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Laura Cardoso: uma vida inteira dedicada à arte brasileira

Da pioneira da televisão à consagração no teatro e no cinema, atriz construiu uma das trajetórias mais longevas e respeitadas da dramaturgia nacional,

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: Editoria Geral
18/08/2026 às 09h02 Atualizada em 18/08/2026 às 09h13
Laura Cardoso: uma vida inteira dedicada à arte brasileira

Laura Cardoso, uma das maiores atrizes da história da dramaturgia brasileira, morreu na madrugada desta terça-feira, 18 de agosto de 2026, aos 98 anos, em São Paulo. A informação foi divulgada pela família nas redes sociais. Segundo informações publicadas nesta manhã, a morte ocorreu por causas naturais. O velório foi programado para ocorrer em cerimônia restrita aos familiares.

Nascida Laurinda de Jesus Cardoso Balleroni, em 13 de setembro de 1927, no bairro do Bixiga, em São Paulo, Laura era filha de imigrantes portugueses. Desde criança demonstrava interesse pela representação e costumava recitar textos para familiares e colegas. Aos 15 anos, em 1942, iniciou profissionalmente sua trajetória no rádio, trabalhando em radionovelas. Foi ali que adotou o nome artístico pelo qual o Brasil inteiro a conheceria: Laura Cardoso.

Uma pioneira da televisão brasileira

Laura Cardoso pertence à primeira geração de artistas que ajudaram a construir a televisão no Brasil. Sua estreia ocorreu nos primeiros anos da TV Tupi, ainda na década de 1950. Em 1952, participou de "Tribunal do Coração", iniciando uma relação com a televisão que atravessaria mais de sete décadas.

Sua carreira acompanhou a própria evolução da dramaturgia brasileira. Laura passou por diferentes emissoras e formatos, dos teleteatros às grandes novelas, consolidando-se como uma das atrizes mais constantes da televisão. Ao longo da carreira, acumulou mais de 100 trabalhos e participou de mais de 60 novelas, além de séries, minisséries e teleteatros.

Na TV Globo, onde estreou em 1981, tornou-se presença marcante em diferentes gerações de novelas. Entre seus trabalhos mais lembrados estão "Brilhante", "Pão-Pão, Beijo-Beijo", "Livre para Voar", "Fera Radical", "Rainha da Sucata", "Felicidade", "Mulheres de Areia", "A Viagem", "Caminho das Índias", "O Outro Lado do Paraíso" e "A Dona do Pedaço".

Entre seus personagens mais populares estão Isaura, de "Mulheres de Areia", e Dona Guiomar, de "A Viagem", personagens que ajudaram a consolidar a imagem de Laura como uma intérprete capaz de transformar figuras aparentemente secundárias em personagens inesquecíveis.

Seu último trabalho em uma novela foi "A Dona do Pedaço", em 2019. Mesmo depois disso, Laura continuou ligada à arte. Em 2025, aos 97 anos, participou do curta-metragem "Dona Rosinha", interpretando uma idosa abandonada pela filha. Foi uma de suas últimas aparições profissionais e uma demonstração de que, até o fim, manteve a ligação com a profissão que escolheu ainda adolescente.

No teatro, a atriz antes da celebridade

Embora tenha se tornado conhecida nacionalmente pela televisão, Laura Cardoso nunca abandonou o teatro, que considerava uma das bases fundamentais de sua formação artística.

Nos palcos, trabalhou com importantes diretores e participou de montagens que marcaram sua trajetória. Sua atuação teatral foi reconhecida com importantes premiações, entre elas o Prêmio Shell. Trabalhou com nomes de destaque da cena brasileira, como Antunes Filho e Gabriel Villela, mantendo ao longo das décadas uma relação profunda com o texto, a interpretação e a construção dos personagens.

Foi justamente no teatro que Laura desenvolveu uma característica que acompanharia toda sua carreira: a disciplina diante do trabalho. Para ela, representar não era apenas aparecer diante das câmeras, mas compreender profundamente cada personagem e respeitar o texto.

