
As mensagens que vieram a público sobre interações entre o banqueiro Daniel Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes, e que se tornaram o centro da crise que atinge o STF, são pornográficas, não há como dizer o contrário. Há gente indignada e vociferando contra o ministro, reportagens na TV, editoriais nos grandes jornais e podcasts que não falam de outra coisa, mas todos sabemos que o problema do Brasil nunca foi a corrupção.
Falo corrupção supondo que Moraes pode não conseguir justificar o generoso montante oferecido por Vorcaro para contratar o escritório de sua esposa, o que pode sugerir favores, advocacia administrativa e acesso a informações privilegiadas. É claro que tudo precisa ser apurado, como também é necessário que se investiguem as relações de Mendonça, Nunes Marques, Fux e Toffoli com Vorcaro e os inúmeros convescotes envolvendo gente importante de partidos da direita no Congresso com o banqueiro pilantra.
De Moraes, o que se sabe é que a coisa cheira mal e, no mínimo, fere princípios éticos. Mas se o problema todo são eventuais relações espúrias de figuras da República com o dono do Master, devemos esperar para ver o que vai ser feito do caso em que Flávio Bolsonaro pede dinheiro a seu “irmãozão” Daniel, algo que é muito pior. Há gravações do senador, que já são conhecidas, mas o que não se conhece é a prestação de contas dos R$ 61 milhões recebidos supostamente para o filme Dark Horse.
O circo armado no STF, com a imprensa babando por sangue e entrando ao vivo na sessão da última terça, pode ter feito uma vítima, que, aliás, nada tem a ver com Vorcaro e o Master. Pelas últimas rodadas de pesquisas para as eleições presidenciais, não apenas Flávio Bolsonaro passou numericamente Lula nas simulações de segundo turno, mas personagens tão ou mais insignificantes que o filho Zero Um do Mito, como Renan Santos, Zema, Caiado e Cury tornaram-se mais competitivos. Isso acontece porque o eleitor médio não consegue separar Moraes de Lula e a imprensa nada faz para combater a desinformação.
Em situação normal de temperatura e pressão, apenas pelo que fez em seu último governo, Lula apareceria nas pesquisas com ampla margem de diferença para os demais candidatos, todos muito fracos e nenhum serviço prestado ao país. Mas o mundo virou de ponta-cabeça, e no Brasil de editoriais sobre escolhas “muito difíceis”, um republicano como Lula corre o risco de ser derrotado para um extremista de direita sem nada para oferecer, a não ser ódio, violência e destruição.

Se alerta de fascismo, esquemas de rachadinha, relação com Vorcaro, amizade com milicianos e políticos ligados ao crime organizado não colam no candidato do PL, o que é preciso mudar na consciência do eleitor é a certeza de que tudo vai piorar se Lula não for reconduzido ao cargo.
A questão deveria parecer simples, mas nessa barafunda, se você não está confuso, é porque não entendeu nada.
Sobre o autor:
*Carlos Zacarias de Sena Júnior, graduado em História pela Universidade Católica do Salvador (1993), mestre em História pela Universidade Federal da Bahia (1998) e doutor também em História pela Universidade Federal de Pernambuco (2007), Professor do Departamento de História da UFBA.Contato: zacasenajr@uol.com.br
📢 *COLUNA DO AUTOR:*
Publicado no Jornal A Tarde, (Coluna do autor), edição de 18.09.2026.



