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Só não me peçam para usar a “amarelinha”

Portanto minha camisa da CBF/Nike permanecerá no armário, local onde esteve nos últimos dez anos. Faço isso menos por desgosto com a Seleção e mais porque não quero ser confundido com bolsonarista. Não me entendam mal: nem todo que usam a camisa amarela da Seleção são bolsonaristas, mas todo bolsonarista usa, daí que tomei ranço do uniforme. por Carlos Zacarias de Sena Júnior

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: por Carlos Zacarias de Sena Júnior
12/06/2026 às 11h58
Só não me peçam para usar a “amarelinha”

Carlos Zacarias de Sena Júnior

Doutor em História, professor da UFBA

Não sei vocês, mas eu não estou nada animado pra Copa do Mundo que começou ontem. Tenho uma “amarelinha” oficial, que comprei em 2006 para uma temporada em Portugal. Todo brasileiro que já saiu do país sabe o quanto nos sentimos mais patriotas quando estamos fora. Infelizmente esse não é o sentimento que predomina em solo pátrio, especialmente quando vemos preconceito contra nordestinos vindo de gente que acha que o Sul é o seu país.

Portanto minha camisa da CBF/Nike permanecerá no armário, local onde esteve nos últimos dez anos. Faço isso menos por desgosto com a Seleção e mais porque não quero ser confundido com bolsonarista. Não me entendam mal: nem todo que usam a camisa amarela da Seleção são bolsonaristas, mas todo bolsonarista usa, daí que tomei ranço do uniforme. Eu até entendo os que querem disputar os símbolos pátrios com a extrema direita, mas não é pra mim.

Sou rancoroso nesses assuntos, porque não dá pra brincar com fascista. Por isso não consigo andar na rua sem estar alerta ao menor sinal de hino, bandeira ou camisa amarela da Seleção. Então, sem essa de patriotismo fajuto e oportunista, que dá as caras de quatro em quatro anos ou costuma se juntar para pedir golpe de Estado. Se é pra torcer, prefiro escolher com quem compartilho alegrias e choro tristezas.

Os bolsonaristas levaram nossos símbolos, é verdade, mas eu não lamento. Como todos os hinos de países, o nosso vocifera contra inimigos imaginários, evocando idolatrias pretéritas. Sobre a bandeira, em Portugal me dei conta de que usá-las na fachada de casa era coisa de fascista. Foi o que me disse um amigo português, estudioso do salazarismo, quando em 2006 viu a bandeira do Brasil e de Portugal na janela da minha morada no Porto. Na ocasião desenhei orgulhoso, dizendo que no Brasil não era assim.

Pendurar a bandeira na janela já foi, entre nós, sinal de amor à “pátria de chuteiras”, como disse Nélson Rodrigues. Mal sabia o que estava por vir.

Enfim, a Copa do Mundo começou, o Brasil estreia amanhã contra o Marrocos e não dá para ser indiferente: ou se ama ou se odeia. Por enquanto, sou todo ódio a essa euforia forçada e diversionista em que Carlo Ancelotti toma o lugar do escândalo Vorcaro-Dark Horse-Flávio nas manchetes dos jornais. Para completar, o gringo convocou Neymar e deixou Luciano Juba de fora.

Eu queria mesmo é dizer que não estou nem aí para a Copa. O problema é que sei que “futebol é a coisa mais importante entre as coisas menos importantes da vida”, como disse o técnico italiano Arrigo Sacchi. Portanto seria impossível supor que os próximos 30 dias me seriam indiferentes ou apenas de puro ódio. No fim das contas, o provável é que a um grito de gol e um close de felicidade de um brasileiro em pleno gozo dessa “alegria fugaz”, sou capaz de dar uma espiada. Se calhar, vou até torcer pela Seleção. Só não me peçam para usar a amarelinha.

Aí já é demais.

*Carlos Zacarias de Sena Júnior, graduado em História pela Universidade Católica do Salvador (1993), mestre em História pela Universidade Federal da Bahia (1998) e doutor também em História pela Universidade Federal de Pernambuco (2007), Professor do Departamento de História da UFBA.

Contato: zacasenajr@uol.com.br

Publicado no Jornal A Tarde, (Coluna do autor), edição de 12.06.2026.

 

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Carlos Zacarias de Sena Júnior
Carlos Zacarias de Sena Júnior
(*) Carlos Zacarias de Sena Júnior é professor do Departamento de História da Universidade Federal da Bahia. Graduado em História pela Universidade Católica do Salvador, é mestre em História pela UFBA e doutor pela Universidade Federal de Pernambuco. Atua como articulista, com textos publicados no jornal A Tarde e na coluna Página de Polícia, onde analisa temas de política, história e relações internacionais.
Contato: zacasenajr@uol.com.br
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