Cinema e outros trabalhos

No cinema, Laura também construiu uma trajetória expressiva. Participou de mais de 20 filmes, segundo levantamentos recentes, e recebeu reconhecimento por trabalhos como "O Outro Lado da Rua" e "Através da Janela". Sua filmografia inclui ainda produções como "Quincas Borba", "Terra Estrangeira", "De Onde Eu Te Vejo" e "Dona Rosinha".

Laura também emprestou sua voz à dublagem. Um de seus trabalhos mais lembrados foi como a personagem Betty, de "Os Flintstones", ampliando sua presença na cultura popular brasileira.

Uma coleção de personagens inesquecíveis

A grandeza de Laura Cardoso não pode ser medida apenas pela quantidade de trabalhos realizados. Sua importância está também na capacidade de criar personagens que permaneciam na memória do público.

Na televisão, além de Isaura e Dona Guiomar, interpretou personagens em produções como "Rainha da Sucata", "Felicidade", "Caminho das Índias", "O Outro Lado do Paraíso" e diversas outras novelas e séries.

Seu estilo de interpretação era marcado pela naturalidade, pela força dramática e pela capacidade de transmitir emoção sem exageros. Laura conseguia dar profundidade tanto às personagens centrais quanto àquelas que apareciam em poucos capítulos.

Prêmios e reconhecimento

Ao longo de mais de oito décadas de carreira, Laura Cardoso recebeu algumas das principais homenagens destinadas a artistas brasileiros. Entre elas estão prêmios APCA, Troféus Imprensa, Prêmios Shell e o Troféu Mário Lago, recebido pelo conjunto de sua obra.

Em 2006, recebeu a Ordem do Mérito Cultural, uma das principais condecorações brasileiras destinadas a personalidades que contribuíram para a cultura nacional.

Em 2025, já aos 98 anos, foi novamente homenageada, desta vez com uma estrela na calçada da fama dos Estúdios Globo.

Laura Cardoso | Provocações | 2014

A despedida de uma gigante

Laura Cardoso morreu aos 98 anos depois de mais de oito décadas dedicadas à arte. Sua última fase de vida foi marcada por homenagens, reconhecimento e pela disposição de continuar trabalhando.

A atriz nunca tratou a aposentadoria como um destino natural para sua carreira. Seu vínculo com a profissão permaneceu até os últimos anos. Em 2025, durante o lançamento de "Dona Rosinha", ainda demonstrava entusiasmo com o cinema e falava sobre a capacidade transformadora da arte.

A notícia de sua morte provocou manifestações de artistas de diferentes gerações. Tony Ramos, que conviveu profissionalmente com Laura desde os tempos da TV Tupi, a definiu como uma espécie de "rainha da TV" e destacou sua importância para a história da televisão brasileira.

Depoimentos:  

“Rainha da televisão”, “mestra” e “eterna”: artistas se despedem de Laura Cardoso

Colegas de diferentes gerações prestaram homenagens à atriz e destacaram seu talento, generosidade e importância para a história da dramaturgia brasileira

A morte de Laura Cardoso, aos 98 anos, provocou uma onda de homenagens no meio artístico. Atores, apresentadores, cantores e profissionais que dividiram os palcos e estúdios com a veterana recorreram às redes sociais e deram entrevistas para lembrar não apenas a grande atriz, mas também a colega generosa e a referência profissional que atravessou gerações.

Entre as manifestações mais marcantes está a de Tony Ramos, amigo de Laura havia mais de seis décadas. Os dois se conheceram ainda nos tempos da TV Tupi e voltaram a trabalhar juntos em diferentes momentos da carreira. Ao recordar a atriz, Tony resumiu a dimensão que ela tinha entre os colegas:

“Era a nossa rainha.”

O ator também recordou que a chamava carinhosamente de “Laureta” e “Laurinha”. Para Tony Ramos, Laura representava uma geração fundamental na construção da televisão brasileira, além de ser uma profissional marcada pelo vigor e pela dedicação à arte.

