPE

```
Economia
Dólar
R$ 4,99 +0,27%
Euro
R$ 5,58 -0,51%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 438,638,87 -3,13%
Ibovespa
206,555,11 pts 0.35%
Publicidade
Publicidade
Enquete
Nenhuma enquete cadastrada
Publicidade
Anúncio