Ary Fontoura também se despediu da amiga e colega. Ao publicar uma fotografia ao lado de Laura, escreveu:

“Essa luz, esse sorriso e esse brilho jamais serão esquecidos. Meu carinho a toda a família.”

A atriz e humorista Fabiana Karla demonstrou emoção ao receber a notícia. Em sua homenagem, contou que não estava preparada para a despedida e que desejou, por um instante, que tudo não passasse de um sonho.

Outra manifestação carregada de memória veio de Miguel Falabella. Amigo de Laura Cardoso por cerca de quatro décadas, ele relembrou a convivência profissional e pessoal com a atriz. Falabella destacou o privilégio de ter acompanhado de perto o talento de uma artista que ajudou a escrever capítulos fundamentais do teatro e da televisão brasileira.

Nas redes sociais, Tatá Werneck também deixou sua despedida:

“Linda! Laura amada. Deus te receba com todo o amor do mundo.”

O apresentador Luciano Huck destacou a importância histórica da atriz para o país:

“Parte da cultura brasileira. Meu carinho à família.”

A cantora Maria Gadú escolheu apenas uma palavra para sintetizar o sentimento diante da perda:

“Eterna.”

A atriz Adriana Garambone definiu Laura como “ícone”, “mestra” e “grande atriz”, agradecendo por tudo que ela representou para a profissão e para a dramaturgia nacional.

Patrícia de Sabrit, que teve a oportunidade de interpretar uma neta de Laura na televisão, também recordou a convivência profissional. Em sua homenagem, ressaltou a entrega da veterana ao trabalho, sua forma de atuar e a inspiração que transmitia aos colegas, definindo-a como “uma diva”.

O ator Erik Marmo lembrou a oportunidade de contracenar com Laura e destacou sua sabedoria e generosidade. Já Marcelo Adnet resumiu sua homenagem em uma expressão que passou a se repetir entre admiradores da atriz:

“Eterna”

Outros artistas também se manifestaram, entre eles Kiko Mascarenhas, Maíra Charken, Debora Lamm, Ícaro Silva, Guta Stresser, Fabrício Boliveira, Tati Quebra Barraco, Gorete dos Milagres e diversos profissionais que acompanharam sua trajetória.

As mensagens revelam algo que vai além dos inúmeros personagens deixados por Laura Cardoso. Para quem trabalhou ao seu lado, ela era também uma referência de profissionalismo, disciplina e respeito pela profissão.

Ao longo de mais de oito décadas de carreira, Laura viu nascer a televisão brasileira, acompanhou suas transformações e contracenou com diferentes gerações de artistas. Alguns foram seus contemporâneos. Outros cresceram assistindo a seus personagens e, anos depois, tiveram a oportunidade de dividir uma cena com aquela que já consideravam uma mestra.

Por isso, talvez as palavras utilizadas pelos próprios colegas sejam capazes de resumir sua dimensão: rainha, mestra, ícone, diva e eterna.

Laura Cardoso deixa os palcos e as telas, mas permanece na memória dos artistas que aprenderam com ela e de milhões de brasileiros que acompanharam sua obra.

A história de Laura Cardoso se confunde com a própria história da dramaturgia brasileira. Ela esteve presente quando a televisão ainda dava seus primeiros passos, atravessou diferentes fases do rádio, do teatro, do cinema e da televisão e permaneceu relevante mesmo quando várias gerações de artistas já haviam passado pelas telas.

Mais do que uma atriz de novelas, Laura Cardoso foi uma testemunha e, ao mesmo tempo, uma construtora da cultura brasileira. Seus personagens, sua voz, sua disciplina e sua maneira de compreender a profissão ajudaram a formar a memória afetiva de milhões de brasileiros.

Sua morte encerra uma trajetória de mais de 80 anos diante dos palcos, microfones e câmeras. Mas a obra permanece. E, na dramaturgia brasileira, poucas carreiras tiveram a longevidade, a consistência e o respeito conquistados por Laura Cardoso.

Laura se despede da vida, mas permanece na história da arte brasileira.

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